Menu fechado

Bioterrorismo e o Antraz (inimigo do mundo)

Bioterrorismo. Vírus e bactérias usados como armas mortíferas. Com a confirmação dos primeiros casos de antraz nos Estados Unidos – 25 anos após a última notícia de contaminação humana pela bactéria – o mundo teme uma onda de ataques com armas biológicas. Veja aqui o que é e como age o antraz e conheça um pouco mais sobre essas tão temidas armas. Os temores de ataques biológicos fazem com que as pessoas fiquem precavidas.

As principais dúvidas sobre a doença

Tire suas dúvidas sobre o que é o antraz, como age a bactéria, os sintomas e as formas de tratamento.



O que é o Antraz?

É uma infecção causada pela bactéria Bacillus anthracis. O antraz é uma bactéria pouco conhecida pelos médicos, cuja doença causada é letal. Os historiadores acreditam que “a praga do Egito”, descrita na Bíblia, no Velha Testamento, tenho sido, na verdade, uma epidemia de antraz. A incidência dessa doença era relacionada principalmente a animais herbívoros, como as ovelhas, que contraiam a bactéria pastando em solo contaminado, e transmitiam para os seres humanos. É um bacilo grande, que forma esporos (órgãos reprodutores) resistentes ao frio e ao calor. Por ser encontrado na vegetação, infecta, normalmente, os herbívoros – domésticos ou não. Já o homem pode ser contaminado se tiver contato com carne contaminada, carcaças, lã, pele, ossos ou pele contaminada.



Quais as formas de transmissão da doença entre os seres humanos?

A contaminação de seres humanos pode acontecer de três formas: cutânea (pela pele), digestiva(ingestão de alimentos contaminados), ou respiratória. O Antraz não é contagioso – o contato com o doente não transmite a doença. O bacilo, no entanto, pode entrar no organismo de três maneiras: ingerido, inalado ou pela pele. Veja o quadro:





















Transmissão pela pele (Antraz cutâneo)

a bactéria entra por meio de arranhões ou cortes. Essa é a maneira de transmissão mais comum (95% dos casos)

Mortalidade: 20% dos casos não-tratados

Transmissão por ingestão (Antraz gastrointestinal)

acontece por meio do consumo de carne contaminada

Mortalidade: 25 a 60% dos casos

Transmissão por inalação (Antraz aéreo)

Inalação de esporos suspensos no ar

Mortalidade: 99% dos casos



Quais os estágios da doença e os sintomas?

Na versão cutânea , a doença causa manchas negras na pele. Referindo-se a este sintoma surgiu o nome grego “Anthrax”, que significa carvão. Essa versão oferece um pequeno risco de morte, desde que tratada a tempo. A forma digestiva também não oferece grandes riscos de morte, mas causa fortes diarréias, perda de apetite, vômitos, febre, náuseas e inflamações na parede do intestino. A forma mais perigosa é a respiratória. Nessa versão a bactéria se instala nos pulmões, podendo gerar uma infecção respiratória aguda e irreversível. Os sintomas são de uma gripe comum, com febre e mal-estar.

Antraz cutâneo:

Em geral, a infecção começa nos braços, formando uma pequena lesão, parecida a uma picada de inseto. Essa lesão se transforma em uma ferida que produz líquido sanguinolento. Forma-se, em seguida, uma cobertura de células mortas, de cor negra. As toxinas produzidas pelo bacilo provocam edema local, febre, mal-estar, dor-de-cabeça, náuseas e vômitos. A infecção generalizada (septicemia) pode ocorrer a partir da lesão inicial e, nos casos não-tratados, a morte pode ocorrer em cerca de 20% dos casos. O tratamento é feito com antibióticos.

Antraz aéreo:

O período de incubação é de 1 a 6 dias, e os primeiros sintomas são parecidos aos de um resfriado comum: mal-estar, fadiga, febre. Nesta fase, a doença é facilmente tratada. Na fase seguinte, as toxinas produzidas pela bactéria invadem a corrente sanguínea e a cura é quase impossível. Entre os sintomas terminais estão dores toráxicas, transpiração excessiva e dificuldade de respirar.

Antraz gastrointestinal:

A doença começa como uma inflamação aguda no intestino. Depois, o paciente perde o apetite, começa a sentir náuseas, vomita sangue, tem febre, dores abdominais e diarréia. 25% dos casos não tratados levam o doente à morte. No Brasil o antraz também é conhecido como carbúnculo ou pústula maligna (cutâneo), e as outras formas como carbúnculo pulmonar e carbúnculo intestinal.

Como a bactéria permanece viva nos envelopes em que são enviadas?

Uma das características dessa bactéria é a de produzir esporos (órgãos reprodutores) que podem durar muitos anos até encontrar um organismo para infectar. O esporo do Bacillus anthracis pode sobreviver durante décadas, à espera de condições ideais para seu desenvolvimento. Essa é justamente uma das razões pelas quais a bactéria do Antraz é utilizada como arma biológica. Os esporos são misturados ao pó branco que está sendo enviado pelo correio, em envelopes. Apesar disso, especialistas afirmam que esta bactéria não é uma arma eficiente para ataques em massa, pelo fato de não causar uma doença contagiosa, capaz de ser transmitida de uma pessoa para outra.



Existe vacina para o antraz? Onde encontrar?Existe tratamento?

O tratamento deverá ser feito a base de penicilina e antibióticos a base de ciprofloxacina. Essses medicamentos existem também em versão genérica no mercado brasileiro

Existe vacina contra o antraz, mas ela não tem eficácia comprovada contra a doença em humanos. A vacina é utilizada nos animais como ovelhas, cabras e bois, nos quais a doença se manifestava originalmente. A contaminação humana é casual e até hoje só havia sido observada em regiões onde as pessoas entram em contato com rebanhos e seus produtos (pele, lã e derivados). A vacina ainda não está de acordo com as rígidas normas da FDA (Federal Drugs Administration), órgão de saúde pública norte-americano, e só foi aplicada em soldados americanos ou em pessoas com alto risco de contaminação. A aplicação é demorada, deve ser feita em várias doses e provoca muitos efeitos colaterais. No Brasil essa vacina nunca foi produzida e pesquisadores do Instituto Butantã dizem que, se fosse necessário, existiriam condições para produzi-la, mas o processo demoraria no mínimo 8 meses.A vacina existente é utilizada pelo exército americano, porém não é recomendada para a população civil. Além de causar muitos efeitos colaterais, são necessárias doses durante 18 meses para a vacina comece a fazer efeito. Ainda assim, este recurso não oferece proteção total a bactéria.



Qual o tratamento para pessoas contaminadas?

O tratamento é feito com antibióticos e só é possível salvar a vida do paciente se for tratado nos estágios iniciais da doença. O antibiótico utilizado é a ciprofloxacina – presentes na fórmula do antibiótico Cipro, produzido pelo laboratório Bayer, e seu genérico, o Proxacin (Cloridrato de Ciprofloxacina), produzido pela Neo-Química. É considerado um antibiótico de amplo espectro, ou seja, pode ser usado tanto nos casos de infecções respiratórias quanto nos de infecções urinárias ou de pele.



Seria possível bactéria do antraz se reproduzir nas centrais dos correios e sua propagação se tornar incontrolável?

A bactéria não poderia se desenvolver nas centrais dos correios porque se encontra na forma de esporos. Para que um esporo de antraz se reproduza, é preciso que ele invada um organismo vivo, penetrando por algum ferimento da pele, sendo inalado ou digerido por uma pessoa. A propagação incontrolável só ocorreria no caso de doenças contagiosas, razão pela qual se teme a utilização da varíola (extremamente contagiosa) como arma biológica.



Além de vacina e tratamento para os contaminados, é possível algum tipo de profilaxia,

de alcance mais amplo?

Normalmente, o tipo de profilaxia mais eficiente é a vacinação dos rebanhos e a esterilização de materiais derivados desses animais que poderiam estar contaminados. O Bacillus anthraxis encontra-se melhor adaptado em animais e não inclui o ser humano como parte do seu ciclo evolutivo. Na situação atual, na qual as pessoas podem entrar em contato com os esporos inadvertidamente, não existe outro tipo de prevenção a não ser ficar atento com correspondências suspeitas – já que é esta a forma que está sendo usada para disseminar a doença – e a qualquer tipo de sintoma que possa estar relacionado à doença, para que o tratamento seja iniciado o mais cedo possível, aumentando as chances de cura.

Outras armas biológicas poderosas

As primeiras experiências para transformar microorganismos em armas de guerra começaram na década de 1920. De lá para cá, o avanço tecnológico permitiu que vírus e bactérias se tornassem tão ou mais letais quanto mísseis, tanques e explosivos.



Muito além do antraz. Entre as várias armas biológicas desenvolvidas pelo homem no século XX, o antraz é uma das menos letais. Já nas primeiras investidas de norte-americanos e soviéticos na área, ainda na década de 1920, produziu um resultado bem mais mortal: uma toxina do botulismo tão concentrada que, com apenas meio quilo, seria possível matar um bilhão de pessoas.



O primeiro ataque bioterrorista nos Estados Unidos aconteceu em 1984, quando os seguidores do grupo Rajneeshe – culto budista devotado ao amor, à beleza e ao sexo livre – contaminaram um supermercado e vários restaurantes com a bactéria salmonela, em The Dalles, Estado do Oregon. Ninguém morreu, mas 750 pessoas ficaram gravemente doentes.

Guerra Fria. Nas décadas posteriores ao final da Segunda Guerra Mundial, as pesquisas continuaram, tanto no lado americano quanto no soviético. O programa soviético permaneceu desconhecido até 1995, quando agentes de Washington visitaram campos de produção de germes no Cazaquistão. Encontraram material suficiente para produzir 300 toneladas de antraz em 7 meses. Com a dissolução da União Soviética, essa tecnologia foi repartida entre vários países e grupos. Durante a Guerra do Golfo, por exemplo, os norte-americanos descobriram o programa de armamento biológico no Iraque.



Guerra biológica? Apesar do desenvolvimento obtido na área de armamentos biológicos, até hoje foram raros os casos em que exércitos usaram esses recursos contra os inimigos. Não por questões humanitárias, mas pela dificuldade de evitar que os agentes biológicos ataquem os dois lados da contenda, indiscriminadamente. Esse tipo de preocupação, no entanto, não existe no caso de um ataque terrorista, pois o objetivo seria provocar pânico e mortes sem discriminação.



As principais armas produzidas

Além do antraz, outras bactérias, vírus e toxinas são usadas como armas biológicas. Conheça algumas delas.

Vinda das pulgas. Febre, dores de cabeça e fraqueza. Esses são os principais sintomas da peste, causada pela Yersinia pestis, agente infeccioso encontrado em roedores silvestres e domésticos e transmitido para o homem principalmente por picadas de pulgas. Se não tratada com antibióticos dentro de 24 horas após o primeiro sintoma, pode levar ao choque ou à morte.



Muito letal é a toxina botulínica é a substância mais potente e letal conhecida pelo homem. Produzida pela bactéria Clostridium botulinum pode contaminar por meio da inalação ou da ingestão de alimentos ou água contaminada. Os primeiros sintomas acontecem entre seis horas e duas semanas após a contaminação e incluem visão dupla, boca seca, modificação da voz e fraqueza muscular que começa na cabeça e se espalha por todo o corpo. A morte pode ocorrem em 24 horas e é provocada pela paralisia dos músculos respiratórios. Pode ser prevenida com vacinas e é tratada com antitoxina botulínica.



Ameaça oculta. A doença é popularmente conhecida como bexiga e já está erradicada do mundo desde 1977. Apesar disso, o vírus da varíola é uma arma biológica potencial. Sabe-se que existem dois estoques em laboratórios de referência da Organização Mundial da Saúde. Mas ninguém sabe dizer ao certo o que aconteceu com prováveis estoques mantidos pela antiga União Soviética. Especialistas chegam a afirmar que a tecnologia para produzir armas biológicas com o vírus da varíola foi adquirida por países e governos extremistas. É um vírus relativamente estável, com baixa dosagem necessária para contaminação, o que torna viável um ataque por aerossol. Após o contágio, pode rapidamente infectar mais pessoas se atingidas por gotículas de saliva dos pacientes. O período de incubação é de até 12 dias após exposição. Entre os sintomas estão febre, fadiga e dores no corpo, seguidas pela erupção de lesões na pele. Pode levar à morte em duas semanas. Até hoje não há tratamento eficaz contra a varíola, apenas a prevenção, por meio de vacinas.

Veja também: