Menu fechado

O Pirotécnico Zacarias – Murilo Rubião

O Pirotécnico Zacarias – Murilo Rubião

Este livro é uma seleção com alguns dos melhores contos de Murilo Rubião. Deliciosos, intrigantes, carregados de sobrenatural, são páginas antológicas da literatura brasileira.

Ao analisar a obra de Murilo Rubião, apresentando-o como filiado ao mundo ficcional de Kafka e precursor da moderna narrativa fantástica entre nós, vê-se que dentro dessa mesma modalidade do narrar pode haver diferenças essenciais no tratamento do tema sem que haja ruptura do fantástico, em si. 

Neste sentido, o espanto, elemento essencial à trama fantástica, aparece seqüestrado em O Pirotécnico Zacarias, o que se deve ao comportamento mecânico do mundo real que, de tão regido por normas burocratizadas, perde a capacidade de estranhar o absurdo. 

Em função disto, vê-se aí o fantástico. Como metáfora do real, representação da experiência histórica do nosso tempo, dimensão do real “carregado de verdade humano e histórica”. Em Murilo Rubião o fantástico brota do próprio modo de ser mineiro, que “não revela apreensão diante do inesperado”. 

Murilo Rubião se acha no nível da melhor tradição universal do fantástico e o promove à posição que ele efetivamente merece em nossa literatura.

O escritor mineiro Murilo Rubião é um dos precursores do realismo mágico, gênero que colocou a América Latina no mapa literário internacional. 

Na década de 40, Murilo já combinava o absurdo, a poesia e a realidade e fazia suas magias literárias. Autor meticuloso (costumava refazer partes inteiras de seus contos, mesmo depois de publicá-los), contista de imensos recursos, deixou uma obra que, não sendo extensa, é densa e intrigante. 

Usando o sobrenatural e o fantástico, Murilo Rubião fustiga com ironia e humor uma sociedade crivada de injustiças e preconceitos.

Texto escolhido: A FLOR DE VIDRO

“E haverá um dia conhecido do Senhor que não será dia nem noite, e na tarde desse dia aparecerá a luz.” – Zacarias, XIV, 7.

Da flor de vidro restava somente uma reminiscência amarga. Mas havia a saudade de Marialice, cujos movimentos se insinuavam pelos campos — às vezes verdes, também cinzentos. 

O sorriso dela brincava na face tosca das mulheres dos colonos, escorria pelo verniz dos móveis, desprendia-se das paredes alvas do casarão. Acompanhava o trem de ferro que ele via passar, todas as tardes, da sede da fazenda. 

A máquina soltava fagulhas e o apito gritava: Ma­ria­li­ce, Marialice, Marialice. A última nota era angustiante.

— Marialice!

Foi a velha empregada que gritou e Eronides ficou sem saber se o nome brotara da garganta da Rosária ou do seu pensamento.

— Sim, ela vai chegar. Ela vai chegar!

Uma realidade inesperada sacudiu-lhe o corpo com violência. Afobado, colocou uma venda negra na vista inutilizada e passou a navalha no resto do cabelo que lhe rodeava a cabeça.

Lançou-se pela escadaria abaixo, empurrado por uma alegria desvairada. Correu entre aléias de eucaliptos, atingindo a várzea.

Marialice saltou rápida do vagão e abraçou-o demoradamente:

— Oh, meu general russo! Como está lindo!

Não envelhecera tanto como ele. Os seus trinta anos, ágeis e lépidos, davam a impressão de vinte e dois — sem vaidade, sem ânsia de juventude.

Antes que chegassem a casa, apertou-a nos braços, beijando-a por longo tempo. Ela não opôs resistência e Eronides compreendeu que Marialice viera para sempre.

Horas depois (as paredes conservavam a umidade dos beijos deles), indagou o que fizera na sua ausência.

Preferiu responder à sua maneira:

— Ontem pensei muito em você.

A noite surpreendeu-os sorrindo. Os corpos unidos, quis falar em Dagô, mas se convenceu de que não houvera outros homens. Nem antes nem depois.

As moscas de todas as noites, que sempre velaram a sua insônia, não vieram.

Acordou cedo, vagando ainda nos limites do sonho. Olhou para o lado e, não vendo Marialice, tentou reencetar o sono interrompido. Pelo seu corpo, porém, perpassava uma seiva nova. 

Jogou-se fora da cama e encontrou, no espelho, os cabelos antigos. Brilhavam-lhe os olhos e a venda negra desaparecera.

Ao abrir a porta, deu com Marialice:

— Seu preguiçoso, esqueceu-se do nosso passeio? Contemplou-a maravilhado, vendo-a jovem e fresca. Dezoito anos rondavam-lhe o corpo esbelto. Agarrou-a com sofreguidão, desejando lembrar-lhe a noite anterior. Silenciou-o a convicção de que doze anos tinham-se esvanecido.

O roteiro era antigo, mas algo de novo irrompia pelas suas faces. A manhã mal despontara e o orvalho passava do capim para os seus pés. 

Os braços dele rodeavam os ombros da namorada e, amiúde, interrompia a caminhada para beijar-lhe os cabelos. Ao se aproximarem da mata — termo de todos os seus passeios — o sol brilhava intenso. Largou-a na orla do cerrado e penetrou no bosque. Exasperada, ela acompanhava-o com dificuldade:

— Bruto! Ó bruto! Me espera!

Rindo, sem voltar-se, os ramos arranhando o seu rosto, Eronides desapareceu por entre as árvores. Ouvia, a espaços, os gritos dela:

— Tomara que um galho lhe fure os olhos, diabo!

De lá, trouxe-lhe uma flor azul.

Marialice chorava. Aos poucos acalmou-se, aceitou a flor e lhe deu um beijo rápido. Eronides avançou para abraçá-la, mas ela escapuliu, correndo pelo campo afora.

Mais adiante tropeçou a caiu. Ele segurou-a no chão, enquanto Marialice resistia, puxando-lhe os cabelos.

A paz não tardou a retornar, porque neles o amor se nutria da luta e do desespero.

Os passeios sucediam-se. Mudavam o horário e acabavam na mata. Às vezes, pensando ter divisado a flor de vidro no alto de uma árvore, comprimia Marialice nos braços. 

Ela assustava-se, olhava-o silenciosa, à espera de uma explicação. Contudo, ele guardava para si as razões do seu terror.

O final das férias coincidiu com as últimas chuvas. Debaixo de tremendo aguaceiro, Eronides levou-a à estação.

Quando o trem se pôs em movimento, a presença da flor de vidro revelou-se imediatamente. Os seus olhos se turvaram e um apelo rouco desprendeu-se dos seus lábios.

O lenço branco, sacudido da janela, foi a única resposta. Porém os trilhos, paralelos, sumindo-se ao longe, condenavam-no a irreparável solidão.

Na volta, um galho cegou-lhe a vista

Veja também: