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Meu Querido Assassino – Dalton Trevisan

Meu Querido Assassino – Dalton Trevisan

Uma negrinha acenando

Do livro Meu querido Assassino, 1983; o conto é um diálogo entre um motorista e uma meretriz de estrada.

Cai a tarde, seis e meia e na estrada a negrinha de calça azul e blusa vermelha pede carona. O motorista pára, e ela lhe sorri com a boca sem dentes.

Ele pergunta se está voltando do emprego e ela lhe responde que está paquerando.

Ela faz aquilo todos os dias, quando não chove. Foi iniciada por uma amiga ruiva, que também faz a mesma coisa.

“— Quem foi o primeiro?
— Meu noivo. Queria saber se era moça.
— Ficou grávida?

— Tive um menino. Quase um aninho. Chuva ou sem chuva, são dois pacotes de leite por dia.”

Os pais da moça, pensam que ela trabalha de diarista. Ele pergunta como é a paquera e a mocinha começa a contar os detalhes.

Como sinalizam na estrada, aonde vão e o que ela faz. Sempre ele perguntando e ela respondendo na maior simplicidade.

“ — Qual foi o melhor dia?

— O dia que peguei sete.”

Ele diz para ela que já a viu outras vezes. Pergunta se existem outras garotas e se engravidaram como ela.

Por fim pergunta o que aconteceu com os dentes e ela lhe responde que o dentista tirou todos porque lhe disse que doía tudo. Chegam num provável destino e se despedem.

“—Chegamos. Aqui você desce.

—Até qualquer dia moço.
O sorriso puro dessa grande festa de viver.”

Com o facão dói

Extraído do livro Meu Querido Assassino, 1983; o conto narra em terceira pessoa a estória de João um maníaco violento e alcoólatra incorrigível, que surra toda a família, é machão e ainda se queixa que a mulher lhe rouba a paz de espírito.

“ Ele a cobre de soco e pontapé
— E agora? Está se divertindo?”

Sua família não tem sossego e vive desesperada. João não trabalha e não faz nada em casa.

Sua mulher, dona Maria é lavadeira, sua filha maior Odete de quinze anos é caixeira, Rosinha tem treze anos e além delas, o casal tem três filhas menores: Suzana, sete anos, Filó, três, das Dores, um ano e seis meses.

Uma noite de sábado, João começa a bater em Rosinha, Odete tenta acalmá-lo e João bate nela também. Continua bebendo ainda mais e quando dona Maria tenta intervir, ele a surra com o cabo de vassoura, quebrando seu braço e partindo sua cabeça.

“ — Só o começo sua bandida. Para você aprender.”

As menores também apanham sempre.
Depois das surras João promete matá-las uma por uma se não obedecerem. Ele escraviza todas, faz com que o sirvam como um rei.

“— Não sou o galã do barraco?”

Agarra e beija as mais velhas — com força e na boca. Você piou? Já viu: apanha sem dó.”

João bebe o tempo todo e a família até passa fome. Como se não bastasse tudo isso, João reclama de Maria dizendo que ela suga sua alma e toma conta de sua mente.

Maria sofre a quinze anos com João e lamenta que tenha o conhecido já alcoólatra e arrepende-se da esperança que teve.

Enquanto isso João continua batendo na família inteira e praguejando contra a mulher.

“— Essa mulher faz arte de bruxaria. Quer me arruinar.”

Desanimada Maria sonha ter paz e sossego na companhia das filhas, todas registradas com o da Silva de seu pai.

“— Essas eu fiz para mim. Qualquer dia me sirvo. Filha minha para outro não engordo.

—Ele diz que não pode sem a velha. Quem gosta faz o que me fez? Me rachou a cabeça. Partiu o braço, logo o direito. Agora como é que eu lavo roupa?”

Os personagens dialogam sem resposta, como se falassem com outro personagem incógnito e não identificado no conto ou ainda com o próprio leitor ou o narrador.

João é irremediável. Barbariza as filhas e tira sangue da mulher e no fim da estória a situação é a mesma. A mesma pancadaria e os ataques do João.
A vizinhança fica horrorizada e não consegue dormir com a gritaria. Maria se queixa:

“— Ai, que vida infeliz.

João revida com soco, pontapé e cabeçada.

— E agora? Está se divertindo?

Apanha ela (grávida de três meses) e apanham as cinco pestinhas.
Uma das menores fica de joelho e mão posta:

— Sai sangue, pai. Não com o facão, paizinho. Com o facão dói.”

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