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Monasticon – Alexandre Herculano

Monasticon – Alexandre Herculano

-Eurico, o Presbítero constitui juntamente com O Monge de Cister, uma dupla novela, aglutinada sob o título de Monasticon e que pretende examinar uma questão: “o celibato clerical à luz do sentimento”.

A tese não se prova porque a hipótese é apresentada recorrendo a duas figuras – Eurico e Vasco- que se fizeram sacerdotes não por vocação mas por fuga a amores fracassados ou por fuga a amores fracassados ou por buscar um encontro maior com suas consciências.

– A religião é o complicador do conflito sentimental de Eurico e serve aos intuitos vingativos de Vasco.

A época gistórica de Eurico é a do domínio árabe.

Por carência de bases documentais, Herculano recorre à intuição para nos dar o choque de duas civilizações: a dos árabes, bárbara, violenta, e a dos godos, já caldeada pelo cristianismo.

O romance é mais poético do que histórico, e talvez por isso, menos do agrado de Herculano (por ferir seus escrúpulos de historiador rigoroso).

– O narrador é onisciente. O autor ocupa sempre o primeiro plano, mesmo no diálogo, onde exprime as suas idéias, ou nas suas divagações, nos comentários, onde o tom saudosista (poético) se mistura com uma ironia quase agressiva muito característica de Herculano.

– Há três partes distintas na obra; a primeira apresenta a pancronia da época; a segunda introduz e caracteriza as personagens na ação que, na terceira parte, surge clara e em seu pleno desenvolvimento, até a conclusão. Isso contraria a estrutura da epopéia clássica e do romance realista, que iniciam a narrativa em pleno desenrolar da ação.

– A linguagem majestosa, ritmada, rica de lirismo e de comparações sugestivas permite a classificação como poema (ao que se acresce a forma literalizante, vernácula, arcaizante e o tom levemente irônico).

– O colorido na transmissão (recriação) da época e da paisagem tem o caráter de uma crônica.

– Pelo trabalho inventivo ficcional, é um romance.
– A Grandiosidade, a nobreza das personagens, os lances violentos , a unidade de ação e o desenrolar fatídico dos acontecimentos fazem de Eurico um aparentado da tragédia.

Assim, lido como poesia, como crônica, como romance e como tragédia, Eurico é a obra-prima de Herculano, e uma das jóias literárias de Portugal.

– Aqui transcrevemos o momento em que Eurico se entrega, voluntariamente, à morte:

É quase a um tempo dois pesados golpes de franquisque assinalaram profundamente os elmos de Opas e Juliano.

No mesmo momento mais três ferros reluziram.
Um contra três! – Era um combate calado e temeroso. O cavaleiro da cruz parecia desprezar Miguelz: os seus golpes retiniam só nas armaduras dos dois godos.
Primeiro o velho Opas, depois Juliano caíram.
Então, recuando o cavaleiro cristão exclamou:
“Meu Deus! Meu Deus!- Possa o sangue do mártir remir o crime do Presbítero!”
E, largando o franquisque, lefou as mãos ao capacete de bronze e arrojou-o para longe de sí.
Miguelz, cego de cólera, vibrava a espada: o crânio do seu adversário rangeu, e um jorro de sangue salpicou as faces do sarraceno.

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