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Fábulas de Anfion – João Cabral de Melo Neto

Fábulas de Anfion – João Cabral de Melo Neto

Fábula de Anfion é um poema narrativo , onde o anti-herói procura despojar a poesia de sua afetividade. Inspira-se no mito clássico da construção de Tebas, problematizando a insuficiência das palavras.

Anfion , de acordo com a mitologia grega, era filho de Júpiter e Antíopa. Dotado de talento para a música, Anfion recebeu uma lira de Apolo.

Ao som dessa lira, construiu depois a muralha de Tebas; as pedras iam-se colocando umas sobre as outras, sem qualquer esforço.

Cabral substituiu a lira por uma flauta rústica e interpretou o mito com liberdade de criação, associando os motivos temáticos “pedra” /”palavra”.

Ao final do poema o acaso vai frustrar o projeto de Anfion (depuração, mineralização dos objetos), por aparecer inexplicavelmente com toda uma vitalidade biológica. É uma força instintiva e anárquica que rompe com a aridez da vida ascética perseguida pelo poeta.

FÁBULA DE ANFION

1 – O Deserto

No deserto, entre a
paisagem de seu
vocabulário, Anfion,

ao ar mineral isento
mesmo da alada
vegetação, no deserto
que fogem as nuvens
trazendo no bojo
as gordas estações.

Anfion, entre pedras
como frutos esquecidos
que não quiseram

amadurecer, Anfion
como se preciso círculo
estivesse riscando

na areia, gesto puro
de resíduos respira
o deserto, Anfion

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