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Os afetados da crise de alimentos

Alimentação: Crise afeta primeiro
mulheres e crianças

Nações Unidas, 02/05/2019 – A crise alimentar causada pela
queda das colheitas, pelo aumento de preços e devido à crescente escassez ameaça
atingir com maior severidade as mulheres e as crianças, alertam organizações
humanitárias e especialistas da Organização das Nações Unidas. “Inclusive a
falta temporária dos nutrientes que as crianças precisam para crescer e se
desenvolver pode deixar uma cicatriz permanente em termos de seu crescimento
físico e potencial intelectual”, afirmou o nutricionista Andrew Thorne-Lyman, do
Programa Mundial de Alimentos da ONU.

O
Fundo das Nações Unidas para a População (UNFPA) se preocupa fundamentalmente
com o impacto da crise alimentar nas grávidas e nas mães com filhos pequenos.
“Demos assistência alimentar a estas mulheres em crises recentes, incluídas as
da Moldávia e de Níger, mas a escassez atual torna mais difícil essa ajuda”,
disse à IPS Safiye Cagar, diretora de Informação e Relações Exteriores do UNFPA.
A diretora-executiva do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), Ann
Veneman, alertou que o continuou aumento dos preços dos alimentos “afetará muito
mais a população mais vulnerável”. No conjunto, Veneman incluiu os que “dependem
de ajuda humanitária, os órfãos, os doentes de Aids ou portadores do vírus HIV,
os refugiados e os pobres urbanos”.

A disparada de preços e suas conseqüências podem afetar os avanços para os
Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, adotados pela Assembléia Geral da ONU
em 2000 e que propõem, entre outras metas, reduzir pela metade a pobreza extrema
e a desnutrição até 2019 em relação aos seus níveis de 1990, acrescentou. Porém,
Veneman disse também que pode haver retrocessos ou ter impactos negativos em
diversos indicadores sociais referentes à infância.

Segundo a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO),
os preços dos alimentos aumentaram 83% nos últimos três anos. O do arroz
disparou 141% de janeiro até agora. O presidente da organização humanitária
Salvemos as Crianças, com sede nos Estados Unidos, Charles MacCormack, disse que
a crescente pressão sobre os orçamentos familiares terá um impacto negativo na
saúde e educação das crianças. O alto preço dos alimentos arrastará mais
famílias para a pobreza e as forçará a tomar decisões difíceis sobre os itens em
que gastarão sua renda, acrescentou.

“Os país poderiam optar por reduzir a quantidade e qualidade dos alimentos para
suas famílias, tirar os filhos da escola e colocá-los para trabalhar, limitar o
gasto com a saúde ou vender ativos produtivos-chave para enfrentar as sombrias
circunstâncias econômicas”, disse MacCormack. “Esta crise se agravará antes que
comece a melhorar e é vital que as famílias e as comunidades contem com a comida
que necessitam agora, bem como com as ferramentas para se prepararem na resposta
às emergências alimentares futuras”, afirmou.

O encarecimento dos alimentos tem um correlato com a desnutrição infantil, e
assim demonstram as estatísticas obtidas em Bangladesh nos anos 90, segundo
Thorne-Lyman. As famílias não deixaram necessariamente de comprar arroz quando
os preços aumentaram, mas reduziram o consumo de outros alimentos ricos em
minerais e vitaminas imprescindíveis para ajudar o desenvolvimento das crianças,
acrescentou. Cagar, por sua vez, apontou outro aspecto do problema: as mulheres
pobres podem ser forçadas a se prostituírem para atender suas necessidades
básicas, na medida em que a comida fique menos acessível para suas famílias
devido à alta de preços. “Isto pode levar a um aumento da violência,
especialmente contra mulheres pobres e as que são chefes de família”,
acrescentou.

Cagar tampouco descartou a possibilidade de deslocamentos maciços de pessoas
devido a emergências e desastres causados pela crise alimentar. O
secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, disse à imprensa que “no curto prazo
devemos atender todas as crises humanitárias que estão impactando os mais pobres
entre os pobres, já que mais cem milhões de pessoas foram arrastadas para esta
crise. “Veremos quais ações imediatas e de longo prazo podemos adotar como parte
de uma iniciativa liderada pelas Nações Unidas”, afirmou. (IPS/Envolverde)

(Por Thalif Deen, da IPS  Envolverde/IPS)

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