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O crime do Padre Amaro – Eça de Queirós

O crime do Padre Amaro – Eça de Queirós

Crítica à sociedade portuguesa

Publicado em 1875, O Crime do Padre Amaro, de Eça de Queirós, é o primeiro romance realista em língua portuguesa. Para tanto, cumpre rigidamente o que na época era considerado a função da literatura, de acordo com os postulados pregados por seu autor nas famosas Conferências Democráticas do Cassino Lisbonense (1871): tornar-se um instrumento para a reforma da sociedade.

Seu ataque mostra-se extremamente ácido na presente obra, o que permite identificar ideais anarquistas (entende-se aqui por anarquia o ideal de destruir toda forma de poder vigente para instituir, a partir desse caminho livre, o estado socialista) do autor. Bastar notar a ironia aguda e destrutiva com que descreve suas personagens. Seu alvo é uma das bases da decadente sociedade portuguesa: a Igreja. Para tanto, criou uma personagem, Amaro, que será o meio pelo qual desancará o clero.

Para começar, tal protagonista havia-se tornado padre sem vocação nenhuma, apenas por que sua madrinha, a Marquesa de Alegros, queria. Tanto que seu desempenho como seminarista apresenta-se medíocre e, em alguns aspectos, tão distorcido a ponto de alimentar fantasias sexuais com a Virgem Maria.

Ordenado, vai por pouco tempo para uma paróquia num recanto inóspito. Graças a influências (essas influências deixam clara a mistura que se fazia entre a Igreja e questões políticas, chegando a instituição religiosa a se envolver em eleições, utilizando até as confissões como instrumento de aliciamento eleitoral), consegue uma transferência para Leiria. Nessa cidade é que se passará a maior parte da história.

Em tal ambiente, Amaro até poderia mostrar-se um padre de valor, honrando sua carreira eclesiástica. Mas o meio em que passa a viver o impedia de tanto. A começar pelo religioso que o introduzirá no novo posto, o cônego Dias. Este era amante de S. Joaneira, mulher que hospedará o recém-chegado. O mais incrível é que o cônego tinha ido para Leiria para substituir um padre que por sinal era também amante de S. Joaneira, o que revela um certo determinismo no comportamento dela. Além desse desvio comportamental, ele é apresentado como um glutão que vive ora se empaturrando de comida, ora arrotando enquanto fala, ora desmanchando-se em uma poltrona, entregue à modorra da pós-digestão.

Além dele há o padre Brito, um brutamontes, ser violento, amante da esposa de uma figura importante de Leiria. Existe também o padre Natário, de temperamento biliar, apelidado de víbora pela forma vingativa com que age, capaz de arquitetar esquemas e subterfúgios para atingir seus objetivos, sem mencionar que estabelece um relacionamento reprovável com duas jovens que cria. O padre Silvério é o típico exemplo (também presente nos outros) da religiosidade atrasada e supersticiosa, que servia para atender e ao mesmo tempo controlar as beatas, o outro grupo massacrado pelas críticas queiroseanas.

Em suma, é impossível para Amaro ser um padre de valor dentro de um meio tão corrompido, em que os religiosos, ao invés de guiarem espiritualmente os fiéis para a salvação, principalmente dando atenção ao exemplo que representam, estão mais preocupados em aproveitar hipocritamente os prazeres carnais (o principal problema deles não é a entrega aos prazeres, mas a hipocrisia, ou seja, defender um ideal e praticar exatamente o oposto), não apresentam caridade, humildade, chegando a ponto de enxergar a pobreza como vício e não como fruto de um sistema injusto de distribuição de renda do qual eles também fazem parte e ajudam a estabelecer (o mais incrível – e irônico – é que essa discussão surgiu enquanto os padres se entregavam a um banquete). É admirável que sejam padres.

Dessa forma, em pouco tempo acaba-se envolvendo com Amélia, filha de S. Joaneira. Mais uma vez parece surgir aqui o determinismo: se a mãe era amante de padre, a filha é empurrada, praticamente por hereditariedade, ao mesmo destino. Para piorar as caracterizações negativas, o narrador faz questão de lembrar que a menina tinha na missa a sua ópera, já que prestava atenção mais à formalidade do culto do que ao seu sentido mais profundo e autêntico. Como parte da sedução, Amaro entrega um livro de orações em que o tom de entrega a Jesus está mais para erotismo do que para misticismo. Assim, capaz de fazer tais misturas outrora inconciliáveis, é presa fácil no jogo de sedução (uma queixa pode ser levantada em relação ao estilo queiroseano. A maneira como a trama foi montada revela o pecado de esquematismo. Tudo assume uma lógica tão extrema (como a explicação do passado de Amaro e de Amélia), que acaba fugindo à realidade. O esforço é tão grande em tornar a narrativa verossímil que ela, de tão artificial, corre sério risco de se tornar exatamente o contrário: inverossímil).

É nesse estratagema que reside um dos crimes de Amaro. Seguindo as idéias do dr. Gouveia, médico presente em vários momentos da narrativa, a sedução não possuía nada de errado. Fazia parte dos impulsos naturais do homem. O problema está no fato de Amaro, como já dito, agir de forma hipócrita, escondendo suas intenções para de maneira mais segura atingir os seus intentos. Assim, tem a desculpa de orientar religiosamente Amélia com um livro de orações que na realidade a inicia sexualmente.

Lógico que tudo isso não se processa de formar rápida, lisa. Amaro teve momentos de dúvida, de hesitação. Desejava Amélia, mas sentia que estava indo contra toda a orientação que recebera. Há um conflito, mas que aos poucos vai se afrouxando. Quando ousa beijar o pescoço de Amélia, imagina ter exagerado e por isso se muda da casa de S. Joaneira, muda o horário de sua missa (o que por si já constituía um feito enorme, pois passou a celebrá-la mais cedo. Interessante é notar a falta de força de vontade de Amaro como padre. Não gostava de celebrar missa de manhãzinha, por causa de sua preguiça. Quando a celebrava, muitas vezes não tinha concentração no ritual, pois sua mente estava fixada na refeição que em breve iria ter. É, pois, um sacerdote medíocre), para evitar contato com a menina. Mas tal procedimento não dura muito, pois a própria senhora vai atrás do pároco, exigindo o retorno de sua freqüência à casa dela.

O problema é que João Eduardo é que estava para ser noivo da menina. Quando se sente preterido e enxerga o motivo disso tudo no pároco, descarrega sua ira num artigo de jornal, em que assina “Um Liberal” e expõe a público a podridão que grassava no clero (na verdade, estava movido muito mais pelo despeito do que por causas mais nobres e reformistas). É um episódio que serve para revelar o caráter dos religiosos, que, ao invés de “oferecerem a outra face”, mostram instintos vingativos. Brito quer rachar o autor do artigo. Natário é quem vai mostrar um lado pior, por ser mais dissimulado. Faz as pazes com o padre Silvério só para obter o nome do autor do artigo, já que este padre era confessor da esposa do diretor do jornal em que a verrina havia sido publicada. Ou seja, o caráter sagrado do segredo de confissão havia sido violado. E a conseqüência – detonam a vida do opositor apaixonado – também é elemento que revela a falta de espírito cristão daqueles que justamente deveriam ser bastiões desse sentimento.

Livre o caminho, Amaro consegue finalmente a conjuração carnal. Só que tudo se passou na casa dele, num momento em que havia aproveitado um temporal para conseguir um momento a sós com ela. A empregada do pároco – ex-prostituta – aconselha-o a tomar mais cuidado. Estabelece-se um esquema bastante complexo, montado pela ex-meretriz. Os dois passam a se encontrar na casa do sineiro de sua paróquia, o tio Esguelhas. A desculpa (mais uma vez a hipocrisia e a ironia em cena!) era a de que ele precisava um lugar recolhido para despertar o dom religioso dela e a moça iria se dedicar a uma missão santa de alfabetizar e catequizar a filha do sineiro, Totó, uma paralítica entrevada na cama. Na realidade, cumpriam brevemente essa tarefa e subiam para o quarto, onde se entregavam à luxúria.

No entanto, se por um lado esse expediente foi um grande facilitador, trouxe complicações. A paralítica chegou a se interessar por Amaro, mas ficou possessa ao descobrir que as intenções do padre eram outras. Passa a ter ataques, que aterrorizam a alma supersticiosa de Amélia. Já se imagina ser um caso de possessão, o que chega aos ouvidos do Cônego Dias. Quando vai visitar a deficiente, ouve desta a declaração do que o casal andava fazendo.

O engraçado é que o padre mestre vai chamar a atenção de Amaro, mas este, ao invés de se fazer culpado, rebate a acusação com outra, lembrando o relacionamento que Dias estabelecia com S. Joaneira. Desarma o opositor e tudo acaba num tom amistoso, o que reforça a decadência do clero.

Amaro atinge, assim, um período de tranqüilidade, atrapalhada de vez em quando pela preocupação de Amélia em estar desencaminhando a carreira eclesiástica do seu amante, o que a faz ansiar para que ele seja um excelente padre, o que aplacaria a ira divina. Mas no momento em que se entregavam um ao outro, tudo isso desaparecia.

Mas surge um complicador: Amélia engravida. O pároco pede imediatamente ajuda ao seu padre mestre. Montam, então, o seguinte esquema: o cônego passará uma temporada com S. Joaneira numa estação de águas, Vieira, enquanto Amélia ficará com a irmã convalescente de Dias em uma quinta na zona rural de Leiria, escondendo a gravidez. Nascida a criança, seria entregue para adoção. Tudo aparentemente perfeito.

A parte mais sofredora em tudo será Amélia. Praticamente abandonada por Amaro, será entregue a uma mulher de religiosidade tacanha, que tratará muito mal a menina, por considerá-la uma pecadora. Trata-se de uma senhora incapaz de caridade, bondade e benevolência cristãs e que ainda se considera religiosa. Mais uma vez uma crítica feroz às beatas.

Os momentos de paz serão proporcionados com a chegada do Abade Ferrão. Essa figura é a segunda personagem positiva do romance (a outra é o dr. Gouveia. Juntos parecem representar a ciência e a religião em seus aspectos positivos), representando uma religiosidade limpa de superstições, em que Deus é apresentado não como o punidor, mas como pai benevolente, em que o misticismo busca o bem-estar e não o terror. Por causa disso, é discriminado dentro da própria diocese, sendo relegado a uma paróquia de zona rural, apesar de ser reconhecidamente um dos melhores teólogos de Portugal. Esse religioso é quem resgatará Amélia, afastando-a da influência perniciosa de Amaro.

Entretanto, a menina tem suas recaídas, o que, somado ao mau tratamento e ao medo de ser surpreendida no seu “estado interessante”, irá complicar sua gravidez e, conseqüentemente, seu parto. Acaba morrendo ao dar à luz. Amaro entrega o seu filho a uma “tecedeira de anjos”, ou seja, mulher encarregada de dar fim a crianças não desejadas. Chega a se arrepender, mas já era tarde: o bebê já havia falecido.

Como é comum nos romances de Eça de Queirós, há um salto no tempo, em que encontramos Amaro e Dias em Lisboa. O jovem padre está mais uma vez usando suas influências para conseguir outra transferência de paróquia, desta vez para um local mais próximo da capital. E confessa ao seu padre mestre, de forma galhofeira, que passara a confessar só mulheres casadas. Ou seja, não houve evolução moral nas personagens, muito pelo contrário, estavam sendo premiadas apesar (ou por causa) de suas deficiências, na medida em que a transferência de Amaro para uma paróquia mais próxima da capital implicava evolução.

Magistral é o desfecho do romance. O conde de Ribamar faz um discurso ufanista, elogiando a tranqüilidade e a pretensa superioridade de Portugal, que passava ao largo de todas as revoluções de Paris (um levante comunista) que chegavam pelos jornais.

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