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Os Lusíadas – Camões (Episódio: O VELHO DO RESTELO (Texto e análise) )

Os Lusíadas – Camões (Episódio: O VELHO DO RESTELO (Texto e análise) )

Canto IV – Episódio O Velho do Restelo (oitavas: 90 a 104) 



90 



“Qual vai dizendo: —” Ó filho, a quem eu tinha 



Só para refrigério, e doce amparo 



Desta cansada já velhice minha, 



Que em choro acabará, penoso e amaro, 



Por que me deixas, mísera e mesquinha? 



Por que de mim te vás, ó filho caro, 



A fazer o funéreo enterramento, 



Onde sejas de peixes mantimento!” — 



91 



“Qual em cabelo: —”Ó doce e amado esposo, 



Sem quem não quis Amor que viver possa, 



Por que is aventurar ao mar iroso 



Essa vida que é minha, e não é vossa? 



Como por um caminho duvidoso 



Vos esquece a afeição tão doce nossa? 



Nosso amor, nosso vão contentamento 



Quereis que com as velas leve o vento?” — 



92 



“Nestas e outras palavras que diziam 



De amor e de piedosa humanidade, 



Os velhos e os meninos os seguiam, 



Em quem menos esforço põe a idade. 



Os montes de mais perto respondiam, 



Quase movidos de alta piedade; 



A branca areia as lágrimas banhavam, 



Que em multidão com elas se igualavam. 



93 



“Nós outros sem a vista alevantarmos 



Nem a mãe, nem a esposa, neste estado, 



Por nos não magoarmos, ou mudarmos 



Do propósito firme começado, 



Determinei de assim nos embarcarmos 



Sem o despedimento costumado, 



Que, posto que é de amor usança boa, 



A quem se aparta, ou fica, mais magoa. 



94 – ( O velho do Restelo ) 



“Mas um velho d’aspeito venerando, 



Que ficava nas praias, entre a gente, 



Postos em nós os olhos, meneando 



Três vezes a cabeça, descontente, 



A voz pesada um pouco alevantando, 



Que nós no mar ouvimos claramente, 



C’um saber só de experiências feito, 



Tais palavras tirou do experto peito: 



95 



—”Ó glória de mandar! Ó vã cobiça 



Desta vaidade, a quem chamamos Fama! 



Ó fraudulento gosto, que se atiça 



C’uma aura popular, que honra se chama! 



Que castigo tamanho e que justiça 



Fazes no peito vão que muito te ama! 



Que mortes, que perigos, que tormentas, 



Que crueldades neles experimentas! 



96 



— “Dura inquietação d’alma e da vida, 



Fonte de desamparos e adultérios, 



Sagaz consumidora conhecida 



De fazendas, de reinos e de impérios: 



Chamam-te ilustre, chamam-te subida, 



Sendo dina de infames vitupérios; 



Chamam-te Fama e Glória soberana, 



Nomes com quem se o povo néscio engana! 



97 



—”A que novos desastres determinas 



De levar estes reinos e esta gente? 



Que perigos, que mortes lhe destinas 



Debaixo dalgum nome preminente? 



Que promessas de reinos, e de minas 



D’ouro, que lhe farás tão facilmente? 



Que famas lhe prometerás? que histórias? 



Que triunfos, que palmas, que vitórias? 



98 



— “Mas ó tu, geração daquele insano, 



Cujo pecado e desobediência, 



Não somente do reino soberano 



Te pôs neste desterro e triste ausência, 



Mas inda doutro estado mais que humano 



Da quieta e da simples inocência, 



Idade d’ouro, tanto te privou, 



Que na de ferro e d’armas te deitou: 



99 



— “Já que nesta gostosa vaidade 



Tanto enlevas a leve fantasia, 



Já que à bruta crueza e feridade 



Puseste nome esforço e valentia, 



Já que prezas em tanta quantidades 



O desprezo da vida, que devia 



De ser sempre estimada, pois que já 



Temeu tanto perdê-la quem a dá: 



100 



— “Não tens junto contigo o Ismaelita, 



Com quem sempre terás guerras sobejas? 



Não segue ele do Arábio a lei maldita, 



Se tu pela de Cristo só pelejas? 



Não tem cidades mil, terra infinita, 



Se terras e riqueza mais desejas? 



Não é ele por armas esforçado, 



Se queres por vitórias ser louvado? 



101 



— “Deixas criar às portas o inimigo, 



Por ires buscar outro de tão longe, 



Por quem se despovoe o Reino antigo, 



Se enfraqueça e se vá deitando a longe? 



Buscas o incerto e incógnito perigo 



Por que a fama te exalte e te lisonge, 



Chamando-te senhor, com larga cópia, 



Da Índia, Pérsia, Arábia e de Etiópia? 



102 



— “Ó maldito o primeiro que no mundo 



Nas ondas velas pôs em seco lenho, 



Dino da eterna pena do profundo, 



Se é justa a justa lei, que sigo e tenho! 



Nunca juízo algum alto e profundo, 



Nem cítara sonora, ou vivo engenho, 



Te dê por isso fama nem memória, 



Mas contigo se acabe o nome e glória. 



103 



— “Trouxe o filho de Jápeto do Céu 



O fogo que ajuntou ao peito humano, 



Fogo que o mundo em armas acendeu 



Em mortes, em desonras (grande engano). 



Quanto melhor nos fora, Prometeu, 



E quanto para o mundo menos dano, 



Que a tua estátua ilustre não tivera 



Fogo de altos desejos, que a movera! 



104 



— “Não cometera o moço miserando 



O carro alto do pai, nem o ar vazio 



O grande Arquiteto co’o filho, dando 



Um, nome ao mar, e o outro, fama ao rio. 



Nenhum cometimento alto e nefando, 



Por fogo, ferro, água, calma e frio, 



Deixa intentado a humana geração. 



Mísera sorte, estranha condição!” — 





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ANÁLISE



Velho do Restelo: opinião reacionária ou humanista? 

FRANCISCO ACHCAR 



Já vimos, em artigo anterior, que Vasco da Gama, herói de “Os Lusíadas” (1572), de Camões, conta ao rei de Melinde (África) a história de seu país (cantos III e IV). Na parte final de seu relato, Vasco fala-lhe de sua própria via-gem. No início dela, situa-se um dos episódios mais céle-bres da obra: o Velho do Restelo (canto IV, estrofes 94-104). O sentido do discurso atribuído ao Velho é bastante claro; não obstante, o episódio coloca alguns problemas quanto ao pensamento do poeta relativamente à questão tratada. 



Os navios portugueses estão prestes a largar; espo-sas, filhos, mães, pais e amigos dos marinheiros apinham-se na praia (do Restelo) para dar seu adeus, envolto em muitas lágrimas e lamentos, àqueles que partiam para peri-gos inimagináveis e talvez para não mais voltar. No meio desse ambiente emocionado, destaca-se a figura imponente de um velho que, com sua “voz pesada”, ouvida até nos navios, faz um discurso veemente, condenando aquela aventura insana, impelida, segundo ele, pela cobiça -o de-sejo de riquezas, poder, fama. Diz o velho que, para ir en-frentar desnecessariamente perigos desconhecidos, os por-tugueses abandonavam os perigos urgentes de seu país, ainda ameaçado pelos mouros e no qual já se instalava a desorganização social que decorreu das grandes navega-ções. 



Segundo parece, o velho representa a opinião con-servadora (alguns diriam “reacionária”) da época -opinião da aldeia, do torrão natal, da vida segura, mas não heróica. Seria estranho que Camões se identificasse com esse tipo de atitude, pois, como observou J. F. Valverde, “não seria compreensível que compusesse uma epopéia para celebrar o que condenava como erro fatal”. Mas, segundo se pode inferir de diversos elementos do discurso do Velho, assim como do resto do poema, a opinião expressa no admirável discurso não era inteiramente rejeitada por Camões, por mais que ele fosse empolgado pelo empreendimento marí-timo de seu país. Como o Velho do Restelo pensavam muitos naqueles tempos, assim como muitos pensam hoje em relação a assuntos semelhantes (como a conquista espa-cial ou a manipulação genética, por exemplo). Gil Vicente, que tratou de assunto semelhante, em chave cômica, no “Auto da Índia”, poderia subscrever as palavras daquele “velho de aspecto venerando”. 



O discurso do Velho contém uma condenação enfática da guerra, de acordo com o ponto de vista do Humanismo, que era antibelicista. Mas o Velho, como Camões, abre exceção (sob a forma de concessão) para a guerra na África (lem-bremos que o poeta, no início e no fim do poema, reco-menda enfaticamente a D. Sebastião que embarque nessa aventura). Sabemos que havia, na época, uma corrente de opinião em Portugal que condenava a política ultramarina do país, direcionada desde D. João 3º em favor da Índia, com o abandono das conquistas africanas. 



Portanto, o Velho do Restelo não é propriamente uma voz discordante a que o poeta concede um lugar em seu poema, representando nele simplesmente os rumores do povo ou o ponto de vista de um partido adversário da em-presa que o poeta se punha a celebrar. A fala do Velho é também a expressão de idéias camonianas, divididas entre o Humanismo pacifista e o belicismo dos ideais da Cavala-ria e das Cruzadas, cujo espírito muito influenciou a visão camoniana da missão de seu país. 



O discurso do Velho do Restelo corresponde a um gênero antigo da literatura, cultivado desde os primórdios da poe-sia grega. Trata-se do gênero conhecido pelos gregos como propemptikón, ou seja, “adeus a um viajante que parte”. Elementos básicos para uma composição deste gênero são 1º) o viajante (no caso, Vasco da Gama e os seus marinhei-ros), 2º) quem se despede (o Velho), 3º) a relação que os une (no caso, o fato de serem portugueses) e 4º) o cenário apropriado para a despedida (a praia do Restelo, com os navios a ponto de largar). Neste tipo de poema há alguns assuntos constantes (lugares-comuns): os perigos e as in-conveniências da viagem, os perigos do lugar de destino, considerações sobre os motivos da viagem, a quebra de fé implicada na viagem etc. Uma das modalidades desse gêne-ro inclui o que em grego se chamava skhetliasmós, isto é, uma reclamação ou lamentação, cuja finalidade é, conde-nando a viagem, persuadir o viajante a desistir de fazê-la. 



Diversos desses elementos se encontram no discurso do Velho, organizados com formidável eloquência, reto-mando virtuosisticamente e com novidade um gênero de poesia que remonta a Homero. 



Francisco Achcar, autor de “Lírica e Lugar-comum” (Edusp), é professor de língua e literatura latina na Unicamp e coordenador de português do Curso e Colégio Objetivo. Publicado no caderno FOVEST, Folha de São Paulo. 

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