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Outubrite tem cura !

Se você está no último ano do segundo grau ou no cursinho, e o seu corpo acusa, ainda que de forma amena, alguns desses sintomas, não é o caso de se desesperar. O piripaque tem nome — outubrite — e pode ser curado sem maiores problemas. O nome, criado pelos professores de cursinho, relaciona o conjunto de fatores de stress e insegurança reunido pelos vestibulandos ao mês em que o desespero aparece com toda força. Educadores e psicólogos se dividem quanto à melhor forma de se lidar com o vestibulando na reta final, mas são unânimes em relação a importância de se atenuar as cobranças para amenizar essa angústia pré-vestibular batizada de outubrite.

A primeira atitude é definir os cursos e faculdades a serem tentados. No momento da inscrição, os questionamentos em relação à carreira angustiam o adolescente. “É um tal de pai perguntando:´Mas tem certeza de que é Direito que você quer fazer?` Ou então depreciando a escolha: ´Vai ter emprego nessa área?, Você vai ganhar dinheiro com isso?`”, identifica Alexandrina Meleiro, do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo. “Muitas vezes, a pressão faz o estudante escolher, a contragosto, um curso menos disputado. Isso ocorre porque esses jovens não foram ensinados a aceitar uma possível derrota e acabam fugindo da situação, o que é mais grave”, constata. Recentemente, Alexandrina tratou, em seu consultório, de um caso urgente. A moça, ainda no segundo ano, desabou após uma crise de pânico, produzida pelo fantasma do vestibular ser medicada. “Não existe apenas disputa entre os alunos. Os cursinhos brigam entre si, os colégios estabelecem verdadeiras batalhas pelos índices de aprovação e a competição explode na cabeça do coitado do adolescente”, analisa a psiquiatra.

Na avaliação de Júlio Groppa Aquino, professor de Psicologia Escolar de Educação da USP, a primeira escolha profissional é, antes de tudo, a opção por uma fantasia de profissão. “Ninguém tem condições de escolher o que não conhece. A escolha da carreira na adolescência é sempre um chute. Nem mesmo uma boa orientação profissional garante conhecimento dessas profissões. Ser informado não significa conhecer”, diz. A solução, de acordo com Aquino, é exercitar com seriedade a fantasia. Isso significa pergunta-se não apenas “com o que quero me parecer?”, mas também “com o que posso me parecer?”, isto é, conjugar interesse com habilidade. O estudante André Porchat, 18 anos, é um exemplo. Ele foi rápido no gatilho. “Escolhi Administração porque é um curso universal e abrange as áreas em que gostaria de trabalhar, como hotelaria e turismo”, explica ele.

Escolhi a profissão, sobra tempo para pensar no que é mais importante : a preparação. O próximo passo é esquecer o que deixou de ser feito e concentrar-se na agenda dos próximos meses. Na avaliação dos educadores, ainda há tempo para muita coisa. A professora de Biologia, Maria Estela Zanini, do Núcleo de apoio ao vestibulando do colégio Bandeirantes, aconselha a procura de um professor para a montagem de um cronograma de revisão. “É possível estudar muita coisa entre outubro e o final do ano. Basta mostrar organização”, acredita ela. É muito fácil dizer que não está estudando porque ainda não escolheu o curso. O problema é que, se o alvo for Estilismo, Medicina, Fonoaudiologia ou Engenharia Naval, o vestibulando terá que saber do mesmo jeito a função do ribossomo, os usos do Teorema de Pitágoras e as aplicações da crase.

Outra medida é reavaliar o peso do concurso. ” O vestibular costuma ser encarado como uma questão de vida ou morte. Não passar significa frustração e a aprovação eleva à categoria de semideus. Obviamente, nenhuma das duas coisas é verdadeira”, explica Aquino. A estudante Carla ChalitaCury, 17 anos, candidata a vagas para Administração de Empresas e Direito, resume o sufoco desses dias. “É pressão de todo lado, somada ao peso de ter feito cursinho durante um ano inteiro. “Ernesto Micea Birner, coordenador de uma das unidades do Anglo Vestibulares, aprova todas as iniciativas para aliviar o peso do exame.

“Eles vêm ao cursinho com a expectativa de passar no vestibular no mesmo ano, mas eu digo que ele pode chegar lá esse ano ou não”, conta ele. Aos ansiosos, Micea costuma dizer, em tom de brincadeira, que não está preocupado com suas alegrias neste momento, mas sim com a felicidade daqui a 20 ou 30 anos. “O vestibular é só uma etapa para alcançar algo importante, e não o fim”, faz cor a psicóloga Maria da Conceição Uvaldo, coordenadora de Serviço de Orientação Profissional do Instituto de Psicologia da USP.

O comportamento dos pais também influi decisivamente na tranqüilidade e no nível de confiança dos vestibulandos. A professora Maria Estela, do Colégio Bandeirantes, fez uma espécie de pesquisa informal com ex-alunos que passaram para medicina no vestibular. A maioria relatou que os pais mais atrapalham do que ajudam nesse período. “Eles evitam exigências diretas, mas cobram veladamente. Um aluno contou que chegava em casa e ouvia: “Você vai longe.” Mas por trás da porta o discurso era outro: “Esse menino é um vagal.” Ou seja, se os pais não souberem como apoiar os filhos, o melhor é não falar nada. A estudante Nara Cunha, 17 anos, está tranqüila em relação à família: “Eles sabem do esforço que fiz. Realizei o lekhor possível e, se não passar, seguirei minha vida sem dramas”, garante. O professor Aquino é mais radical: “Os pais devem mesmo é para de encher o saco dos garotos neste momento.”

A melhor atitude na reta final do vestibular é abandonar a culpa. “Não se trata de separar a diversão do estudo, mas se divertir nos dois momentos. Aprendizado é qualidade, não quantidade”, ensina o professor Aquino, da Faculdade de Educação da USP. Para a estudante Carla, em véspera de prova o melhor é dormir o dia inteiro. “O máximo que se pode fazer é relembrar algumas fórmulas.” Alexandrina também insiste na importância de intercalar estudo e descanso. “Todos sabem que o trabalho rende mais quando, a cada duas ou três horas, faz-se um intervalo de dez a vinte minutos. Com o estudo não é diferente.” A culpa que costuma torturar os vestibulandos a cada ida ao cinema ou simples parada para o lanche pode ser amenizada com o seguinte raciocínio: “Um intervalo nos estudos serve para sedimentar o conhecimento adquirido.” Para a Maria da Conceição, as fórmulas para os últimos dias não devem ser levadas a ferro e fogo. “O que adianta para o adolescente sair e se descontrair se isso foge se seu ritmo normal? Para mim, o melhor caminho é ter responsabilidade e ser o mais fiel possível à escolha e ao próprio temperamento. Se o estudante acha melhor ficar em casa, que fique”, aconselha a educadora.

Nos meses finais, é comum que o aluno passe a se dedicar um pouco mais ao estudo, mas o lazer não pode ser abandonado por completo. “Uma pessoa não pode passar de repente de um mundo que era fragmentado em diferentes atividades para um mundo em que a única coisa que existe é o estudo. Alguns alunos não entendem este fato e acabam tendo problemas. Isso é importante para amenizar a pressão”, reforça Micea.

Para a hora da prova, o professor aconselha o aluno a começar pelo mais simples, como num jogo de pega-varetas, para aumentar a confiança. A outubrite, como se vê, não é um bicho-de-sete-cabeças. Basta fazer a própria parte. E contar com o respeito e o apoio de pais, irmãos, namorados e amigos. Isso é direito do vestibulando.

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