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Conflito em território Andino

Conflito Andino

Atualidades: Conflito no Equador e Colômbia

A incursão militar da Colômbia em território equatoriano é a questão central da crise entre três países andinos e deve ser resolvida no âmbito da Organização dos Estados Americanos (OEA), segundo a posição oficial do governo brasileiro, divulgada ontem pelo chanceler Celso Amorim. Um novo pedido de desculpas do presidente colombiano, Álvaro Uribe, mais claro e sem as restrições do primeiro, poderia reduzir a tensão, que é o objetivo imediato, afirmou o ministro. A questão da Venezuela, cujo presidente, Hugo Chávez, anunciou o envio de tropas para a fronteira com a Colômbia, não é um problema do momento, acrescentou.

Uribe pediu desculpas ao Equador por ter violado seu território no sábado em um ataque dirigido a matar Raúl Reyes, dirigente das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). Mas seu colega equatoriano, Rafael Correa, não aceitou as explicações e ontem determinou o rompimento de relações diplomáticas e o envio de tropas para a fronteira. “A violação territorial é condenável”, disse Amorim, descartando no momento as circunstâncias “atenuantes” que poderiam representar as explicações colombianas de reação a ataques ou exercícios da legítima defesa. O Brasil propõe que uma comissão da OEA investigue a operação colombiana em terras equatorianas.

Dessa forma, a posição de Brasília contraria uma opinião generalizada entre parlamentares e analistas brasileiros que sugeriram uma mediação mais ativa e ampla do Brasil não limitada à crise desatada pela incursão colombiana. O governo faz um esforço para “facilitar o diálogo” e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva está em contato telefônico com seus colegas envolvidos na crise, afirmou o chanceler. Brasília deveria exercer um papel “mobilizador” para criar um grupo mediador de países latino-americanos, disse à IPS o senador Cristovam Buarque, membro da Comissão de Relações Exteriores do Senado e ex-ministro da Educação.

Atuar sozinho “não permitiria o êxito”, mas é uma questão que deve ser resolvida na região, sem participação de governos alheios a ela, especialmente dos Estados Unidos, acrescentou Buarque. “Mas, “tem de ser rápido”, porque a América do Sul vive o mais grave risco de confronto desde a Guerra do Pacífico – desatada por uma disputa fronteiriça do Chile contra a Bolívia e o Peru entre 1879 e 1884 – disse o senador do Partido Democrático Trabalhista. Um conflito armado, mesmo “de um só dia e dois soldados mortos, deixaria uma mancha definitiva nas relações sul-americanas. Não seria mais um conflito pequeno”, afirmou. A integração subcontinental estaria, então, condenada, ressaltou Cristovam Buarque.

A mediação é necessária e o Brasil deve exercer sua liderança, unindo-se a outros países para evitar que a crise atual provoque danos em toda a região, afirmou o presidente da Câmara de Deputados, Arlindo Chinaglia, do Partido dos Trabalhadores, coincidindo com outros deputados e senadores. O Brasil também é a origem dos aviões usados pela Força Aérea colombiana no bombardeio do acampamento das Farc no qual morreram 17 guerrilheiros. Os aviões eram parte dos 25 Super Tucanos que a Embraer vendeu à Colômbia em 2019.

Mas, não cabe ao Brasil nenhuma responsabilidade nos fatos, pois vender aviões é uma “questão comercial”, e não se tratou de uma “doação nem de cooperação militar’, destacou o senador Buarque. A Colômbia teria comprado de outros fornecedores se a Embraer não os tivesse vendido, justificou. Também a Venezuela teve interesse em comprar os mesmos aviões fabricados no Brasil, mas foi impedida por um veto dos Estados Unidos, pois alguns componentes dos aparelhos brasileiros provêm daquele país. O governo venezuelano acabou reequipando sua Força Aérea com aviões militares russos.

Ao contrário do grave risco de combates armados que o senador Buarque vê, o chanceler Amorim percebe escassas possibilidades de semelhante agravamento do conflito. A crise é mais de retórica agressiva, analisa Clóvis Brigadão, diretor do Centro de Estudos Americanos da Universidade Cândido Mendes, do Rio de Janeiro, que procura difundir análises de prevenção e mitigação de conflitos internacionais. Entretanto, esta situação cria “uma oportunidade única” para estabelecer uma mediação coletiva semelhante à do Grupo de Contadora, que atuou na pacificação da América Central nos anos 80, disse Brigadão à IPS. O conflito pode impulsionar a negociação, como um “mal que vem para o bem”, afirmou.

Seria o momento para negociar uma “paz ampla e duradoura’ entre os países andinos agora em confronto, mas também dentro da Colômbia, que vive uma guerra interna de mais de 40 anos. O Brasil, que já tem “legitimidade” por ter mediado no conflito fronteiriço entre Equador e Peru em 1998, deveria somar-se a outros países, como Argentina, Chile e Peru, na busca de soluções, afirmou o especialista. O conflito entre Colômbia e Equador, agravado pela disposição bélica de Chávez, pode provocar baixas na Cúpula da União de Nações Sul-americanas (Unasur), fixada pra os dias 28 e 29 de março em Cartagena das Índias, no norte da Colômbia. (IPS/Envolverde)

Por Mario Osava, da Envolverde/IPS

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