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Os melhores contos (Rubem Braga)

Os melhores contos (Rubem Braga)



Seleção de Davi Arrugucci Jr. 



Global Editora, 1997 



Dos 39 contos selecionados por Davi Arrigucci Jr., segue uma resenha breve sobre alguns deles. 



Tuim criado no dedo 



Narrado em 3ª pessoa, esse texto aproxima-se do conto. Tem célula dramática, motivo por que se afasta do gênero crônica, e narra a historia de um menino que tem um periquitinho de estimação conhecido como Tuim. A ave é mansinha e pousa na mão do menino quando ele chama. Um dia o periquito foge e o garoto sofre muito. Para evitar outras fugas, o garoto corta-1he as asas e entra em casa para fazer algo. Quando volta para alimentar o periquito, vê só algumas penas verdes e manchas de sangue no chão. Resolve subir num caixo-te e olhar por cima do muro em busca do animal. Qual foi a surpresa ao ver o vulto de um gato que sumia 



com o periquito. 



Diário de um subversivo 



Narrado em 1ª pessoa, conta a historia de um suposto Lauro Guedes, que morava numa pensão na época da ditadura de Getúlio Vargas. Chegam na pensão dois rapazes integralistas e Lauro Guedes, temendo a chegada de policiais, acaba na casa de Edgar, um amigo que conhecera na época da greve. Sente-se atraído por Alice, esposa do amigo, e no dia 28 de fevereiro registra no diário: “estou com os nervos arrebentados por causa da Alice – quando Edgar vai para a Companhia de Seguros… seria o cúmulo da sem-vergonhice! Se eu tivesse qualquer coisa com essa mulher, seria o ultimo dos cachorros 1º de março – Sou.” 



O jovem casal 



Narrado em 3ª pessoa, com narrador onisciente, descreve a história de um casal muito pobre a espera de um bonde. Casados há pouco tempo e morando numa pensão humilde, cheia de pulgas e baratas, o narrador penetra nos pensamentos e preocupações das personagens. Passa um automó-vel conversível, “um sujeito e sua mulherzinha meio gorducha” falam sobre a compra de um anel. 0 marido do jovem casal fica irritado, pois o valor do anel daria para pagar o aluguel da pensão onde moravam. 



Coração de mãe 



Com narrador onisciente, usando uma lingua-gem irônica, narra o episódio de duas moças, Dorinha e Marina, garotas inconseqüentes, que brigam com a mãe e são expulsas de casa. Logo ao saírem são atacadas por homens maus, perver-sos, aproveitadores e inescrupulosos. Por fim, a zangada mãe arrebata as ingênuas filhas do espaço de abutres e as recolhe em casa de novo. 



Marinheiro na rua 



Narrado em 1ª pessoa, o narrador observa, numa madrugada chuvosa, um marinheiro batendo insistentemente à grande porta de um prédio. Cansado de bater inutilmente, sem ser atendido, o marinheiro desiste e parte pela madrugada. Num instante de fantasia, o narrador vê o prédio escuro acender as luzes e deslocar-se pesado e rangendo como um barco. 



O homem da estação 



0 narrador protagonista, ao chegar em uma aldeia, descreve sua dificuldade para encontrar um lugar para dormir e descansar. Resolve partir em busca de abrigo, porque ali todos o receberam mal. No caminho, encontra um desconhecido que trabalhava numa estação. Conta o seu problema e o homem lhe oferece um lugar para dormir. Che-gando na estação, o sono se vai e o narrador, ao receber um copo de vinho, brinda ao homem que não desprezava e nem temia outro homem. 



Era uma noite de luar 



Época de perseguição política e Domingos, o narrador protagonista, visita sua amiga Marina, de codinome Judite, mulher de Alberto, um preso político amigo seu, trazendo para ela notícias de seu amado. Antes de partir, Domingos abre a janela e, numa atitude agressiva, Marina a fecha com brutalidade. “Não faça isso! Estúpido! Não vê que eu não posso com isso? Que estou sozinha desde que Alberto foi preso?” 



A moça rica 



0 narrador em 1ª pessoa se põe a recordar um fato que aconteceu na sua adolescência. Conheceu na praia uma moça vinda do Rio de Janeiro. Era rica, usava calças compridas, fazia caçadas, dava tiro, saia de barco com os pescadores e parecia demonstrar interesse por ele. Um dia, encontrou-a na praia galopando sozinha a cavalo. Ela o convi-da para subir na garupa. 0 jovem, por timidez, inventa uma desculpa e perde a oportunidade de ficar com a moça. No dia seguinte, a moça vai embora. 



As luvas 



0 narrador em 1ª pessoa descobre esquecido atrás de uns livros um par de luvas pretas que pertence-ram a uma mulher “miúda, de risada clara e brusca e lágrimas fáceis” com quem teve uma aventura. Deixa-se levar pelas lembranças dela. 0 telefone toca, ele hesita em atender. Não é ela, apenas a senhora de um amigo que o lembra do convite para o jantar e ele atira as luvas outra vez para trás dos livros onde estavam antes. 



As meninas 



Praia, sol, alguns banhistas e o narrador tomado de um instante de lirismo observa duas meninas de aproximadamente nove anos, de vestidos compridos (uma de azul e a outra de verde) brincando no mar, molhando-se entre risos e alegrias. 



A partilha 



Com a morte dos pais, dois irmãos fazem a partilha de objetos e fotos de estimação. A parti-lha, a princípio, parece estar satisfazendo ambos, porem, vai apresentando o caráter de cada um deles, mostrando que um mesmo lar gera indiví-duos diferentes, partilhados de suas características. 



Comentários 



Livro constituído de 39 textos relativamente curtos narrados em lª0 e em 3ª pessoa. 0 narrador de 3ª pessoa aponta para a 



onisciência, donde extrai o tom de crítica ao com-portamento humano, geralmente desprovido de interesse por seu semelhante. 



Voltado sempre para uma linguagem elaborada e de consistência literária, Rubem Braga produz textos de lirismo admirável. A maioria dos relatos e interior, importando mais os pensamentos, as sensações, a observação e a percepção das coisas e pessoas, do que suas ações exteriores. 



Sua obra revela uma doçura fragrante, sem descuidar das reflexões sobre o ser humano e sobre a aventura de viver. 



Temas recorrentes 



1. Passado interiorano ou em Cachoeiro do Itapemirim – reunindo as crônicas em que o narrador aborda, de forma lírica e nostálgica, a vida na cidade pequena do interior, entre caçadas de passarinho, encontro com moradores da cidade grande, peladas na rua, pescarias, cachorros, amigos, e a vegetação abundante do meio quase rural. 



Crônicas 



Tuim criado no dedo 



A moça rica 



Negócio de menino 



Caçada de paca 



Praga de menino 



Lembrança de Zig 



O sino de ouro 



O cajueiro 



História de pescaria 



2. Luta contra a repressão durante a ditadura getulista (1936-1945) – textos em que o velho Braga rememora suas aventuras fugindo da repressão durante o Estado Novo, sempre mesclando à luta política aspectos sentimentais e existenciais. 



Crônicas 



Diário de um subversivo 



Era uma noite de luar 



Os perseguidos 



3. Observação das injustiças sociais – crônicas centradas no conflito entre os que nada têm e os mais privilegiados. Observe-se a semelhança de Conto de Natal com Vidas Secas, de Graciliano Ramos, e principalmente com o Auto do Natal Pernambucano que é Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto. 



Crônicas 



O jovem casal 



Noite de Chuva 



Conto de Natal 



4. Casos da cidade grande – textos relatando episódios passados na cidade grande, alguns de maneira bastante realista e outros, como Marinheiro na rua, com toques surrealistas ou, como O homem da estação, com claras influências do expressionismo de Franz Kafka. 



Crônicas 



Coração de mãe 



Marinheiro na rua 



O homem da estação 



A navegação da casa 



O espanhol que morreu 



O rei secreto da França 



Um braço de mulher 



Os amantes 



O afogado 



As luvas 



5. Conversas corriqueiras – diálogos travados pelo narrador ou por personagens outros em que predomina a observação das sutilezas psicológicas. 



Crônicas 



Falamos de carambola 



Aula de inglês 



A partilha 



Força de vontade 



Visita de uma senhora 



Do Carmo 



6. Instantes de epifania pura – embora a epifania apareça de forma nuclear em muitos dos textos agrupados em outras categorias, nestes aparece de forma desnuda, pura, sendo a essência do texto, que descreve um instante único de alumbramento de iluminação. 



Crônicas 



Madrugada 



O mato 



Visão 



7. O narrador voyeur – crônicas em que o narrador observa, atraído como um voyeur, as ações de mulheres/meninas. 



Crônicas 



Viúva na praia 



A mulher que ia navegar 



A primeira mulher do Nunes 



Encontro 



As meninas 

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