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ONU se preocupa com a crise de alimentos

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ONU se preocupa com a crise de alimentos

Por Gustavo Capdevila, da IPS


Genebra – A Organização das Nações Unidas assumiu nesta terça-feira a
gravidade da crise mundial de alimentos e adotou medidas de urgência para
enfrentar “um desafio sem precedentes de dimensões globais”, disse seu
secretário-geral, Ban Ki-moon. O líder da ONU e os chefes das agencias do
sistema multilateral deram uma examinada nas advertências não atendidas
sobre a iminência da crise, feitas oportunamente pela Organização das Nações
Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO), e decidiram criar um grupo
de ação para enfrentar o fenômeno.

O diretor-geral da FAO, Jacques Diouf, recordou que sua organização havia
prevenido comunidade internacional do que se aproximava. Infelizmente, não
tomamos uma decisão no momento apropriado e como conseqüência há gente
morta, disse Diouf. A primeira decisão dos chefes da ONU foi fazer um
chamado, em particular às nações industrializadas, para que contribuam
urgentemente com o Programa Mundial de Alimentos com US$ 755 milhões que o
PMA necessita para equilibrar seus orçamentos diante dos novos preços
internacionais dos alimentos básicos.

A diretora-executiva do PMA, Josette Sheeran, explicou que os recursos
presentes no orçamento para suas atividades deste ano chegavam a US$ 2,1 bilhões,
necessários para atender com alimentação três milhões de pessoas em
Darfur, noroeste do Sudão; outros cinco milhões no resto do território
sudanês e também em assentamentos no norte de Uganda, entre outros
programas. Mas, a alta dos preços dos alimentos jogou por terra essas contas
e abriu o déficit de US$ 755 milhões. O PMA pagou no dia 3 de março último
US$ 460 por tonelada de arroz, enquanto na semana passava precisava de US$ 980
para comprar a mesma quantidade.

Ban alertou que, se não forem totalmente cobertas essas necessidades
financeiras, “novamente enfrentaremos o fantasma da fome generalizada, da
desnutrição e de distúrbios sociais em escala sem precedentes”. A ONU e
suas agencias, que deliberaram esta semana em Berna, também tratarão de
garantir os alimentos para o futuro, incentivando os agricultores de países
em desenvolvimento a incrementarem suas plantações. Além dos aumentos de
preços. Observamos que os camponeses desses países produzem menos por causa
do encarecimento dos adubos e da energia, explicou o secretário-geral das Nações
Unidas.

Robert Zoellick, presidente do Banco Mundial, admitiu que esta instituição
e, “os próprios governos, investiram menos em agricultura”. Organizações
não-governamentais responsabilizaram as políticas do Banco Mundial pela
falta de incentivo à produção agrícola nas nações pobres. No longo
prazo, os chefes das agencias multilaterais entendem ser necessário encarar
as questões estruturais e políticas que causaram a crise atual e ao mesmo
tempo os desafios da mudança climática nos sistemas produtivos. Nesse
aspecto serão necessárias posteriores pesquisas sobre os efeitos de destinar
cultivos de alimentos para produzir biocombustíveis. Todas as subvenções
aos combustíveis de origem vegetal deverão ser examinadas, afirmaram.

O diretor geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), o francês Pascal
Lamy, observou que as subvenções agrícolas concedidas pelos países ricos
prejudicaram a produção de alimentos nas nações em desenvolvimento. As
negociações de liberalização comercial da Rodada de Doha, estabelecida em
novembro de 2001, se ocupam desse assunto, entre outros temas, recordou. Os
episódios relacionados com os atuais aumentos de preços são uma razão a
mais para concluir com urgência essas negociações, insistiu Lamy, que antes
de assumir o cargo atual foi Comissário de Comércio da União Européia,
bloco responsável por subvenções milionárias à sua agricultura.

A declaração adotada pelos chefes das agencias em Berna menciona as causas
do aumento dos preços dos alimentos sem uma referência à especulação nos
mercados internacionais desses produtos mencionada por especialistas e
ativistas de organizações não-governamentais. O texto atribui a origem do
aumento de preços ao encarecimento da energia, à falta de investimentos no
setor agrícola, ao rápido aumento da demanda por alimentos, às subvenções
que distorcem o comércio, à persistência de condições climáticas
adversas e à degradação ambiental, à produção subvencionada de
biocombustíveis que suplantam a produção de alimentos e a imposição de
restrições às exportações. Entretanto, em uma exposição posterior de
Ban, desta vez em Genebra, estava incluída a especulação e o “pânico
comprador” entre as causas do fenômeno.

O secretário-geral da ONU relacionou, nessa oportunidade, a crise de
alimentos com os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM), um plano de ação
de oito pontos com a finalidade de reduzir até 1015 a pobreza, a fome e as
doenças; melhorar o bem-estar da humanidade e seu progresso social e econômico,
como descreveu o próprio Ban, para quem as soluções para a crise de
alimentos promoverão os ODM, pois todos estão estreitamente vinculados e se
relacionam com a mudança climática. Uma produtividade agrícola superior
reforçará diretamente a sobrevivência das crianças, que é um dos ODM.
Dessa forma poderão ir à escola e a nutrição lhes permitirá aprender,
afirmou Ban.

Por outro lado, as mulheres são as principais agricultoras da África. Ao
fortalecê-las, se contribuirá para o progresso de outro ODM, recordou Ban. O
secretário-geral, que regressava de uma viagem a paises africanos disse que
algumas nações desse continente estão alcançado progressos. Burkina Faso,
Gana, Quênia, Tanzânia, Ruanda, Niger, e Uganda aumentaram de maneira
significativa o numero de meninos e meninas na escola primária. Por sua vez,
Malawi encabeça a redução da mortalidade infantil e o aumento da
produtividade agrícola.

Um número superior de africanos recebe agora tratamento anti-retroviral
contra o vírus da deficiência imunológica humana (HIV), causador da aids. Níger,
Ruanda, Togo e Zâmbia controlam a malária por meio da distribuição de
mosquiteiros, disse o secretário-geral da ONU. Cada um dos ODM, com a exceção
notável da redução da mortalidade materna, será alcançado pelo menos em
um ano, e às vezes em tempo muito menor, dos países africanos, acrescentou
Ban. IPS/Envolverde

(Envolverde/IPS)

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