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A crise alimentar no mundo

 

A crise alimentar se espalha pelo mundo

 Os primeiros sinais de uma grave crise alimentar
mundial já foram dados por diversos países.

O Brasil também registra uma vertiginosa subida dos preços do
trigo, do feijão, do leite e, nos dois últimos meses, do arroz. Os EUA já estão
racionando o arroz e a Argentina, o trigo. Segundo o recente informe
"Perspectivas das colheitas e da situação alimentar", elaborado pela FAO, as
previsões para este ano não são nada animadoras: a conta das importações
aumentará pelo menos 56%. Para dar uma resposta a essa situação, a FAO lançou o
programa "Iniciativa sobre o aumento dos preços dos alimentos" oferecendo ajuda
técnica e de política pública aos países mais pobres e que estão sendo duramente
afetados pela subida dos preços.

O
Programa Mundial de Alimentos também manifestou a sua preocupação, porque se
seguir essa tendência, o universo de pessoas sem alimento aumentará em alguns
milhões. Egito, Camarões, Indonésia, Haiti, Paquistão e Tailândia, entre outros,
registraram manifestações que tiveram como resposta uma ação policial-militar.
Hoje são 37 os países que sofrem uma severa crise alimentar. Henri Josserand,
executivo do Sistema Mundial de Informação da FAO, esclareceu que "a despesa com
alimentos nos países industrializados representa entre 10 e 20% do seu
orçamento; já nos países em desenvolvimento ela pode chegar até 80%".

A FAO adverte ainda que as reservas mundiais de cereais
atingirão, até o final de 2019, o seu nível mais baixo nos últimos 25 anos.
Miguel Altieri, membro da Sociedade Científica Latino-Americana de Agroecologia
afirma que "a agricultura mundial está numa encruzilhada. A economia global
impõe demandas conflitantes sobre os 1,5 bilhão de hectares cultivados. Não só
se pede à terra agrícola que produza alimento suficiente para uma população
crescente, mas também que produza biocombustíveis, e que faça isso de um modo
que seja saudável para o meio ambiente, preservando a biodiversidade e
diminuindo a emissão de Gases de Efeito Estufa, e que, ainda, seja uma atividade
economicamente viável para os agricultores".

Ao analisar a importância da questão da fome hoje, ela se
revela de forma muito diferente da estudada por Josué de Castro na sua
"Geografia da Fome". Altieri afirma: "a crise que ameaça a segurança alimentar
de milhões de pessoas é o resultado direto do modelo industrial de agricultura,
que não só é perigosamente dependente de hidrocarbonetos, mas tem se tornado,
ainda, a maior força antrópica modificadora da biosfera. As crescentes pressões
sobre a área agrícola estão minando a capacidade da natureza de suprir as
demandas da humanidade quanto a alimentos, fibras e energia. A tragédia é que a
população humana depende dos serviços ecológicos (ciclos de água, polinizadores,
solos férteis, clima local, etc.) que a agricultura intensiva continuamente
empurra para além de seus limites". Uma das respostas a essa realidade é o
incentivo à agricultura familiar. Segundo Vicente Puhl, da FASE-MT, "o
incremento nos agrocombustíveis ainda não é o problema, mas pode agravar a
situação da escassez dos alimentos; o maior problema é que o negócio
agroalimentar está nas mãos de 15 transnacionais, como a Bunge, Monsanto,
Cargill e ADM, que tornam os agricultores dependentes".

Os movimentos de trabalhadores da terra organizados, da
França, do Brasil ou da Índia, para citar alguns países, afirmam que a solução
se encontra no fortalecimento da agricultura familiar. Altieri adverte que "a
escala e urgência do desafio que a Humanidade enfrenta é sem precedentes e o que
é preciso fazer é ambiental, social e politicamente possível". Erradicar a fome
mundial requer um investimento anual de R$ 150 bilhões; um valor pequeno se
comparado com o orçamento militar do G8, que supera o trilhão de dólares anual.
A crise alimentar é uma séria advertência. Medidas urgentes devem ser adotadas
antes que a fome se transforme num desastre irreversível.

Gaia viverá!

A revista ECO 21 é parceira da Envolverde. Para conhecer a ECO 21 acesse:http://www.eco21.com.br/home/index.asp

(Por René Capriles e Lúcia Chayb, da revista ECO 21 Envolverde/ECO 21)

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