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Os Melhores Poemas de Álvares de Azevedo – II

Os Melhores Poemas de Álvares de Azevedo – II

Idéias Íntimas

Fragmento

La chaise où je m’assieds, la natte où je me couche,

La table ou je t’écris

Mes gros souliers ferrés, mon baton, mon chapeau,

Mês libres pêle-mêle entassés sur leur planche.

De cet espace étroit sont tout l’ameublement. LAMARTINE, Jocelyn

I

Ossian – o bardo é triste como a sombra

Que seus cantos povoa. O Lamartine

É monótono e belo como a noite,

Como a lua no mar e o som das ondas…

Mas pranteia uma eterna monodia,

Tem na lira do gênio uma só corda,

– Fibra de amor e Deus que um sopro agita!

Se desmaia de amor… a Deus se volta,

Se pranteia por Deus… de amor suspira.

Basta de Shakespeare. Vem tu agora,

Fantástico alemão, poeta ardente

Que ilumina o clarão das gotas pálidas

Do nobre Johannisberg! Nos teus romances

Meu coração deleita-se… Contudo,

Parece-me que vou perdendo o gosto,

Vou ficando blasé: passeio os dias

Pelo meu corredor, sem companheiro,

Sem ler, nem poetar… Vivo fumando.

Minha casa não tem menores névoas

Que as deste céu d’inverno… Solitário

Passo as noites aqui e os dias longos…

Dei-me agora ao charuto em corpo e alma:

Debalde ali de um canto um beijo implora,

Como a beleza que o Sultão despreza,

Meu cachimbo alemão abandonado!

Não passeio a cavalo e não namoro,

Odeio o lasquenet… Palavra d’honra!

Se assim me continuam por dois meses

Os diabos azuis nos frouxos membros,

Dou na Praia Vermelha ou no Parnaso.

II

Enchi o meu salão de mil figuras.

Aqui voa um cavalo no galope,

Um roxo dominó as costas volta

A um cavaleiro de alemães bigodes,

Um preto beberrão sobre uma pipa,

Aos grossos beiços a garrafa aperta…

Ao longo das paredes se derramam

Extintas inscrições de versos mortos,

E mortos ao nascer!… Ali na alcova

Em águas negras se levanta a ilha

Romântica, sombria, à flor das ondas

De um rio que se perde na floresta…

– Um sonho de mancebo e de poeta,

El-Dorado de amor que a mente cria,

Como um Éden de noites deleitosas…

Era ali que eu podia no silêncio

Junto de um anjo… Além o romantismo!

Borra adiante folgaz caricatura

Com tinta de escrever e pó vermelho

A gorda face, o volumoso abdômen,

E a grossa penca do nariz purpúreo

Do alegre vendilhão entre botelhas,

Metido num tonel… Na minha cômoda

Meio encetado o copo, inda verbera

As águas d’oiro do Cognac ardente:

Negreja ao pé narcótica botelha

Que da essência de flores de laranja

Guarda o licor que nectariza os nervos.

Ali mistura-se o charuto havano

Ao mesquinho cigarro e ao meu cachimbo…

A mesa escura cambaleia ao peso

Do titâneo Digesto, e ao lado dele

Childe-Harold entreaberto… ou Lamartine

Mostra que o romantismo se descuida

E que a poesia sobrenada sempre

Ao pesadelo clássico do estudo.

III

Reina a desordem pela sala antiga,

Desce a teia de aranha as bambinelas

À estante pulvurenta. A roupa, os livros

Sobre as poucas cadeiras se confundem.

Marca a folha do Faust um colarinho

E Alfredo de Musset encobre, às vezes

De Guerreiro, ou Valasco, um texto obscuro.

Como outrora do mundo os elementos

Pela treva jogando cambalhotas,

Meu quarto, mundo em caos, espera um Fiat!

IV

Na minha sala três retratos pendem:

Ali Victor Hugo. – Na larga fronte

Erguidos luzem os cabelos louros,

Como c’roa soberba. Homem sublime!

O poeta de Deus e amores puros!

Que sonhou Triboulet, Marion Delorme

E Esmeralda – a Cigana… E diz a crônica

Que foi aos tribunais parar um dia

Por amar as mulheres dos amigos

E adúlteros fazer romances vivos.

V

Aquele é Lamennais – o bardo santo,

Cabeça de profeta, ungido crente,

Alma de fogo na mundana argila

Que as harpas de Sion vibrou na sombra,

Pela noite do século chamando

A Deus e à liberdade as loucas turbas.

Por ele a George Sand morreu de amores,

E dizem que… Defronte, aquele moço

Pálido, pensativo, a fronte erguida,

Olhar de Bonaparte em face austríaca,

Foi do homem secular as esperanças:

No berço imperial um céu de agosto

Nos cantos de triunfo despertou-o…

As águias de Wagram e de Marengo

Abriam flamejando as longas asas

Impregnadas do fumo dos combates

Na púrpura dos Césares, guardando-o…

E o gênio do futuro parecia

Predestiná-lo à glória. A história dele?…

Resta um crânio nas urnas do estrangeiro…

Um loureiro sem flores nem sementes…

E um passado de lágrimas… A terra

Tremeu ao sepultar-se o Rei de Roma

Pode o mundo chorar sua agonia

E os louros de seu pai na fronte dele

Infecundos depor… Estrela morta,

Só pode o menestrel sagrar-te prantos!

VI

Junto a meu leito, com as mãos unidas,

Olhos fitos no céu, cabelos soltos,

Pálida sombra de mulher formosa

Entre nuvens azuis pranteia orando.

É um retrato talvez. Naquele seio

Porventura sonhei douradas noites,

Talvez sonhando desatei sorrindo

Alguma vez nos ombros perfumados

Esses cabelos negros e em delíquio

Nos lábios dela suspirei tremendo,

Foi-se a minha visão… E resta agora

Aquele vaga sombra na parede

– Fantasma de carvão e pó cerúleo! –

Tão vaga, tão extinta e fumacenta

Como de um sonho o recordar incerto.

VII

Em frente do meu leito, em negro quadro,

A minha amante dorme. É uma estampa

De bela adormecida. A rósea face

Parece em visos de um amor lascivo

De fogos vagabundos acender-se…

E como a nívea mão recata o seio…

Oh! quanta s vezes, ideal mimoso,

Não encheste minh’alma de ventura,

Quando louco, sedento e arquejante

Meus tristes lábios imprimi ardentes

No poento vidro que te guarda o sono!

VIII

O pobre leito meu, desfeito ainda,

A febre aponta da noturna insônia.

Aqui lânguido à noite debati-me

Em vãos delírios anelando um beijo…

E a donzela ideal nos róseos lábios,

No doce berço do moreno seio

Minha vida embalou estremecendo…

Foram sonhos contudo! A minha vida

Se esgota em ilusões. E quando a fada

Que diviniza meu pensar ardente

Um instante em seus braços me descansa

E roça a medo em meus ardentes lábios

Um beijo que de amor me turva os olhos…

Me ateia o sangue, me enlanguece a fronte…

Um espírito negro me desperta,

O encanto do meu sonho se evapora…

E das nuvens de nácar da ventura

Rolo tremendo à solidão da vida!

IX

Oh! ter vinte anos sem gozar de leve

A ventura de uma alma de donzela!

E sem na vida ter sentido nunca

Na suave atração de um róseo corpo

Meus olhos turvos se fechar de gozo!

Oh! nos meus sonhos, pelas noites minhas

Passam tantas visões sobre meu peito!

Palor de febre meu semblante cobre,

Bate meu coração com tanto fogo!

Um doce nome os lábios meus suspiram,

Um nome de mulher… e vejo lânguida

No véu suave de amorosas sombras

Seminua, abatida, a mão no seio,

Perfumada visão romper a nuvem,

Sentar-se junto a mim, nas minhas pálpebras

O alento fresco e leve como a vida

Passar delicioso… Que delírios!

Acordo palpitante… inda a procuro:

Embalde a chamo, embalde as minhas lágrimas

Banham meus olhos, e suspiro e gemo…

Imploro uma ilusão… tudo é silêncio!

Só o leito deserto, a sala muda!

Amorosa visão, mulher dos sonhos,

Eu sou tão infeliz, eu sofro tanto!

Nunca virás iluminar meu peito

Com um raio de luz desses teus olhos?

X

Meu pobre leito! eu amo-te contudo!

Aqui levei sonhando noites belas;

As longas horas olvidei libando

Ardentes gotas de licor dourado,

Esqueci-as no fumo, na leitura

Das páginas lascivas do romance…

Meu leito juvenil, da minha vida

És a página d’oiro. Em teu asilo

Eu sonho-me poeta e sou ditoso…

E a mente errante devaneia em mundos

Que esmalta a fantasia! Oh! quantas vezes

Do levante no sol entre odaliscas

Momentos não passei que valem vidas!

Quanta música ouvi que me encantava!

Quantas virgens amei! que Margaridas,

Que Elviras saudosas e Clarissas,

Mais trêmulo que Faust, eu não beijava…

Mais feliz que Don Juan e Lovelace

Não apertei ao peito desmaiando!

Ó meus sonhos de amor e mocidade,

Porque ser tão formosos, se devíeis

Me abandonar tão cedo… e eu acordava

Arquejando a beijar meu travesseiro?

XI

Junto do leito meus poetas dormem

– O Dante, a Bíblia, Shakespeare e Byron

Na mesa confundidos. Junto deles

Meu velho candeeiro se espreguiça

E parece pedir a formatura.

Ó meu amigo, ó velador noturno,

Tu não me abandonaste nas vigílias,

Quer eu perdesse a noite sobre os livros,

Quer, sentado no leito, pensativo

Relesse as minhas cartas de namoro…

Quero-te muito bem, ó meu comparsa

Nas doudas cenas de meu drama obscuro!

E num dia de spleen, vindo a pachorra,

Hei de evocar-te dum poema heróico

Na rima de Camões e de Ariosto,

Como padrão às lâmpadas futuras!

XII

Aqui sobre esta mesa junto ao leito

Em caixa negra dois retratos guardo:

Não os profanem indiscretas vistas.

Eu beijo-os cada noite: neste exílio

Venero-os juntos e os prefiro unidos…

– Meu pai e minha mãe! Se acaso um dia,

Na minha solidão me acharem morto,

Não os abra ninguém. Sobre meu peito

Lancem-os em meu túmulo. Mais doce

Será certo o dormir da noite negra

Tendo no peito essas imagens puras.

XIII

Havia uma outra imagem que eu sonhava

No meu peito, na vida e no sepulcro,

Mas ela não o quis… rompeu a tela,

Onde eu pintara meus dourados sonhos.

Se posso no viver sonhar com ela,

Essa trança beijar de seus cabelos

E essas violetas inodoras, murchas,

Nos lábios frios comprimir chorando,

Não poderei na sepultura, ao menos,

Sua imagem divina ter no peito.

XIV

Parece que chorei… Sinto na face

Uma perdida lágrima rolando…

Satã leve a tristeza! Olá, meu pagem,

Derrama no meu copo as gotas últimas

Dessa garrafa negra…

Eia! bebamos!

És o sangue do gênio, o puro néctar

Que as almas de poeta diviniza,

O condão que abre o mundo das magias!

Vem, fogoso Cognac! É só contigo

Que sinto-me viver. Inda palpito,

Quando os eflúvios dessas gotas áureas

Filtram no sangue meu correndo a vida,

Vibram-me os nervos e as artérias queimam,

Os meus olhos ardentes se escurecem

E no cérebro passam delirosos

Assomos de poesia… Dentre a sombra

Vejo num leito d’ouro a imagem dela

Palpitante, que dorme e que suspira,

Que seus braços me estende…

Eu me esquecia:

Faz-se noite; traz fogo e dois charutos

E na mesa do estudo acende a lâmpada…

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