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Os Anos Mais Antigos do Passado – Carlos Heitor Cony

Os Anos Mais Antigos do Passado – Carlos Heitor Cony

Carlos Heitor Cony tinha passado duas décadas sem publicar romance quando ressurgiu com Quase memória (1995).

Como cronista, publicou pouco em livro: Da arte de falar mal (1963), O ato e o fato (1964) e agora este Os anos mais antigos do passado que, como Quase memória, é livro que já nasce clássico.

Uma reunião de crônicas que vale como um volume de memórias.

Embora fragmentado em relatos de viagens, em recordações da infância, em alegorias de fatos políticos (cheias de humor e sarcasmo), em registros da rotina do mundo fixados com o pulso do ficcionista, a espinha dorsal do livro é uma longa e mansa busca do tempo perdido.

A sua fragmentação é condicionada sobretudo pelo exercício diário que define o gênero, mas suas páginas não deixam de nos transmitir o gosto difuso e fascinante da grande aventura da vida.

Seja através da visão retrospectiva dos anos mais antigos do passado (elemento do memorialismo), seja pela notação diária dos fatos transpostos num lirismo de primeira água.

São as marés montantes do passado, como queria Mário Quintana, que chegam sem avisar, e tanto são motivo de apreensão quanto de surpresa e maravilhamento.

A face amargurada, marcante em Cony, dá sempre lugar a um certo tom elegíaco e à índole lírica. As suas memórias, que a rigor talvez Cony nunca escreveria, aqui estão, como em Quase memória, disfarçadas, quem sabe exorcizadas.

É a sua história, o belo e o feio da humana lida, que aos poucos ele dilui e transfixa nos romances e nas crônicas. Neles, Cony sabe rir como poucos deste circo do mundo, com toda sua carga de frustrações e desastres, sua beleza e sua glória.

Ri de um universo que é regido dos altos tronos, seja por Deus, o diabo ou um ser qualquer que se arrogue.

Descido aos infernos de sua saudade e de sua incompreensão das coisas, o cronista revive uma fantasia de carnaval antigo, as rezas da mãe contra possíveis desgraças, os extraordinários balões que o pai fabricava, os tantos personagens de rua do subúrbio do menino, o amigo Otto Maria Carpeaux, a visão das mãos do pai morto, impressionante visão: “Mãos que começaram a ficar mais brancas e mais quietas: dentro delas, o nada cheio de tudo o que ele fora”.

O lirismo é mesmo o elemento fixador desses movimentos de fluxo e refluxo da memória, pois Cony vê as coisas com os olhos transfigurados do poeta.

Se podemos dizer que o seu humor é uma doce herança machadiana, na crônica sua veia lírica só encontra paralelo em escritores da estirpe de Rubem Braga, Antonio Maria e Drummond.

E também José Carlos Oliveira ou o Tabajara Ruas de Um porto alegre (Mercado Aberto, 1998).

São cronistas que escrevem iluminados pelo poeta que não deixam de ser. Líricos deste tempo escuro e trepidante.

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