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Paulicéia Desvairada – Mário de Andrade

Paulicéia DesvairadaMário de Andrade

            A obra não tem um roteiro, um enredo. É um livro de poesias. A temática, a musa das poesias, é a cidade de São Paulo, e tudo o que é inerente a cidade. 

           A linguagem é simples, algo irreverente e coloquial, tendo até mesmo erros propositais de ortografia e gramática. Ela é uma das partes mais importantes da obra, e configura um protesto por si só ao desafiar as correntes então dominantes. Revolucionou a linguagem poética brasileira, pregando o verso livre.

            O livro Paulicéia Desvairada foi publicado em 1922, mesmo ano da Semana de Arte Moderna. Trata-se do primeiro livro de poemas modernista, cuja “confecção tumultuária” Mário de Andrade descreveria muitos anos depois na famosa conferência de 1942 sobre o movimento que transformaria o panorama das artes no Brasil. O salto para o modernismo consolidado em Paulicéia desvairada ilumina Mário de Andrade moderno, unindo renovação, experimentação, à análise não mais ingênua de seu tempo.

            Em “Paulicéia Desvairada”, todos os procedimentos poéticos e arrojados eram expostos e reunidos pela primeira vez, em uma poesia urbana, sintética, fragmentária e anti – romântica, que retratava uma São Paulo concreta, cosmopolita e egoísta com a população heterogênea e a burguesia cínica.

            Foi o grito de independência cultural da metrópole contra o atraso do resto do país. A metrópole industrial que abrigava burgueses e proletários, caipiras e estrangeiros, palacetes tradicionais e arranha – céus que começavam a despontar.

            A visão da cidade que se urbanizava rapidamente e em que a paisagem industrial ia se desenhando [Lembremos que a casa de Mário de Andrade se situava, como se situa até hoje, na rua Lopes Chaves, no bairro da Barra Funda, em São Paulo], mais a desordem íntima que o escritor experimentava após a discussão familiar, talvez tivessem lhe proporcionado uma percepção poética de como escrever, em português e de maneira conforme à realidade local, paulista, um livro semelhante ao de Verhaeren, que procurou traduzir em imagens poéticas a cidade moderna, “tentaculizada” pela linhas de bonde. Paulicéia Desvairada seria escrita naquela noite mesmo, de um fôlego só.

            É evidente que não foi apenas nessa noite que Mário de Andrade se deu conta do processo de modernização por que passava a cidade, em que os bondes, os postes de luz, a imigração e a especulação imobiliária mudavam a cada dia a cara da cidade. O que é interessante nessa anedota é o fato de que o autor, embora tivesse à vista um material semelhante ao de Verhaeren (a cidade grande, com as diferenças, entretanto, que há entre Brasil e Europa), precisava também sentir a “música” do tumulto associada a esse material.

            Sem conjeturar mais acerca dos elementos que precederam a criação poética, importa notar que o poema O cortejo1 transcreve um pouco essa música da desordem, música que é obtida pelo cruzamento de diversas linhas melódicas, produzindo o que Mário chamou, no prefácio a Paulicéia Desvairada, de polifonia poética.

            Mário de Andrade, também professor e pesquisador de música, explora a afinidade entre música e poesia para cobrar desta os mesmos desenvolvimentos da primeira. Assim como a música, já na Idade Média, passara da melodia (a disposição horizontal de sons consecutivos) para a harmonia (a superposição vertical, a combinação de sons simultâneos), assim a poesia deveria passar do verso considerado como articulação lógica entre as palavras para o verso caracterizado pela combinação de palavras sem relações visíveis entre si. Ou seja, a poesia, aproveitando a analogia com a música, deveria se emancipar do verso melódico e desenvolver o verso harmônico, espécie de arquipélago sonoro, em que as palavras vibram, descoladas umas das outras, à espera de um completamento de sentido que, no entanto, não vem, como enfatiza o poeta. 

            Na verdade, ela não vem no próprio texto, pois é o leitor quem é solicitado a refazer as conexões entre aquelas ilhas de som e de sentido. Assim, numa seqüência como Arroubos…Lutas…Setas…Cantigas…Povoar!… citada por Mário, a ligação entre os termos não está dada, embora caiba ao leitor imaginar as articulações, fornecidas pelo contexto do poema, que, por meios bastante sintéticos e telegráficos, mapeia a odisséia dos bandeirantes ao longo do rio que corta a cidade de São Paulo. Uma odisséia em que se misturam mortes, lutas, as “monções da ambição”, as “gigânteas vitórias” e as cantigas de povoamento. Todo um capítulo da história brasileira o poeta pretendeu condensar em versos harmônicos. Se ele tivesse exprimido o mesmo conteúdo do verso acima em versos melódicos, poderíamos ter algo como:

“Os arroubos dos bandeirantes, sua ambição de enriquecer os levaram a desbravar a terra selvagem, enfrentando todo tipo de hostilidade”

“Lutavam com os índios na posse da terra e de riquezas naturais, e estes por fim acabavam ou apresados ou chacinados” etc.


            O sucesso da articulação entre aqueles signos descolados (arroubos, lutas, setas) será tanto maior conforme o conhecimento e a sensibilidade de cada um. É requerida, portanto, uma operação da inteligência.

            O poema “Os cortejos” é bastante representativo do que o poeta chamou de “polifonia poética”, explicada no trecho que destacamos do prefácio. A polifonia poética nada mais é do que a aplicação, na relação entre as frases num poema, do mesmo procedimento usado entre as palavras no interior do verso melódico. Temos agora um agrupamento de frases soltas, transmitindo umas às outras remotas vibrações, como as cordas de uma cítara:

Monotonias das minhas retinas…

Serpentinas de entes frementes a se desenrolar…

Todos os sempres das minhas visões! “Bom giorno, caro”


            Notemos que o poeta não faz aqui uso de verbos, a não ser no modo infinitivo e com função de adjetivo [“a se desenrolar” equivale ao qualificador “desenrolantes”]. Não estamos diante de orações, em que se exprime um pensamento lógico e encadeado. A ausência de verbo indica que estamos diante de frases mais marcadas pela efusão do sentimento. São frases não-oracionais, difíceis de analisar quanto à estrutura. Conforme a teoria poética de Mário, funcionariam como sons isolados e superpostos, produzindo a impressão de uma polifonia, na qual uma das várias linhas melódicas parece fazer as vezes de um monótono cantochão, repetido ao longo do poema:

Serpentinas de entes frementes a se desenrolar…


            A cidade é vista como um amontoado de cortejos, que, conforme a perspectiva, podem ser tanto carnavalescos (“serpentinas”) como funerários (“monotonias”). É curioso que a utilização da polifonia poética, recurso mais apropriado que o verso melódico para representar o mosaico urbano de trabalho, massas, bondes, agitação, esporte, vitrines, sirva aqui a exprimir o aspecto monótono que essa mesma pluralidade de elementos pode assumir. A cidade pode também matar a poesia:

Nada de asas! Nada de poesia! Nada de alegria!


            São Paulo se revela uma boca de mil dentes, uma língua trissulca, que morde e mastiga os homens “fracos, baixos, magros“. Estes são “todos iguais e desiguais“, assim como os cortejos podem variar conforme o ângulo de quem os observa. Nas retinas saturadas do poeta, eles parecem

“…uns macacos, uns macacos”.


            Se a cidade moderna representaria, por um lado, a libertação e a afirmação do indivíduo, a qual não se daria no quadro de uma vida provinciana, por outro ela poderia achatar e tirar a singularidade desse mesmo indivíduo, inserido na divisão do trabalho e sujeito ao poder avassalador do dinheiro e do comércio. Se os homens parecem desiguais ao poeta, com características étnicas, sociais e culturais que os distinguem entre si, são também iguais e anônimos no aglomerado urbano e no mundo do trabalho. São nada mais que números. O excesso de estímulos visuais e sonoros produzidos pela Paulicéia, que o poema apreendera de maneira polifônica, não deixa de soar, no fim das contas, como uma melodia única, monocórdica, que a repetição no verso final enfatiza: uns macacos, uns macacos. Tais homens são menos que homens, pois parecem agir meramente por reflexos condicionados.

            Paulicéia desvairada pode ser lida como um inventário das vivências, percepções e sensações desencadeadas pela modernização de São Paulo, com a qual Mário de Andrade terá uma relação ambígua ao longo de sua obra. A cidade ora é tumba de homens massacrados pelas “monções da ambição”, de bandeirantes ou de capitalistas, ora é palco de multicoloridos festejos.

O cortejo



Monotonias das minhas retinas…

Serpentinas de entes frementes a se desenrolar…

Todos os sempres das minhas visões! “Bom giorno, caro.”

Horríveis as cidades!

Vaidades e mais vaidades…

Nada de asas! Nada de poesia! Nada de alegria!

Oh! Os tumultuários das ausências!

Paulicéia – a grande boca de mil dentes;

e os jorros dentre a língua trissulca

de pus e de mais pus de distinção…

Giram homens fracos, baixos, magros…

Serpentinas de entes frementes a se desenrolar…

Estes homens de São Paulo,

Todos iguais e desiguais,

Quando vivem dentro dos meus olhos tão ricos,

Parecem-me uns macacos, uns macacos.


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