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Poemas Irônicos, Venenosos e Sarcásticos – Álvares de Azevedo

Poemas Irônicos, Venenosos e Sarcásticos – Álvares de Azevedo

Suavemente amoroso, melancolicamente frágil, capaz de sonhar delicados amores com musas impossíveis e chorar os limites tênues da vida, descrevendo a própria morte na relação empática com a dor da mãe e da irmã, Manuel Antônio Álvares de Azevedo está longe de ser um autor fraco, infantil ou simplório.

Um texto, interposto por ele na Lira dos vinte anos, avisa que poetas são regidos por sentimentos contraditórios, na medida em que “têm nervos, têm fibra e têm artérias – isto é, antes e depois de ser um ente idealista, é um ente que tem corpo”.

A informação que desmistifica as motivações e intenções poéticas, é a mesma que desfaz as certezas em relação a sua poesia.

Esta coleção de poemas reúne trabalhos relativos a diferentes momentos de sua obra. Ela está organizada em consonância com o aviso contido no prefácio já mencionado.

O leitor, portanto, deverá estar preparado para se defrontar com versos envenenados pelas “binômias” românticas. Versos cheios de ironia e sarcasmo, que dizem uma coisa deixando antever outras, tão diversas e estranhas que podem acabar por revelar algo inesperado para o leitor mais distraído ou para o crítico mais cuidadoso.

Nesta ótica, manteve-se a singularidade da escrita de Álvares de Azevedo na métrica e no vocabulário – mesmo quando posteriores correções e adequações civilizatórias obedeceram a uma lógica irretocável.

Sem acesso aos originais, percorreu-se um caminho de retorno às primeiras edições, que representariam uma aproximação com as suas intenções primitivas.

Ato absolutamente simbólico, pois, conforme comentou Machado de Assis, as revisões necessárias eram impossíveis de serem feitas pelo autor, morto antes de sua obra virar livro.

Por outro lado, nada garante que entre o texto original e as primeiras impressões não tenham existido penas eruditas e bem-intencionadas, querendo satisfazer as expectativas machadianas. Ficam, entretanto, assinaladas as nossas pretensões.

Assim, o pronome corrigido para o feminino em “Por que repugnas levantá-lo agora” (“Glória moribunda”, I, 2, 6) foi mantido no masculino conforme as edições antigas – justifica-se esta decisão pela possibilidade de que a falha gramatical funcione como uma palavra insensata que não deixe cair no esquecimento as dúvidas do poeta glorioso, referência da repugnante caveira a ser levantada e principal motivação do poema.

Suposição reforçada pela manutenção do pronome no masculino na frase seguinte.

No que diz respeito ao andamento dos versos, a pontuação foi mantida o mais próximo da utilizada naquele tempo, posto que, se não podemos ouvir a voz do escritor romântico apresentando sua obra, poderemos sentir, ao menos, a respiração impressa em sua escritura.

Igualmente foram mantidos os apóstrofos indicativos das síncopes e apócopes, mesmo quando o uso tenha tornado comum a inventiva poética.

Também foi feita atualização ortográfica – por exemplo, “resupino” (“Um cadáver de poeta”, III, 7, 2) passou a “ressupino” e “massada” modernizou-se para “maçada” – e pequenas correções, como no verso “E, na treva de morte que os cegava” (“Boêmios”, VII, 11) que havia sido grafado “o cegava” na edição básica.

Caso especial foi a solução que adotamos para as aparições de “oiro” e “ouro” e “doida” e “douda”, que permaneceram na grafia original – uma porque a variação existia no tempo do poeta e a outra é uma variação aceita modernamente, fazendo de sua escolha uma opção definitiva.

Poetas são perigosos e o fazer poético é uma desgraça para a sociedade organizada, é o aviso platônico para os cidadãos gregos.

Séculos depois, este aviso ainda ecoa a propósito das possibilidades de rimar sentimentalismo com ironia, musas etéreas com erotismo e credulidade com descrença.

É necessário, tão-somente, virar a próxima página, ou abrir o próximo arquivo para confirmar ou refutar tais opiniões

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