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Os Melhores Poemas de Álvares de Azevedo – III

Os Melhores Poemas de Álvares de Azevedo – III

Lágrimas de Sangue

Taedet animam meam vitae meae. Jó

Ao pé das aras no clarão dos círios

Eu te devera consagrar meus dias;

Perdão, meu Deus! perdão

Se neguei meu Senhor nos meus delírios

E um canto de enganosas melodias

Levou meu coração!

Só tu, só tu podias o meu peito

Fartar de imenso amor e luz infinda

E uma Saudade calma;

Ao sol de tua fé doirar meu leito

E de fulgores inundar ainda

A aurora na minh’alma.

Pela treva do espírito lancei-me,

Das esperanças suicidei-me rindo…

Sufoquei-as sem dó.

No vale dos cadáveres sentei-me

E minhas flores semeei sorrindo

Dos túmulos no pó.

Indolente Vestal, deixei no templo

A pira se apagar – na noite escura

O meu gênio descreu.

Voltei-me para a vida… só contemplo

A cinza da ilusão que ali murmura:

Morre! – tudo morreu!

Cinzas, cinzas…

Meu Deus! só tu podias

À alma que se perdeu bradar de novo:

Ressurge-te ao amor!

Malicento, da minhas agonias

Eu deixaria as multidões do povo

Para amar o Senhor!

Do leito aonde o vício acalentou-me

O meu primeiro amor fugiu chorando.

Pobre virgem de Deus!

Um vendaval sem norte arrebatou-me,

Acordei-me na treva… profanando

Os puros sonhos meus!

Oh! se eu pudesse amar!… – É impossível!

Mão fatal escreveu na minha vida;

A dor me envelheceu.

O desespero pálido, impassível

Agoirou minha aurora entristecida,

De meu astro descreu.

Oh! se eu pudesse amar!

Mas não: agora

Que a dor emurcheceu meus breves dias,

Quero na cruz sangrenta

Derramá-los na lágrima que implora,

Que mendiga perdão pela agonia

Da noite lutulenta!

Quero na solidão – nas ermas grutas

A tua sombra procurar chorando

Com meu olhar incerto:

As pálpebras doridas nunca enxutas

Queimarei… teus fantasmas invocando

No vento do deserto.

De meus dias a lâmpada se apaga:

Roeram meu viver mortais venenos;

Curvo-me ao vento forte.

Teu fúnebre clarão que a noite alaga,

Como a estrela oriental me guie ao menos

Té o vale da morte!

No mar dos vivos o cadáver bóia –

A lua é descorada como um crânio,

Este sol não reluz:

Quando na morte a pálpebra se engóia,

O anjo se acorda em nós – e subitâneo

Voa ao mundo da luz!

Do val de Josafá pelas gargantas

Uiva na treva o temporal sem norte

E os fantasmas murmuram…

Irei deitar-me nessas trevas santas,

Banhar-me na frieza lustral da morte

Onde as almas se apuram!

Mordendo as clinas do corcel da sombra,

Sufocando, arquejante passarei

Na noite do infinito.

Ouvirei essa voz que a treva assombra,

Dos lábios de minh’alma entornarei

O meu cântico aflito!

Flores cheias de aroma e de alegria,

Por que na primavera abrir cheirosas

E orvalhar-vos abrindo?

As torrentes da morte vêm sombrias,

Hão de amanhã nas águas tenebrosas

Vos rebentar bramindo.

Morrer! morrer!

É voz das sepulturas!

Como a lua nas salas festivais

A morte em nós se estampa!

E os pobres sonhadores de venturas

Roxeiam amanhã nos funerais

E vão rolar na campa!

Que vale a glória, a saudação que enleva

Dos hinos triunfais na ardente nota,

E as turbas devaneia?

Tudo isso é vão, e cala-se na treva –

Tudo é vão, como em lábios de idiota

Cantiga sem idéia.

Que importa? quando a morte se descarna,

A esperança do céu flutua e brilha

Do túmulo no leito:

O sepulcro é o ventre onde se encama

Um verbo divinal que Deus perfilha

E abisma no seu peito!

Não chorem! que essa lágrima profunda

Ao cadáver sem luz não dá conforto…

Não o acorda um momento!

Quando a treva medonha o peito inunda,

Derrama-se nas pálpebras do morto

Luar de esquecimento!

Caminha no deserto a caravana,

Numa noite sem lua arqueja e chora…

O termo… é um sigilo!

O meu peito cansou da vida insana;

Da cruz à sombra, junto aos meus, agora

Eu dormirei tranqüilo!

Dorme ali muito amor… muitas amantes,

Donzelas puras que eu sonhei chorando

E vi adormecer.

Ouço da terra cânticos errantes,

E as almas saudosas suspirando,

Que falam em morrer…

Aqui dormem sagradas esperanças,

Almas sublimes que o amor erguia…

E gelaram tão cedo!

Meu pobre sonhador! aí descansas,

Coração que a existência consumia

E roeu um segredo! …

Quando o trovão romper as sepulturas,

Os crânios confundidos acordando

No lodo tremerão.

No lodo pelas tênebras impuras

Os ossos estalados tiritando

Dos vales surgirão!

Como rugindo a chama encarcerada

Dos negros flancos do vulcão rebenta

Gotejando nos céus,

Entre nuvem ardente e trovejada

Minh’alma se erguerá, fria, sangrenta,

Ao trono de meu Deus…

Perdoa, meu Senhor!

O errante crente

Nos desesperos em que a mente abrasas

Não o arrojes p’lo crime!

Se eu fui um anjo que descreu demente

E no oceano do mal rompeu as asas,

Perdão! arrependi-me!

Lembrança de Morrer

Não mais!

Oh! Nunca mais! SHELLEY

Quando em meu peitto rebentar-se a fibra

Que o espírito enlaça à dor vivente,

Não derramem por mim nem uma lágrima

Em pálpebra demente.

E nem desfolhem na matéria impura

A flor do vale que adormece ao vento:

Não quero que uma nota de alegria

Se cale por meu triste passamento.

Eu deixo a vida como deixa o tédio

Do deserto, o poento caminheiro

? Como as horas de um longo pesadelo

Que se desfaz o dobre de um sineiro;

Como o desterro de minh’alma errante,

Onde o fogo insensato consumia:

Só levo uma saudade ? é desse tempos

Que amorosa ilusão embelecia.

Só levo uma saudade ? é dessas sombras

Que eu sentia velar nas noites minhas…

De ti, ó minha mãe, pobre coitada

Que por minha tristeza te definhas!

De meu pai… de meus únicos amigos,

Poucos ? bem poucos ? e que não zombavam

Quando em noite de febre endoudecido,

Minhas pálidas crenças duvidavam.

Se uma lágrima as pálpebras me inunda,

Se um suspiro nos seios treme ainda

É pela virgem que sonhei… que nunca

Aos lábios me encostou a face linda!

Só tu à mocidade sonhadora

Do pálido poeta deste flores…

Se viveu, foi por ti! e de esperança

De na vida gozar de teus amores.

Beijarei a verdade santa e nua,

Verei cristalizar-se o sonho amigo…

Ó minha virgem dos errantes sonhos,

Filha do céu, eu vou amar contigo!

Descansem o meu leito solitário

Na floresta dos homens esquecida,

À sombra de uma cruz, e escrevam nela:

Foi poeta? sonhou? e amou na vida?

Sombras do vale, noites da montanha

Que minh’alma cantou e amava tanto,

Protegei o meu corpo abandonado,

E no silêncio derramai-lhe canto!

Mas quando preludia ave d’aurora

E quando à meia-noite o céu repousa,

Arvoredos do bosque, abri os ramos…

Deixai-me a lua prantear-me a lousa!

Luar de Verão

O que vês, trovador? – Eu vejo a lua

Que sem lavar a face ali passeia;

No azul do firmamento inda é mais pálida

Que em cinzas do fogão uma candeia.

O que vês, trovador? – No esguio tronco

Vejo erguer-se o chinó de uma nogueira…

além se encontra a luz sobre um rochedo

Tão liso como um pau de cabeleira.

Nas praias lisas a maré enchente

S’espraia cintilante d’ardentia…

Em vez de aromas as doiradas ondas

Respiram efluviosa maresia!

O que vês, trovador? – No céu formoso

Ao sopro dos favônios feiticeiros

Eu vejo – e tremo de paixão ao vê-las –

As nuvens a dormir, como carneiros.

E vejo além, na sombra do horizonte,

Como viúva moça envolta em luto,

Brilhando em nuvem negra estrela viva

Como na treva a ponta de um charuto.

Teu romantismo bebo, ó minha lua,

A teus raios divinos me abandono,

Torno-me vaporoso… e só de ver-te

Eu sinto os lábios meus se abrirem de sono.

Meu Anjo

Meu anjo tem o encanto, a maravilha,

Da espontânea canção dos passarinhos;

Tem os seios tão alvos, tão macios

Como o pêlo sedoso dos arminhos.

Triste de noite na janela a vejo

E de seus lábios o gemido escuto.

É leve a criatura vaporosa

Como a froixa fumaça de um charuto.

Parece até que sobre a fronte angélica

Um anjo lhe depôs coroa e nimbo…

Formosa a vejo assim entre meus sonhos

Mais bela no vapor do meu cachimbo.

como o vinho espanhol, um beijo dela

Entorna ao sangue a luz do paraíso.

Dá morte num desdém, num beijo vida,

E celestes desmaios num sorrizo!

Mas quis a minha sina que seu peito

Não batesse por mim nem um minuto,

E que ela fosse leviana e bela

Como a leve fumaça de um charuto!

Meu Desejo

Meu desejo? Era ser a luva branca

Que essa tua gentil mãozinha aperta;

A camélia que murcha no teu seio,

O anjo que por te ver do céu deserta…

Meu desejo? Era ser o sapatinho

Que teu mimoso pé no baile encerra…

A esperança que sonhas no futuro,

As saudades que tens aqui na terra…

Meu desejo? Era ser o cortinado

Que não conta os mistérios de teu leito;

Era de teu colar de negra seda

Ser a cruz com que dormes sobre o peito.

Meu desejo? Era ser o teu espelho

Que mais bela te vê quando deslaças

Do baile as roupas de escomilha e flores

E mira-te amoroso as nuas graças!

Meu desejo? Era ser desse teu leito

De cambraia o lençol, o travesseiro

Com que velas o seio, onde repousas,

Solto o cabelo, o rosto feiticeiro…

Meu desejo? Era ser a voz da terra

Que da estrela do céu ouvisse amor!

Ser o amante que sonhas, que desejas

Nas cismas encantadas de langor!

Meu Sonho

Eu

Cavaleiro das armas escuras,

Onde as pelas trevas impuras

Com a espada sangrenta nas mãos?

Por que brilham teus olhos ardentes

E gemidos nos lábios frementes

Vertem fogo do teu coração?

Cavaleiro quem és? o remorso?

Do corcel te debruças no dorso…

E galopas do vale através…

Oh! da estrada acordando as poeiras

Não escutas gritar as caveiras

E morder-te o fantasma nos pés?

Onde vais pelas trevas impuras,

Cavaleiro das armas escuras,

Macilento qual morto na tumba?…

Tu escutas… Na longa montanha

Um tropel teu galope acompanha?

E um clamor de vingança retumba?

Cavaleiro, quem és? – que mistério,

Quem te força da morte no império

Pela noite assombrada a vagar?

O Fantasma

Sou o sonho de tua esperança.

Tua febre que nunca descansa,

O delírio que te há de matar!…

Minha Desgraça

Minha desgraça não é ser poeta,

Nem na terra de amor não ter um eco,

E meu anjo de Deus, o meu planeta

Tratar-me como trata-se um boneco…

Não é andar de cotovelos rotos,

Ter duro como pedra o travesseiro…

Eu sei… O mundo é um lodaçal perdido

Cujo sol (quem mo dera!) é o dinheiro…

Minha desgraça, ó cândida donzela,

O que faz que o meu peito blasfema,

É ter para escrever todo um poema

E não ter um vintém para uma vela.

Na Minha Terra

Laisse-toi donc aimer!

Oh! l’amour c’est Ia vie

C’est tout ce qu’on regeste et tout ce quon envie,

Quand on voit sa jeunesse au couchant décliner.

La beauté cest le front, l’amour cest Ia couronne,

Laisse-toi couronner! Victor Hugo

I

Amo o vento da noite sussurrante

A tremer nos pinheiros

E a cantiga do pobre caminhante

No rancho dos tropeiros;

E os monótonos sons de uma viola

No tardio verão,

E a estrada que além se desenrola

No véu da escuridão;

A restinga d’areia onde rebenta

O oceano a bramir,

Onde a lua na praia macilenta

Vem pálida luzir;

E a névoa e flores e o doce ar cheiroso

Do amanhecer na serra,

E o céu azul e o manto nebuloso

Do céu de minha terra;

E o longo vale de florinhas cheio

E a névoa que desceu,

Como véu de donzela em branco seio,

Às estrelas do céu.

II

Não é mais bela, não, a argêntea praia

Que beija o mar do sul,

Onde eterno perfume a flor desmaia

E o céu é sempre azul;

Onde os serros fantásticos roxeiam

Nas tardes de verão

E os suspiros nos lábios incendeiam

E pulsa o coração!

Sonho da vida que doirou e azula

A fala dos amores,

Onde a mangueira ao vento que tremula

Sacode as brancas flores,

E é saudoso viver nessa dormência

Do lânguido sentir,

Nos enganos suaves da existência

Sentindo-se dormir;

Mais formoso não é: não doire embora

O verão tropical

Com seus rubores e alvacenta aurora

Na montanha natal,

Nem tão doirada se levante a lua

Pela noite do céu,

Mas venha triste, pensativa – e nua

Do prateado véu –

Que me importa? se as tardes purpurinas

E as auroras dali

Não deram luz às diáfamas cortinas

Do leito onde eu nasci?

Se adormeço tranqüilo no teu seio

E perfuma-se a flor

Que Deus abriu no peito do Poeta,

Gotejante de amor?

Minha terra sombria, és sempre bela,

Inda pálida a vida

Como o sono inocente da donzela

No deserto dormida!

No italiano céu nem mais suaves

São as noites os amores,

Não tem mais fogo o cântigo das aves

Nem o vale mais flores!

III

Quando o gênio da noite vaporosa

Pela encosta bravia

Na laranjeira em flor toda orvalhosa

De aroma se inebria,

No luar junto à sombra recendente

De um arvoredo em flor,

Que Saudades e amor que influi na mente

Da montanha o frescor!

E quando à noite no luar saudoso

Minha pálida amante

Ergue seus olhos úmidos de gozo,

E o lábio palpitante…

Cheia de argêntea luz do firmamento

Orando por seu Deus,

Então… eu curvo a fronte ao sentimento

Sobre os joelhos seus…

E quando sua voz entre harmonias

Sufoca-se de amor,

E dobra a fronte bela de magias

Como pálida flor,

E a arma pura nos seus olhos brilha

Em desmaiado véu,

Como de um anjo na cheirosa trilha

Respiro o amor do céu!

Melhor a viração uma por uma

Vem as folhas tremer,

E a floresta saudosa se perfuma

Da noite no morrer,

E eu amo as flores e o doce ar mimoso

Do amanhecer da serra

E o céu azul e o manto nebuloso

Do céu de minha terra!

 

Namoro a Cavalo

 

Eu moro em Catumbi. Mas a desgraça

Que rege minha vida malfadada,

Pôs lá no fim da rua do Catete

A minha Dulcinéia namorada.

Alugo (três mil-réis) por uma tarde

Um cavalo de trote (que esparrela!)

Só para erguer meus olhos suspirando

À minha namorada na janela…

Todo o meu ordenado vai-se em flores

E em lindas folhas de papel bordado,

Onde eu escrevo trêmulo, amoroso,

Algum verso bonito… mas furtado…

Morro pela menina, junto dela

Nem ouso suspirar de acanhamento…

Se ela quisesse eu acabava a história

Como toda a Comédia- em casamento…

Ontem tinha chovido… Que desgraça!

Eu ia a trote inglês ardendo em chama,

Mas lá vai senão quando uma carroça

Minhas roupas tafues encheu de lama…

Eu não desanimei! Se Dom Quixote

No Rossinante erguendo a larga espada

Nunca voltou de medo, eu, mais valente,

Fui mesmo sujo ver a namorada…

Mas eis que no passar pelo sobrado,

Onde habita nas lojas minha bela,

Por ver-me tão lodoso ela irritada

Bateu-me sobre as ventas a janela…

O cavalo ignorante de namoros

Entre dentes, tomou a bofetada,

Arrepia-se, pula, e dá-me um tombo

Com pernas para o ar, sobre a calçada…

Dei ao diabo os namoros. Escovado

Meu chapéu que sofrera no pagode,

Dei de pernas corrido e cabisbaixo

E berrando de raiva como um bode.

Circunstância agravante. A calça inglesa

Rasgou-se no cair, de meio a meio,

O sangue pelas ventas me corria

Em paga do amoroso devaneio!…

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