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Pessach: A Travessia – Carlos Heitor Cony

Pessach: A Travessia – Carlos Heitor Cony

Durante o regime militar instaurado no Brasil dos anos 60 e aos anos 80, a literatura era voltada para questões relacionadas à política interna: o papel do escritor nessa sociedade é discutido, assim como são evidenciadas as censuras, o regime ditatorial, as torturas, prisões, e mesmo as mortes; a Literatura, portanto, continuou a ser produzida e não furtou-se a denunciar, criticar, avaliar, enfim, estar em consonância com a sociedade na qual estava inserida.

Entretanto, observam-se três momentos distintos: o de discussão do papel do escritor e da Literatura na sociedade (a metalinguagem); outro de metaforização do momento político brasileiro; e o terceiro momento, de efetivo combate às instituições e pessoas ligadas ao regime ditatorial.

Romance sem Palavras, de Carlos Heitor Cony, dá continuidade ao assunto de outro livro do autor, Pessach: a Travessia (1967), retomando a narrativa no ponto em que este romance foi interrompido.

O antigo livro descreve os dilemas do escritor Paulo Simon, dividido entre participar ativamente da luta armada ou, indiretamente, por meio da reconstrução literária da matéria histórica.

O narrador-protagonista, atraído pela guerrilheira Vera, se deixa envolver sem muita convicção nas ações da resistência armada e, sem se dar conta do caminho sem retorno que trilha, sofre um lento processo de conversão que o leva a tomar a decisão que sempre evitou.

Nos dois romances, além do intelectual que se engaja politicamente graças não a suas convicções, mas à gratuidade do acaso e aos esforços de uma estudante originária da classe média, reitera-se também a descrição estática do perfil do líder da guerrilha.

O Macedo de Pessach possui características análogas à natureza truculenta do Raul de Romance. Não fosse pelo final, a participação desse personagem no enredo estaria reduzida à função de controlar autoritariamente a consciência dos guerrilheiros.

Entretanto, um dos principais pontos que distinguem um e outro livro reside no fato de que, em Pessach, o momento da luta armada em si mesma compõe o elemento espaço-temporal da narrativa e a matéria reflexiva, posta a serviço da compreensão do engajamento político do intelectual.

Em “Pessach: a travessia”, a luta armada e sua relação com intelectuais céticos é algo frustrados. Um escritor alienado se envolve com a guerrilha, os personagens lutam, nem sempre por vontade própria, contra o regime militar. A ditadura é o pano de fundo.

Só que não só o título do livro é duplo, como também a história é dupla. A primeira parte é uma passagem por cima. É um personagem, envolto em si mesmo, na sua liberdade individual. Ele é completamente alienado, passa por cima dos problemas.

Ele tem um pai, uma filha, uma ex-mulher, a editora que publica seus livros, mas ele não se envolve em nada. Pessach, em hebraico, significa justamente isto, passar por cima.

Foi um anjo do Senhor que passou por cima dos primogênitos hebreus, poupando-os das sete pragas do Egito. Agora, a travessia é diferente. A travessia é atravessar.

Quando se passa por cima de uma parede, sai intacto, não toma conhecimento das coisas. Mas quando se atravessa, deixa aderências. Pode até atravessar, mas sai arranhado, sangrando e deixa um pouco de si mesmo.

A segunda parte, então, é a travessia, onde tem o pano de fundo da guerrilha.

O personagem não abdica da sua liberdade. Na primeira parte, ele se aliena, mas ao mesmo tempo se sente vazio.

Na segunda parte, que ele atravessa, e passa a vivenciar contra a sua vontade aqueles movimentos guerrilheiros, ele se contamina um pouco com aquilo, mas não abdica da sua liberdade. A liberdade continua sendo a grande justificativa do ser humano.

O livro “Pessach: a travessia” foi objeto de polêmicas. Ele foi considerado uma traição. Carlos Heitor Cony foi um jornalista contestador do regime, foi talvez o mais violento, o mais punido – respondeu doze processos, foi preso seis vezes. Acusou o Partido Comunista de traição.

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