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O Perigo da Dengue

Um perigo chamado Dengue

Atualidades: Dengue: epidemia anunciada?

O mosquito Aedes aegyptiCasos da doença explodem em todo o país e suspeita-se que o vírus esteja ainda mais agressivo.

Todo ano, depois das chuvas de verão, começa a época do dengue. Assim tem sido desde 1982, quando a epidemia ressurgiu depois de 30 anos. Este ano, porém, ela começa a mostrar um comportamento muito agressivo. No primeiro semestre, o número de casos explodiu, somando mais de 480 mil infectados, total 50% maior em comparação ao mesmo período de 2019. Os Estados mais atingidos foram Mato Grosso do Sul, Paraná, Rio de Janeiro e Pernambuco. Porém ainda mais grave do que a infestação nacional de Aedes aegypti – o mosquito transmissor do vírus causador da enfermidade – é a perturbadora evolução de casos de dengue hemorrágica. Até setembro, 1.076 pessoas tiveram a doença, e 121 morreram por causa dela. Os especialistas calculam que de cada 100 pessoas com dengue hemorrágica, 11 morreram. É um padrão muito elevado segundo os critérios da Organização Mundial de Saúde. A entidade avalia que é possível controlar a situação para que as mortes não ultrapassem 1% dos casos. Além disso, muitos desenvolveram essa forma de dengue na primeira vez em que foram infectados – um estudo da Fiocruz no Recife mostrou que 52% das vítimas da forma hemorrágica se encontravam nessas condições. Preocupa porque o normal é a manifestação de dengue hemorrágica somente após a segunda infecção.

Uma das hipóteses para esse fenômeno seria a maior virulência do vírus. Até porque já se observa que cresceu o contingente de pessoas que manifestaram sintomas mais intensos. “Pode ser que estejamos lidando com cepas mais virulentas”, analisa o infectologista Affonso Viviani Júnior, diretor da Superintendência de Controle de Endemias de São Paulo. Mais uma explicação é a circulação de vários sorotipos do vírus ao mesmo tempo. Dos quatro conhecidos, três circulam no Brasil. Já se sabe que a infecção por diversos tipos favorece mudanças na coagulação do sangue que podem levar à hemorragia. E quanto maior a diversidade de vírus, maior a competição entre eles por mosquitos. “Vencerão a batalha os que tiverem maior capacidade de reprodução dentro do corpo humano”, explica o virologista Paulo Zanotto, da Universidade de São Paulo. Esse fato também levará a infecções mais graves.

É por tudo isso que a aproximação do tipo 4 do vírus, que ainda não circula no Brasil, deixa os médicos apreensivos. Acredita-se que sua chegada seja questão de tempo, pois ele já circula na Venezuela, por exemplo. Mais uma aflição das autoridades este ano é a reintrodução do sorotipo 2 em São Luís do Maranhão, que não era detectado naquela área desde 1994. “Este vírus está afetando crianças de até nove anos que não tiveram contato com esse tipo antes”, diz Fabiano Pimenta, secretário adjunto de Vigilância do Ministério da Saúde.

Na prática, o dengue avança. Aos fatores inevitáveis, como as mudanças de clima e a circulação do vírus, somam-se as lacunas no combate ao mosquito. Uma delas é capacitação de profissionais para lidar com as emergências do dengue e salvar vidas. Erros de diagnóstico e tratamento são comuns, como ocorreu com o especialista em informática Tarsio Moraes, 30 anos. Em 2019, ele foi a um hospital em São Caetano do Sul (SP), com vômitos e febre. “A médica me deu soro, analgésicos contra-indicados paro dengue e disse que poderia ter HIV, o vírus da Aids”, lembra ele, que na verdade estava mesmo era com dengue.

A gravidade da situação levou o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, a admitir que o País está em uma epidemia, a declarar as mortes por dengue inaceitáveis e a anunciar medidas. Uma delas será reforçar o treinamento médico. Na semana que vem, 300 mil desses profissionais receberão uma carta chamando para a mobilização contra a doença e um CD-ROM com dados sobre o mal. “As mortes são evitáveis desde que o atendimento seja adequado e no tempo devido”, diz o infectologista Rivaldo Venâncio da Cunha, um dos entrevistados do CD-ROM organizado pelo Núcleo de Educação em Saúde Coletiva da Universidade Federal de Minas Gerais.

O hospital, no entanto, é a ponta final. Agir aí barra as conseqüências, não as causas do problema. Entre elas estão as falhas nas ações casa a casa feitas pelos agentes de saúde. Ou porque o morador não abre a porta ou porque a vigilância não chega a locais mais distantes. Isso pode ser constatado em Sumaré, município que ocupa o 13º lugar na lista dos mais infectados em 2019 em São Paulo. Com seus 250 mil habitantes, a cidade registrou 5.931 casos de dengue este ano. Em 2019, foram 1.001. “Só conseguimos fazer algum tipo de ação com 60% da população”, diz a enfermeira Marialice Wonhrath, diretora municipal de Saúde. Para tentar reverter a situação, a prefeitura está contratando mais 20 agentes, totalizando 60. Sumaré serve de exemplo de outras circunstâncias que permitem a continuidade do dengue. Por exemplo, o fluxo intenso de pessoas de outros locais. “Os vírus pegam carona. Achamos focos de larvas de Aedes na balança de cargas para os caminhões que circulam pelas estradas”, explica Marialice. 

O descuido é ainda mais usual em locais como depósitos de material para reciclagem. Em uma das visitas quinzenais a um desses lugares, os agentes acharam quatro pontos repletos de larvas de Aedes. Para o superintendente de Vigilância em Saúde do Rio de Janeiro, Vitor Berbara, o problema é a grande ocorrência de locais sem água tratada e sem coleta de lixo regular e ocupações urbanas desordenadas. Esse cenário, ainda muito comum no País, obriga, por exemplo, as pessoas a armazenar água em locais que se transformam em criadouros. Para o especialista, o problema só será resolvido quando a população se tornar mais que parceira no combate à dengue. “As pessoas têm que ser protagonistas”, diz. De fato, basta um descuido para o mosquito se instalar. Foi o que aconteceu com a carioca Luciana Ribeiro, 28 anos. Seu apartamento fica próximo a uma área com muitas árvores, nicho natural de mosquitos. Por causa de um defeito, a caixa de descarga ficou aberta três dias e ela notou que a quantidade de mosquitos triplicou. Resultado: Luciana contraiu a doença.

Para convencer a população a participar mais, os municípios tentam inovar. A Prefeitura de Sumaré contratou a dupla Zé Bento e Tocêra para ensinar as crianças a se prevenir. Engraçados, tocando modas de viola e funk e apoiados por um “mosquito gigante”, eles fazem rir e avisam que dengue pode matar. Por fim, Sumaré está reunindo suas secretarias para conter a epidemia. A batalha transcende as ações da saúde. “o dengue é de grande complexidade em um país com 80% da população em centros urbanos, problemas de abastecimento de água e resíduos. É preciso o engajamento de todos”, aprova Pimenta, do Ministério.

Em Brasília, há vários focos que dependem da ação conjunta para sumir. No Parque da Cidade está o que sobrou da primeira piscina de ondas artificiais construída no continente. Com as chuvas, virou um imenso criadouro de larvas de mosquito. Além dela, há outros pontos de infestação no parque, usado por milhares de pessoas. O governo do Distrito Federal está vistoriando principalmente tonéis, tambores e caixas d’água. A piscina continua lá, com seus mosquitos. A falta de pessoal dificulta o trabalho – são apenas 860 agentes para toda a região. Na emergência, a Secretaria de Saúde recorreu ao Exército, que entrará na briga em duas semanas. Mas, se as ações não tiverem foco, o mosquito continuará ganhando a guerra.

 

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