Menu fechado

A História de Mil Anos – Monteiro Lobato

A História de Mil Anos – Monteiro Lobato

Lobato, o rebelde Lobato, também era muito romântico. A História de Mil Anos, uma narrativa poética, terna e trágica, feita na terceira pessoa, nos dá conta disso.

“- hu… hu…
É como nos ínvios da mata soluça a juriti.”

Vidinha, a menina-moça, crescendo num fundão de mato, protegida apenas por sua solidão. Longe da cidade, que ela nem imaginava como fosse, distante dos perigos que amor representa para os desavisados.

O autor começa descrevendo o lugar e tecendo comparações que mostram a fragilidade da pequena personagem, a juriti-begônia, que não resiste ao menor impacto, usa essa imagem dizendo do quanto é a juriti sensível, assim como a begônia, suscetível aos mais leve toque.

“A juriti apaga-se como chama de algodão. Frágil torrão de vida, extingue-se como se extingue a vida do torrão de açúcar ao simples contato com a água”.

Imagine-a sujeita ao temível do gavião, incorporado no moço da cidade. O predador e sua crueza.

Ele era assim como a samambaia, que viça no mais árido solo, resiste a tudo, brota e rebrota mesmo depois de queimada.

O tal moço, este que veio, sequioso de uma vítima, trazido que foi pela mão do destino enganoso, era isso: rijo, forte e bonito.

Ele chegou sem aviso, perdido numa caçada, e pediu pouso, faminto, esgotado de andar no samambaieiro. Encantou a todos, pai, mãe, e principalmente a Vidinha, que ainda antes, há pouco, se perdia em estranhos sentimentos, sem saber o que pudesse aquilo ser.

Era o amor, ainda sem objeto, que brotava dentro dela, sem que ela soubesse. Os pais, entendido o que se passava, concluíram que era de casamento que Vidinha precisava.

Mas, casar com quem naqueles grotões sem mais habitantes? O moço, chegou na hora exata, e foi-se ficando, alegando uma inexistente doença, cujo verdadeiro nome era desejo, a fome atávica do gavião em busca de uma inocente vítima.

Vidinha foi se derretendo, encantada com o tal rapaz, que lhe falava dos encantos da cidade, e dizia que ela era bela, E Vidinha fez-se a mais fácil presa.

Satisfeitos seus desejos, o moço sumiu da mesma forma que havia chegado, deixando Vidinha desiludida da vida, das flores que antes eram o seu regalo, do céu que ela admirava, dos pássaros que a alegravam.

Não havia mais sol, e a noite era um negrume com todos os seus pesadelos. Vidinha definha, como a juriti, como a begônia, e morre.

Como uma experiência do destino, que põe na terra vidas que não são a ela adequadas, como um teste de sobrevivência. Concluía-se dessa forma mais um experimento falho. Vidinha não resistiu.

Termina a história numa cruz, com pai e mãe se lembrando do quanto era a vida boa enquanto Vidinha existia, agora faltava-lhes a luz que ela representava, a luz tinha se apagado no último beijo que pedira à mãe.

No fundo, é a velha história da moça inocente, caipira, enganada pelo moço da cidade, esperto e aproveitador das donzelas incautas.

Se bem que Vidinha já tinha lá uns assomos claros de que o que ela estava precisada mesmo era de homem. Até pai e mãe já haviam notado. Então, foi a sopa no mel, a moça pronta pro combate corpo-a-corpo encontra o moço em ponto de bala.

Levou algum tempo de embromação, mas ele acabou chegando lá. E deu no que deu. Só que depois, o rapaz chispou no mundo, nem esperou o café da manhã, deu no pé. Pois o que mais interessava ele já havia conseguido.

Lobato, claro, explorou tudo que havia para dar a idéia da inocência e fragilidade da moça, comparou-a até a chapeuzinho vermelho sob o olhar malévolo do lobo malvado.

Fez poesia, usou imagens primorosas, enfeitou o mais que podia. Mas o final da história era esperado, ninguém imaginava que iam ser felizes para sempre.

Desde o começo do conto, o autor avisa que o cara era um tremendo rapina, pronto pra faturar e sumir no mundo. Se alguém acreditou que houvesse boas intenções na cachola do sujeito, foram os pais da coitada, e ela, claro.

Os leitores, especialmente os mais sem-vergonhas, já sabiam como a história ia acabar, apesar do tom poético do Lobato, mas ele nem tenta induzir-nos a isso. Quer mesmo é deixar claro que moça boba, da roça, é prato feito pros espertinhos da cidade.

Veja também: