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A Moratória – Jorge de Andrade

A Moratória Jorge de Andrade

 Encenado pela primeira vez em 1955, A Moratória mostra como seu autor, Jorge Andrade, tem perfeito domínio do que se espera de uma peça teatral a ponto de conseguir inovar imensamente sem perder de vista a característica essencial do gênero: a valorização da encenação.

Por muito tempo a dramaturgia brasileira cometeu o erro de se concentrar apenas no texto, provocando distorções com obras em que a linguagem das personagens destoava pela falta de naturalidade, com falas gigantescas e cansativas (é obrigatório lembrar exceções como Martins Pena, no Romantismo, e Nélson Rodrigues, no Modernismo). 

Esqueciam que o aspecto mais vivo do teatro é a necessidade de ter de ser visto, ou seja, é muito mais do que história em si.

Não se quer dizer aqui, no entanto, que A Moratória tem seu valor porque despreza o texto. Muito pelo contrário, pois, quanto a esse aspecto, não há o que questionar na obra. 

Sua linguagem é muito bem elaborada, de um coloquial fiel e bem estilizado, sem decair nos vícios de linguagem da fala que enfeiariam o produto. Nota-se no autor o que foi apontado como um artesanato na escolha vocabular, do nível de linguagem, no emprego do tom. 

É aspecto que o torna um clássico do moderno, pois é um texto calculado para fluir natural ao seu leitor/telespectador.

Ainda assim, o tratamento literário não se restringe à transfiguração do padrão coloquial. O autor se permite trabalhar com inúmeras simbologias, sem tornar o texto etéreo, muito menos hermético. 

Basta lembrar, por exemplo, o galho seco de jabuticabeira que surge no cenário, que claramente consegue simbolizar a força já mirrada da antes poderosa classe cafeicultora.

Nesse ponto chega-se a outro aspecto literário da obra, que é a preocupação em focalizar e analisar questões sociais. Existe como pano de fundo à narrativa a Crise de 29 e a Revolução de 30, que provocaram a queda de um sistema oligárquico velho e que não encontrava mais espaço no novo status quo

Tal sistema fica, na peça, representado na figura de Joaquim, que, apegado a um universo de valores antigos, negocia café a prazo em meio a uma crise e ainda se atola em dívidas.

Chega a desenvolver esperanças achando que sua fazenda não irá à praça para pagamento de dívidas, pois seria arrematada pela irmã, Elvira. Acredita na dignidade de ver seu bem nas mãos de parentes, algo bem melhor do que sob posse de terceiros. Há nesse ponto um elemento que valoriza a dramaticidade da obra. A mulher não o ajuda, o que gera duas conseqüências.

A primeira é que de fato a fazenda vai à praça, acelerando a decadência de Joaquim e sua família. A segunda é a possibilidade que se abre para que possamos enxergar a força de Jorge Andrade, capaz de apresentar de maneira poderosa e convincente o caráter de suas personagens apenas pela ação e diálogos. 

Nota-se a tensão surda, interna e externa, por que passa Elvira, pois manda constantemente pequena ajuda à família de Joaquim, como café (é extremamente curioso, e chocante, que essa família, antes cafeicultora, passe a mendigar café) e leite. 

Esta mulher havia sido desprestigiada na divisão da herança, já que a melhor parte da fazenda tinha ficado para Joaquim. Assim, fica no ar a idéia de que, se ela não ajudou, pelo menos pode ter sentido uma ponta de satisfação ao ver a derrocada de Joaquim, sem mencionar que as contribuições dela ficam como um misto de humilhação vingativa com caridade e intenção de compensar uma consciência pesada. 

É uma pessoa que se sente na obrigação de praticar a caridade (faz até parte de uma entidade assistencial), mas não perde a mania de lembrar suas dificuldades em realizar esse ato, como se estivesse jogando na cara o favor que vem sendo feito aos parentes, apesar das queixas constantes de seu marido, que já havia se estapeado com Joaquim por causa de dívidas.

Na realidade, as mulheres dessa peça mostram-se muito mais adaptadas e conscientes do que os homens. Para corroborar tal argumento não precisamos nos concentrar na figura de Elvira. 

O destaque merece ser dado à Lucília, que, após a derrocada, amadurece amargamente e passa a sustentar a família, graças às suas costuras, atividade que Joaquim, seu pai, acha indigna (as críticas dele baseiam-se, mais uma vez, num universo de valores antigos. 

A tarefa de costureira não caberia bem a alguém da aristocracia cafeeira, em nada afeita a servir os outros). Ela é bem diferente do irmão, Marcelo, que sempre fora preguiçoso, sem disposição mesmo até para a escola (não completou os estudos) e que piorou a índole com a queda da família, tornando-se um bêbado que troca constantemente de emprego. 

Outra mulher forte é Helena, mãe e esposa conciliadora (tem uma enorme tarefa diplomática num lar em constantes discussões e desentendimentos), que se vê na obrigação de ser o alicerce das esperanças principalmente de seu marido, Joaquim, homem de temperamento explosivo, o típico coronel, o que se revela no autoritarismo com que estraga as possibilidades de casamento de sua filha, pois estava apaixonada por Olímpio, filho de um inimigo político.

No fim, Joaquim e Lucília é que são a mola-mestra da obra. Ela é a força por sobrevivência na realidade, o que, como já se diz, a faz eficiente na adaptação ao novo meio, urbano, dispensando os brios aristocratas que já não funcionam mais. Nesse ponto, leva vantagem em relação ao pai, que ainda está fortemente apegado ao passado rural de origem bandeirante. 

É um homem que se recusa autoritariamente a enxergar ou mesmo discutir a nova situação. No fundo, é uma questão de sobrevivência, pois não há mais espaço para ele.

É talvez por isso que se agarre a uma esperança de reconquista de suas terras, animada por um decreto que permitia moratória (daí o nome da peça), já que a liquidação das dívidas só poderia ter sido feita por meio de todo um processo que contava com publicação em jornais, o que não havia ocorrido no caso dele. Esperar passa a ser a sua vida.

Aliás, esse é um aspecto que dá uma substância assombrosa à obra. Sabe-se que seu autor, Jorge Andrade, tem traços neo-realistas, tornando A Moratória um filho tardio da ficção regionalista da Geração de 30, que tinha como companheiros Graciliano Ramos, Jorge Amado, Rachel de Queirós e José Lins do Rego. 

Mas a obra tem elementos existenciais tão profundos que lembram o modo como o melhor dos regionalistas, Graciliano Ramos, extrapolou os ditames desse grupo, tornando-se universal. De fato, o drama regional da peça acaba representando o drama de toda nossa civilização de esperar um retorno à redenção, à salvação, a um passado glorioso. Transforma-se, portanto, num tema extremamente humano.

O mais trágico é que a salvação não vem. Por meio de um longo processo judicial, Joaquim acaba perdendo, pois os credores acabam encontrando um subterfúgio: a lei obrigava que o processo de liquidação fosse anunciado em jornais, mas como na cidade não havia esse veículo (considerando-se que, de acordo com a etimologia latina, jornal seja de circulação diária), mas semanários, não havia como pleitear moratória e anulação da privação de bens. Fecham-se todas as portas. Instaura-se a derrocada completa.

Em suma, são temáticas pungentes e ao mesmo tempo engajadas. Mas o mais forte na obra está no que se refere à encenação. Tudo isso se passa num palco dividido em dois planos. 

O da esquerda, um pouco mais alto, é o do passado. Suas ações ocorrem na fazenda, em 1929. O segundo, da direita, mais baixo (símbolo de queda?) é o do presente, que se passa três anos depois, em uma pequena cidade.

O bonito é ver que esses dois planos se comunicam, muitas vezes o passado explicando o presente, ou este reforçando aquele. Há repetição de cenas, de dados, até mesmo o aparente diálogo entre as personagens, que providencialmente trocam de um plano para o outro, o que só faz revelar o apuro artesanal do autor na montagem das cenas.

O fenomenal é ver como esses dois planos vão se relacionando, separados, mas caminhando para um clímax comum. O da esquerda vai em direção à queda representada pela perda da fazenda em conseqüência de dívidas. 

O da esquerda vai na direção da queda representada na negação da moratória. Tudo confirma a tese de que não há como explicar essa peça – o melhor é vê-la ou, pelo menos, lê-la. É um espetáculo.

dores de histórias: ela é muito mais velha do que os (seus) anos…’ (da tradução de Herbert Caro, Nova Fronteira, 801 pgs., 1980).

                Zauber, em alemão, é mais do que magia: pode ser bruxaria, encantamento, fascinação, ilusão. Mito. A tuberculose era um mito. 

                Doença insidiosa, terminal para aqueles que não podiam tratar-se em clima seco e pagar uma superalimentação, a ‘fraqueza do peito’ corroía a resistência enquanto a febre constante produzia falsa sensação de excitação. Combinadas, consomem a vitalidade (daí consumption em inglês).

                Hans Castorp, como a doença que o rodeia e o infecta, desliza pelos diferentes estágios de malignidade, pelos diferentes refeitórios da clínica de Davos (todos fartos em proteínas), influenciado pelos mensageiros das idéias daquele tempo, até assistir a um estúpido e fútil duelo entre dois deles.

                Depois de 1945 (quando efetivamente acabou a Grande Guerra começada em 1914), com a descoberta da hidrazida e do coquetel de antibióticos, Davos deixou de ser estação de cura para converter-se em estação de esportes de inverno, resort do jet-set internacional. 

                Há 31 anos abriga um evento comercial-promocional apropriado ao cenário e a seus freqüentadores. Entra quem pode pagar, fala quem precisa aparecer. 

                Se antes Davos era um esconderijo onde se enfrentava a morte, hoje é um dos trampolins da Sociedade dos Espetáculos, grande circo das lantejoulas retóricas. Intitula-se fórum mas não tem representatividade nem legitimidade. 

                Não decide, não tem responsabilidades nem direitos. Passarela, pódio e palco para os que detêm o poder. Ou pretendem detê-lo (valem os dois sentidos do verbo). 

                Se ganhou dimensão, credite-se à ingenuidade ou leviandade daqueles que vão beliscar as sobras do banquete anual e com elas fingir que estão acompanhando o que se passa no mundo.

                O anti-Davos ao rés-do-chão, o Fórum Social de Porto Alegre, foi um happening na direção inversa, evento promocional como a sua antítese: festeiro, badalado e prenhe de contradições. 

                Seu evento máximo – a destruição de uma experiência científica legal – equivale à queima de livros proibidos pela Inquisição. Ou à demolição do telescópio de Galileu.

                A vedete, o próspero criador de cabras José Bové, apresentado como líder ‘camponês’, é o lídimo representante do conservadorismo e do reacionarismo dos pequenos e médios agricultores da Europa Ocidental. 

                Despreocupados com a fome no mundo ou a inclusão das massas dos imigrantes da África ou Ásia, são exemplos da neoxenofobia tão nociva quando o neoliberalismo. 

                Querem subsídios mas não querem que nós subsidiemos nossas exportações. São contra a União Européia, querem fronteiras e arame farpado – querem guerras.

                O fato de Bové detestar a Monsanto não o qualifica como líder progressista. Seus companheiros de palanque não abriram a boca contra a odiosa Bombardier, o novo polvo canadense. 

                Abominar hambúrgueres é prova de bom gosto gustativo, assim como a preferência pelo delicioso chèvre produzido por suas cabras. Não é diploma de sobriedade política.

                A tuberculose, doença de artistas e marginais, voltou a ser um dos flagelos da humanidade. Para enfrentá-la já não se precisa de Davos ou Campos do Jordão. 

                A montanha mágica, mítica, macabra, com todos os seus símbolos, pede efetiva contestação e, não, contrafação.”

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