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O Racismo no Brasil

Racismo no Brasil – Atualidades 

Racismo no Brasil

Em 20 de novembro de 1695, era assassinado Zumbi dos Palmares, o grande líder e guerreiro negro, que sonhou com a liberdade e que possibilitou a fundação, no Estado de Alagoas, daquela que foi considerada a primeira república socialista das Américas: o Quilombo dos Palmares. Sua história foi retomada, na década de 1970, pelo grupo gaúcho Palmares que, buscando uma alternativa ao Dia da Abolição da Escravatura (13 de maio), lança o 20 de novembro como o Dia do Negro. Em 1978, o Movimento Negro Unificado Contra a Discriminação Racial – atual MNU, consolida esta data como o Dia Nacional da Consciência Negra. 

Hoje, dados da Comissão Pró-Índio/SP (CPI) mostram que existem no Brasil em torno de 2 mil comunidades rurais remanescentes de quilombos. Conforme a diretora executiva da Fala Preta! Organização de Mulheres Negras, a educadora popular e pedagoga Gláucia Matos, tendo em conta os vários quilombos urbanos, constituídos por famílias negras que resistiram às construções das cidades, “podemos considerar que um quilombo caiu, mas mil se multiplicaram com a força e a coragem do guerreiro Zumbi.”

Mas as celebrações deste mês e do dia 20 marcam, muitas vezes, os tristes percursos desta população, até hoje discriminada e segregada em várias instâncias sociais, em muitas partes do mundo. Para Gláucia, uma das características do racismo no Brasil é exatamente a negação da sua existência. “É preciso acabar com a farsa de que vivemos numa democracia racial”, protestou. “O racismo no Brasil é um fato destruidor, que precisa ser enfrentado pela sociedade, pelo Estado e pelo poder público, pois temos uma combinação de ações violentas contra a população negra, especialmente contra jovens negros, que são levadas a cabo pelo aparelho do Estado através da polícia e do Poder Judiciário.” 

Por isto, ela considera que, de um modo geral, datas como o 20 de novembro causam impacto na população e fazem com que o movimento negro e de mulheres negras repensem como avançar e corrigir os percursos da sua luta. 

Dados da discriminação racial no Brasil
Conforme dados do Ipea, de 1999, a população negra representa mais de 64% dos 53 milhões de pobres do país, sendo que 69% destes são indigentes. O analfabetismo atinge 25% da população negra – e 10% na população não-negra; no ensino superior os negros ocupam apenas 2% das vagas, enquanto 98% são ocupadas por não-negros; 52% dos domicílios ocupados por famílias negras não possuem saneamento básico, contra 28% dos domicílios ocupados por brancos; 63% das crianças que trabalham indevidamente no País são negras e 37%, não-negras. O trabalho escravo, o subemprego e o desemprego afetam em maior índice os brasileiros afrodescendentes; quanto aos salários, as mulheres negras ganham menos que as mulheres brancas, estão na base da pirâmide da exclusão social e da miserabilidade da população brasileira.

Fonte: União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação

A mulher negra e o racismo

No rastro das comemorações do Dia Internacional da Mulher, ocorrido há poucos dias, mergulhar no complexo universo da realidade feminina é um dos caminhos para entender as profundas diferenças sócio-econômicas provocadas pela desigualdade racial e de gênero nos quatro cantos do mundo.

Fatos históricos pontuam há séculos elementos sobre a perversidade das desigualdades entre os sexos. O Dia Internacional da Mulher, por exemplo -criado em 1945 pelas Nações Unidas -, nasceu no bojo da luta pela igualdade de direitos entre homens e mulheres do planeta. A data foi sugerida em razão de uma marcha histórica ocorrida quase um século antes, em 8 de março de 1857. Centenas de mulheres operárias (judias e italianas imigrantes) tomaram as ruas de Nova Iorque (EUA) contra os baixos salários e as péssimas condições de trabalho. Um incêndio criminoso teria causado a morte de cerca de 130 manifestantes. 

Nos últimos 150 anos, muita coisa mudou na luta pelo tratamento igualitário dos direitos da mulher. Para a mulher negra brasileira, a principal delas ocorreu quando um grupo de mulheres negras (entre elas a socióloga, feminista e ativista política Lélia Gonzales) trouxe – tanto para o Movimento Negro quanto para o Movimento Feminista – o debate sobre o olhar diferenciado em relação à realidade da mulher afrodescendente no Brasil. Hoje, já são mais de 100 entidades de mulheres negras comprometidas na luta pela igualdade de direitos e com a erradicação das desigualdades raciais no País. 

Dados estatísticos recentes comprovam que o preconceito sustenta uma dupla opressão para a mulher negra no Brasil e cria realidades diferenciadas entre negras e não-negras. Estudo recente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostra um dos traços cruéis deste tratamento diferencial. Segundo o Ipea, a mão de obra feminina negra recebe o equivalente a 60% do salário de um homem branco para ocupar o mesmo cargo. De acordo com projeções do pesquisador Sergei Soares, do Ipea, em 30 anos o problema da desigualdade de salários entre os sexos estará resolvido no País. As desigualdades raciais, entretanto, permanecerão idênticas, caso o Estado não adote políticas públicas corretivas.

Levantamento realizado pela Articulação de Mulheres Brasileiras, sob o título Mulheres Negras – Um retrato da discriminação racial no Brasil, lançado em 2001 no bojo da Conferência Mundial contra o Racismo, em Durban, também fornece informações contundentes que chamam atenção para as disputas desiguais enfrentadas pela mulher negra no dia a dia. 

De acordo com o estudo, somos 169, 5 milhões de brasileiros, dos quais 50,79% são do sexo feminino. Deste percentual, 44% são mulheres negras e pardas. Os números – ainda que significativos -não garantem acesso igual aos serviços básicos oferecidos aos cidadãos. Na educação, por exemplo, as disparidades nas taxas de alfabetização e escolaridade entre mulheres negras e brancas é preocupante: 90% e 83% para as brancas e 78% e 76% para as negras, respectivamente.

O desequilíbrio, segundo o levantamento, traz conseqüências diretas nos índices de desemprego. A população negra – sobretudo as mulheres – sofre tratamento discriminatório na hora de procurar trabalho. Para a mulher negra, o tratamento desigual tem um sabor ainda mais amargo, pois 60% das famílias chefiadas por mulheres afrodescendentes têm renda inferior a um salário mínimo. 

O estudo aponta ainda que a mulher negra recebe tratamento diferencial na área da saúde. Entre 1993-1998, por exemplo, uma pesquisa no Paraná denunciava que o risco relativo de mortes maternas de mulheres afrodescendentes é 7,4 vezes maior do que as não-negras. Outro índice mostra que, no Brasil, a mulher negra têm 25% a menos de chance de alcançar os 75 anos em relação às mulheres brancas. 

A sociedade brasileira está iniciando o processo de transformação. Hoje, organizações não governamentais, movimentos sociais e alguns setores do governo federal têm realizado um esforço conjunto para discutir as ferramentas potencializadoras para a erradicação dos males do racismo. Debates, publicações e até polêmicas sobre a implementação de políticas públicas vêm pautando a sociedade brasileira no processo pós-Durban (local onde foi realizada a Conferência Mundial contra o Racismo). O Ibase, ao lado do Centro de estudos Afro Brasileiros (Universidade Cândido Mendes), Criola, Geledés, entre outras Ongs, vêm realizado importantes debates sobre essa questão.

Entre julho de 2001 e setembro do ano passado, por exemplo, o Ibase promoveu três reuniões dos Diálogos sobre a Conferência Mundial contra o Racismo. Os encontros, que reuniram cerca de 65 Ongs do Brasil inteiro, resultaram na publicação Sonhar o futuro, mudar o presente – Diálogos contra o racismo, por uma estratégia de inclusão racial no Brasil. Entre as propostas, o grupo sugere o rompimento do silêncio e a necessidade de ampliação do diálogo “para atrair aqueles que o diálogo pode influenciar e, de outro lado, aqueles que têm que influenciar o diálogo”. Fonte: www.mulheresnegras.org.br

A imagem do racismo no Brasil é o negro 

Psicóloga social pesquisadora da USP, diretora do Centro de Estudos das Relações do Trabalho e Diversidade, Ceert, e educadora especializada na área de relações raciais, Maria Aparecida Silva Bento acaba de lançar o livro “Cidadania em Preto e Branco – Discutindo as Relações Raciais”, pela ática. Nesta entrevista, ela fala das dificuldades que o Brasil tem em enfrentar o problema da discriminação racial contra o negro, dissimulado nos relacionamentos mas evidenciado pelas pesquisas. 

CRP – Apesar do senso comum pregar o contrário, o preconceito contra o negro prevalece no Brasil? 

Maria Aparecida Silva Bento – O negro é alvo de discriminação racial no Brasil porque negam-se a ele emprego, moradia etc. Em qualquer lugar do país, segundo o IBGE, a média do salário do branco é duas vezes maior do que a do negro. Também temos duas vezes mais analfabetos negros do que brancos. Isso se torna ainda mais grave quando se constata que negros e mestiços são 44% da população nacional e que há Estados, como a Bahia, em que os negros são a maioria da população. O complicador é que as pessoas, no Brasil, têm muita dificuldade de lidar com a temática racial; é uma temática marginal. Recentemente nos reunimos com empresas de capital norte-americano que desenvolvem programas de diversidade no Brasil, e seus dirigentes tinham dificuldade em falar a palavra negro. Quando se fala em diversidade, as pessoas querem enfocar o problema das mulheres ou dos portadores de deficiência. Dirigentes sindicais, sejam da CUT ou da Força Sindical, ou mesmo dirigentes governamentais ou empregadores, todos têm uma dificuldade muito grande de lidar com a temática. A primeira tendência é relativizar: “Somos todos alvo de preconceitos, então vamos todos lutar contra a discriminação”. No entanto, se falamos de racismo no Brasil, a primeira imagem que vem à cabeça de qualquer pessoa é a do negro. As pessoas tendem a fugir porque sabem do peso que tem o preconceito contra o negro, que não é o mesmo, por exemplo, que existe contra grupos imigrantes. Há alguns anos, houve uma reportagem num jornal em que um chefe de polícia de São Paulo afirmava que não existe um suspeito, mas sim situações de suspeição. E citava que um carro com quatro negros é uma situação de suspeição. Mas se hoje pegarmos os meios de comunicação mais destacados do país, como o Jornal Nacional ou a Folha de S. Paulo, vamos ver que eles mostram um grande número de bandidões, em maioria brancos. Criminoso não tem cor. Quando se criticam os políticos e banqueiros corruptos, ninguém diz: “Esses brancos ladrões”. Mas se fossem três negros, eles seriam discriminados. 

CRP – Você poderia definir com detalhe o conceito de “diversidade”? 

Aparecida – O conceito de diversidade normalmente tem sido usado para definir programas implementados em instituições que visam ampliar o perfil do sujeito que ocupa funções de decisão, normalmente restritas a homens brancos, jovens ou de meia idade. Tudo o mais além disso compõe o que chamamos de diversidade: o idoso, pessoas com orientação sexual diversa da maioria, negros, mulheres etc. Se pegarmos as principais instituições e empresas em diferentes sociedades – mas em particular no Brasil –, sempre vamos encontrar, majoritariamente, esse perfil padrão. O conceito de diversidade pretende ampliar esse universo, eliminando as desigualdades. 

CRP – De que maneira o racismo contra o negro no Brasil diverge do que existe nos EUA, por exemplo? 

Aparecida – Estive recentemente nos EUA e na áfrica do Sul representando o Brasil, num bloco de conferências chamado “Superando o Racismo para o Ano 2000”, e pude ver como é diferente a maneira como o racismo está colocado nesses países. Me espantou como os brancos de lá falam sobre racismo, coisa que aqui não se vê. No Brasil, é até falta de educação tocar no assunto. Considera-se mal-educado alguém que chame um negro de negro. Diz-se, polidamente: “Aquele moreninho ali”. Ou então: “Não, você não é negra, imagine. Você é morena”. Nesses países, ninguém nega que há um problema racial. No Brasil, o racismo é dissimulado. Quando se isola e separa, como lá, as coisas ficam mais claras. Aqui, esse assunto é uma ferida aberta. 

CRP – O que é melhor para o avanço do movimento negro: que haja mais sectarismo racial e com isso também uma consciência e uma luta maior por direitos, ou um racismo dissimulado à brasileira? 

Aparecida – É difícil dizer. Acho que o Brasil poderia de fato conseguir vir a ser um paraíso das relações raciais, como disse o Gilberto Freire tempos atrás. A ausência do ódio racial é um dado importante, que não podemos negar. Mesmo quando olho para os EUA e penso nas conquistas dos negros, ou na áfrica do Sul, e vejo a importância da luta que fez do Mandela um presidente negro, também percebo que há um ódio racial muito grande lá. Isso não quer dizer que não haja nenhum ódio racial aqui. Há estudos que mostram que certos crimes contra negros são mais violentos, como se naquele momento o criminoso liberasse uma raiva extra. Mas há também uma relação amistosa que me faz acreditar que poderíamos, de alguma maneira, desenvolver um caminho para uma sociedade racialmente mais democrática e igualitária. Confesso que tenho dificuldade em decidir que caminho é melhor, mas acho que a explicitação da discriminação racial no Brasil é fundamental para mudarmos a situação atual. 

CRP – A raiz disso tudo está, evidentemente, em nossa história: o escravagismo vigorou no país até o fim do século passado. 

Aparecida – O país vai completar 500 anos e parece, aos olhos das pessoas, que não tivemos 400 anos de escravidão. Faz apenas 111 anos que não estamos mais sob a égide da escravidão. Gosto muito de um texto do Freud em que ele afirma que nada que foi vivido e não foi devidamente simbolizado desaparece. Se as gerações precedentes puseram o problema debaixo do tapete, aquilo vai voltar até que sejamos capazes de simbolizá-lo devidamente. Diz-se que a Alemanha não expurgou o fantasma do nazismo e, por isso, ele volta permanentemente. E veja que lá já houve o Tribunal de Nuremberg e tantas outras coisas. No Brasil, muito pouco tem sido feito sobre o racismo contra o negro. Tivemos figuras como o Ruy Barbosa, que queimou documentação para não ter que indenizar, dar terra a negros. Esse mesmo tipo de postura se reproduz na nossa elite, até hoje. Não querem pagar suas dívidas, perpetuam a apropriação indébita, a impunidade. 

CRP – Apesar de tudo, parece que o negro brasileiro, em vez de revolta, acaba cultivando uma espécie de autodiscriminação. 

Aparecida – Na escola, o meu filho, assim como o filho de um branco, aprende que é bom ser branco e ruim ser negro. Nos livros didáticos, o negro não aparece. Meu filho tem 17 anos e sempre detestou as aulas de história, mesmo quando o professor não era racista. Ele dizia: “Mãe, quando aparece o negro ele é escravo e, na hora do lanche, me chamam de descendente de escravos”. Ele não queria mais ir a essas aulas. Ensinei para ele que quem tinha que ter vergonha não era ele, mas quem descendia de escravocratas. Veja que todo tipo de comunicação apresenta o branco como mais bonito. E mostram isso não apenas para os brancos, mas para os negros também. Isso cala dentro de todos nós. Além disso, ensinamos para negros e brancos que na sociedade brasileira não existe preconceito. É confortável para uma criança negra ouvir isso. Ela joga o problema para algum lugar, até não poder mais evitá-lo. O fato é que o preconceito distorce a identidade dos negros, mas também a dos brancos. As crianças brancas têm uma imagem distorcida de si próprias, porque aprendem que até na áfrica o herói é Tarzã, um branco. Sempre se chamou a atenção para o problema da criança negra, que fica com a auto-estima prejudicada, não se assume enquanto negra e tal. Mas, nos últimos anos, pesquisadores têm chamado a atenção para o fato de que crianças brancas acabam desenvolvendo uma relação ruim com o poder, e também cometendo determinados crimes, sempre em questões onde o que está em jogo é o poder. Por exemplo, o perfil do serial killer é sempre de um branco; são jovens brancos os que dirigem carros como se fossem donos das ruas; são eles que atiram em colegas nas escolas ou põem fogo em mendigos. Ao tratar a questão do racismo, não se deve focalizar apenas o problema do negro, mas das relações entre negros e brancos. 

CRP – É possível notar que cada vez mais artistas negros têm espaço na mídia. Seria indício de que o racismo está diminuindo no Brasil? 

Aparecida – Tem um nicho cultural em que o negro foi sempre muito bem aceito no Brasil, o que é diferente dos outros países também. O branco compartilha muito mais a cultura negra aqui do que nos outros lugares. O branco gosta do samba, da feijoada, do pagode, das escolas de samba. O que o branco não quer é abrir mão do espaço político e econômico. Onde há poder, dinheiro e prestígio, o negro não entra. O espaço para o negro está restrito ao esporte, à arte, à beleza física. 

CRP – E na formação superior, o espaço para o negro cresceu? 

Aparecida – Não. É ainda muito pequeno. Uma pessoa branca tem sete vezes mais chances de terminar um curso superior do que um negro. O maior número de negros que consegue concluir curso superior está na área de humanas. Dentre as profissões, pode-se dizer que a psicologia tem um razoável número de negros. É difícil conviver com um déficit educacional cumulativo de anos. Às vezes eu observo um grupo negro e comparo com um grupo branco, por exemplo, em relação às exigências do mundo do trabalho e fico extremamente angustiada. Hoje os brancos têm que correr para acompanhar o ritmo do avanço da tecnologia e da globalização. Como fazer com o grupo negro, que mal tem acesso às informações básicas? Mas a exclusão social junto com a consciência racial é um fator explosivo. É urgente um alerta sobre isso: 75% dos conflitos, hoje, são religiosos ou étnicos. Se o Brasil quiser atingir o paraíso social do Gilberto Freire e evitar grandes explosões, terá que caminhar rapidamente com relação ao problema do negro. O rap é hoje um movimento cada vez mais forte nas periferias das grandes cidades. O jovem negro está cada vez mais consciente de que a cor da sua pele pesa na sua exclusão. 

CRP – Há um movimento negro forte no Brasil? 

Aparecida – Considero que sim. São mais de 700 entidades no país, e são muitas as nossas conquistas. Quando os meios de comunicação começam a introduzir negros em comerciais, isso é resultado de muita pressão. Houve muitos processos contra a Globo por conta de racismo nas novelas, contra músicas racistas etc. Isso não vem muito a público, porque o Brasil continua querendo passar a imagem de que o conflito racial não existe. De fato, o movimento dos negros não é um movimento de massas no Brasil. Mas, hoje, o único movimento de massa que se pode ver no país é o dos sem-terra. Quando se fala de movimento de mulheres, por exemplo, é sempre uma elite que vai puxando. O caminho é abrir a discussão e dar o devido peso ao assunto. Vamos ter desconfortos de ambos os lados. Porque também muitos negros sentem desconforto em tocar no assunto. Você só assume efetivamente que é negro apenas quando pode arcar com o peso dessa diferença. Mas têm crescido muito o número de denúncias e o orgulho racial. Hoje vemos muito mais os negros com penteados afro, temos revistas voltadas só para negros… Acho que o Brasil demorou para mudar, mas vai mudar rapidamente, com os meios de comunicação como estão hoje e mesmo pelo perfil do branco brasileiro, que tem dificuldade de explicitar seu preconceito. Isso acaba gerando espaço para que a questão racial avance. 

CRP – De que forma a psicologia pode contribuir para a redução do racismo? 

Aparecida – Os psicólogos precisam rapidamente entrar em contato com esse problema, porque os conceitos com os quais trabalhamos aqui no Brasil, como capacidades e habilidades, estão ancorados em relações raciais – como mostra a pesquisadora Maria Helena Souza Pato. Quando se estabeleceram critérios psicológicos para definir os perfis do criminoso, do incompetente, o perfil do negro está colocado como o exemplo do sujeito que tem menor inteligência e capacidade, com problemas de caráter. A história da psicologia está muito mesclada com isso, tem um forte viés racial. Os manicômios surgem justamente com a abolição da escravatura e eram povoados por negros. 

Fonte: Conselho Regional de Psicologia de SP

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