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O Guardador de Rebanhos – Alberto Caeiro (Fernando Pessoa)

O guardador de rebanhosAlberto Caeiro (Fernando Pessoa)

            Alberto Caeiro foi o primeiro heterônimo que Fernando Pessoa criou, a acreditar-se no que comunicou a Casais Monteiro, fruto de um “dia triunfal” de sua vida, quando, de pé, escreveu “trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase”, abrindo-os “com um título – O Guardador de Rebanhos”.

         A poesia de Caeiro é prosaica, coloquial, despojada, de modo a anular o que caracteriza o texto poético convencional. Não há rimas nem ritmo de rigor métrico. Escolheu o verso livre dos modernos. Caeiro escreve no poema XIV de “O Guardador de Rebanhos”, que não se importa com as rimas. (“Obra Poética”, Aguilar, p. 214) e, no poema XXXIV, lastima que haja “poetas que são artistas / E trabalham nos seus versos / Como um carpinteiro nas tábuas!…” (Ob. cit., p. 222.)

          Caeiro quer reproduzir a objetividade captada do mundo por suas sensações, diretamente, sem intermediações. Daí sua poesia fluir natural, como uma conversa tranqüila, plácida, sem adornos ou atavios, ora exprimindo o seu ‘sentir’ as coisas, ora constatando o que nelas há e o desperta, como quando, pela primeira vez no Universo, reparou que as borboletas não têm cor, pois a cor é que tem cor nas asas da borboleta e as flores não têm perfume por que o perfume é que tem perfume no perfume da flor. “A borboleta é apenas borboleta / E a flor é apenas flor.” (Ob. cit. p. 224, XL.)

             A simplicidade dos poemas caeirianos é só aparente, porque enovelados em “elementos cada vez mais inesperados, cada vez mais complexos”, unificados por “um pensamento filosófico que não só os coordena e concatena, mas que ainda mais, prevê críticas, explicita defeitos por uma integração deles na substância espiritual da obra” (ob. cit., p. 201), que é a de se pôr diante das coisas e de senti-las objetivamente, afastando-se da linguagem comprometida com a ideologia dominante, que dá nome e sentido às coisas, para reaver o poder de nomear o real e a palavra primária, original, raiz da analogia entre as coisas e o homem com o mundo. 

            Afinal, Caeiro é “o argonauta das sensações verdadeiras”, “o descobridor da natureza”. Assim, os poemas caeirianos têm por projeto destruir a linguagem poética “artificial”, substituindo-a por uma linguagem prosaica – antipoética – para instituir uma nova poética.

            Alberto Caeiro, conforme a biografia que dele escreveu Fernando Pessoa, era um ignorante da vida e quase ignorante das letras. Nasceu em Lisboa, mas passou quase toda vida numa quinta do Ribatejo, onde escreveu grande parte dos poemas d’O Guardador de Rebanhos, d’O Pastor Amoroso e alguns dos Poemas Inconjuntos.

            Caeiro vê, ouve; tem olfato, paladar e tato. Seus pensamentos são todos sensações. Pensa “com os olhos e com os ouvidos / E com as mãos e os pés / E com o nariz e a boca. // Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la / E comer um fruto é saber-lhe o sentido”. (Ob. cit., IX, p. 212.) Só sabe o que atinge seus sentidos. Como o mistério não lhe aparece, não crê em sua existência. “O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério? / O único mistério é haver quem pense no mistério.” (Ob. cit., V, p. 207.) E repete, mais adiante:



                             “O mistério das cousas, onde está ele?

 
                            Onde está ele que não aparece

 
                            Pelo menos a mostrar-nos que é mistério?

 
                           Que sabe o rio disso e que sabe a árvore?

  
                         E eu que não sou mais do que eles, que sei disso?

                            Sempre que olho para as cousas e penso no

  
                         que os homens pensam

 
                          delas,

                            Rio como um regato que soa fresco numa pedra.” (…)

(Ob. cit., XXXIX, p. 223.)

           Não acredita, também, nos filósofos (“os filósofos são homens doidos”, escreve no poema XXVIII, p. 219), nem na metafísica.

 

                              “Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?

                               A de serem verdes e copadas e de terem ramos

 
                              E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,

                              A nós, que não sabemos dar por elas.

                              Mas que melhor metafísica que a delas,

                              Que é a de não saber para que vivem

                              Nem saber que o não sabem?”

 
                                                                     (Ob. cit., V, p. 207.)

 
              Fernando Pessoa apresenta, desta maneira, o heterônimo Alberto Caeiro como um poeta que, pretensamente,  não é filósofo, nem tem filosofia, porque tudo é como é e assim é que é. (Ob. cit., XXIII, p. 217.)

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Num meio dia de fim de primavera

Tive um sonho como uma fotografia

Vi Jesus Cristo descer à terra,

Veio pela encosta de um monte

Tornado outra vez menino,

A correr e a rolar-se pela erva

E a arrancar flores para as deitar fora

E a rir de modo a ouvir-se de longe.

Tinha fugido do céu,

Era nosso demais para fingir

De segunda pessoa da Trindade.

No céu era tudo falso, tudo em desacordo

Com flores e árvores e pedras,

No céu tinha que estar sempre sério

E de vez em quando de se tornar outra vez homem

E subir para a cruz, e estar sempre a morrer

Com uma coroa toda à roda de espinhos

E os pés espetados por um prego com cabeça,

E até com um trapo à roda da cintura

Como os pretos nas ilustrações.

Nem sequer o deixavam ter pai e mãe

Como as outras crianças.

O seu pai era duas pessoas –

Um velho chamado José, que era carpinteiro,

E que não era pai dele;

E o outro pai era uma pomba estúpida,

A única pomba feia do mundo

Porque não era do mundo nem era pomba.

E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.

Não era mulher: era uma mala

Em que ele tinha vindo do céu.

E queriam que ele, que só nascera da mãe,

E nunca tivera pai para amar com respeito,

Pregasse a bondade e a justiça!

Um dia que Deus estava a dormir

E o Espírito Santo andava a voar,

Ele foi à caixa dos milagres e roubou três,

Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.

Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.

Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz

E deixou-o pregado na cruz que há no céu

E serve de modelo às outras.

Depois fugiu para o sol

E desceu pelo primeiro raio que apanhou.

Hoje vive na minha aldeia comigo.

É uma criança bonita de riso e natural.

Limpa o nariz no braço direito,

Chapinha nas poças de água,

Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.

Atira pedras nos burros,

Rouba as frutas dos pomares

E foge a chorar e a gritar dos cães.

E, porque sabe que elas não gostam

E que toda a gente acha graça,

Corre atrás das raparigas

Que vão em ranchos pelas estradas

Com as bilhas às cabeças

E levanta-lhes as saias.

A mim ensinou-me tudo.

Ensinou-me a olhar para as cousas,

Aponta-me todas as cousas que há nas flores.

Mostra-me como as pedras são engraçadas

Quando a gente as tem na mão

E olha devagar para elas.

Diz-me muito mal de Deus,

Diz que ele é um velho estúpido e doente,

Sempre a escarrar no chão

E a dizer indecências.

A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia,

E o Espírito Santo coça-se com o bico

E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.

Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.

Diz-me que Deus não percebe nada

Das coisas que criou –

“Se é que as criou, do que duvido” –

“Ele diz, por exemplo, que os seres cantam a sua glória,

mas os seres não cantam nada,

se cantassem seriam cantores.

Os seres existem e mais nada,

E por isso se chamam seres”.

E depois, cansado de dizer mal de Deus,

O Menino Jesus adormece nos meus braços

E eu levo-o ao colo para casa.

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Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.

Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.

Ele é o humano que é natural,

Ele é o divino que sorri e que brinca.

E por isso é que eu sei com toda a certeza

Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.

E a criança tão humana que é divina

É esta minha quotidiana vida de poeta,

E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre,

E que o meu mínimo olhar

Me enche de sensação,

E o mais pequeno som, seja do que for,

Parece falar comigo.

A Criança Nova que habita onde vivo

Dá-me uma mão a mim

E a outra a tudo que existe

E assim vamos os três pelo caminho que houver,

Saltando e cantando e rindo

E gozando o nosso segredo comum

Que é o de saber por toda a parte

Que não há mistério no mundo

E que tudo vale a pena.

A Criança Eterna acompanha-me sempre.

A direção do meu olhar é o seu dedo apontando.

O meu ouvido atento alegremente a todos os sons

São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.

Damo-nos tão bem um com o outro

Na companhia de tudo

Que nunca pensamos um no outro,

Mas vivemos juntos a dois

Com um acordo íntimo

Como a mão direita e a esquerda.

Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas

No degrau da porta de casa,

Graves como convém a um deus e a um poeta,

E como se cada pedra

Fosse todo o universo

E fosse por isso um grande perigo para ela

Deixá-la cair no chão.

Depois eu conto-lhe histórias das cousas só dos homens

E ele sorri, porque tudo é incrível.

Ri dos reis e dos que não são reis,

E tem pena de ouvir falar das guerras,

E dos comércios, e dos navios

Que ficam fumo no ar dos altos-mares.

Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade

Que uma flor tem ao florescer

E que anda com a luz do sol

A variar os montes e os vales,

E a fazer doer aos olhos os muros caiados.

Depois ele adormece e eu deito-o

Levo-o ao colo para dentro de casa

E deito-o, despindo-o lentamente

E como seguindo um ritual muito limpo

E todo materno até ele estar nu.

Ele dorme dentro da minha alma

E às vezes acorda de noite

E brinca com os meus sonhos,

Vira uns de pernas para o ar,

Põe uns em cima dos outros

E bate as palmas sozinho

Sorrindo para o meu sono.

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Quando eu morrer, filhinho,

Seja eu a criança, o mais pequeno.

Pega-me tu no colo

E leva-me para dentro da tua casa.

Despe o meu ser cansado e humano

E deita-me na tua cama.

E conta-me histórias, caso eu acorde,

Para eu tornar a adormecer.

E dá-me sonhos teus para eu brincar

Até que nasça qualquer dia

Que tu sabes qual é.

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Esta é a história do meu Menino Jesus,

Por que razão que se perceba

Não há de ser ela mais verdadeira

Que tudo quanto os filósofos pensam

E tudo quanto as religiões ensinam?


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