Menu fechado

Portugal – Miguel Torga

Portugal – Miguel Torga

A primeira edição do Portugal de Miguel Torga foi em 1950, sendo desde essa data até 1991 reeditado e revisto cinco vezes.

As revisões, porém, não foram estruturais, mas apenas a nível de um ou outro vocábulo. O que significa que o livro é formalmente o mesmo de há quarenta anos atrás.

Desde 1950 que em todas as regiões, à exceção talvez de Trás-os-Montes e do Alentejo, se processaram profundas mudanças, quer paisagísticas quer culturais. Vejamos alguns contrastes.

Miguel Torga dá-nos uma imagem do Minho extremamente esverdeada. Diz que era uma tolice «visitar a célula da nacionalidade com tanta folha nos sentidos». «Quem poderia vislumbrar uma grandeza humana e telúrica soterrada por tanta parra sulfatada?».

E contrapunha: «A uma aguarela de ferrã e a um folclore domingueiro prefiro uma paisagem de fragas e uma roca singela». Era um transmontano habituado a «um mar de pedras», «à terra nua que, parda como burel, tinha ossos e chagas».

O «pesadelo verde», os «quilômetros de esmeralda» que tanto entediaram Torga na sua jornada pelo Minho são agora pequenas manchas tímidas no horizonte.

As construções desenfreadas, o alargamento das vilas e das cidades nortenhas transformaram profundamente o verde da paisagem.

Na verdade, a partir de 1974, com a volta dos emigrantes e a consecução de projetos de desenvolvimento financiados pela Comunidade Européia, o Minho sofreu uma alteração irreversível.

De Melgaço a Vila do Conde o antigo verde dos campos e dos montes desmaia entre enxames de maisons e fabriquetas com telhado de zinco. Em nome do progresso se destrói o que herdamos.

Certamente, se Miguel Torga tivesse de escrever um novo capítulo sobre o Minho, reconsideraria algumas das observações feitas e até mesmo a sua opinião desfavorável a este recanto de que Camilo dizia: «Há treze anos que apeguei por esse Minho, em cata do bálsamo dos pinheirais e da fragrância das almas inocentes».

O mesmo fenômeno de mudança se dá nas Beiras. Anualmente milhares de hectares de terra arável e de matas se transformam em bairros ou em infernos de cinzas.

Não faltará muito para que todo o «Portugal» se reduza a uma fraga colossal, mesmo ao gosto de Miguel Torga. Então, todo o território será o prolongamento da Serra da Estrela, «gelada e carrancuda».

O Algarve, desde que os ingleses o descobriram, usaram e deitaram fora, já não é o «paraíso terrestre, onde o homem possa viver feliz ao natural».

O turismo descontrolado desconjuntou-lhe a graciosidade do clima ameno, do colorido marítimo, das casinhas brancas, das amendoeiras em flor.

A lixeira dos hotéis e apartamentos mal construídos, de bangalôs improvisados, denuncia a ganância do lucro fácil.

Porto, «o reduto das nossas velhas virtudes», Coimbra «uma linda cidade cheia de significação nacional» e Lisboa a «flor em que o destino nos transformou», são agora cidades que nada disso parece significarem.

A idéia de que é no Porto que se trabalha, que há gente séria, não passa de um lugar-comum. Entre os habitantes de Lisboa e do Porto não se distingue quais os mais corruptos ou os mais inúteis.

Coimbra, com o advento das universidades novas em todas as regiões, deixou de marcar culturalmente o meio pensador e técnico. É mais uma cidade com ensino superior a formar doutores e engenheiros.

Lisboa, flor cheirosa e colorida, antiga metrópole dum grande império, surge agora como a central de esgotos de todo o país – ou quase.

Na «toalha límpida do Tejo» são descarregados diariamente toneladas de detritos, tóxicos ou não, de mais de trezentas fábricas.

A fuga dos latifúndios alentejanos e dos lameiros minhotos nos anos 60, o regresso dos portugueses dos países africanos com a descolonização, a fuga dos timorenses sem terra, descambaram nas ruas de Lisboa cada vez mais sujas e degradadas.

Afora estes contrastes do Portugal de 1950 e do Portugal de 1991, o livro de Miguel Torga revela-se-nos um contributo de amor à pátria que é sua e nossa e que todos desejamos seja bela e moderna.

Pretendeu Miguel Torga com este livro dar a conhecer o fenômeno «Portugal» numa viagem de norte a sul, inquirindo ora o aspecto físico, ora o aspecto cultural e psíquico dos seus habitantes.

A sua visão pessoalíssima de artista ora surge repleta de lirismo e de esperança, ora de crítica, desengano e até mesmo repulsa.

Termina o livro com a descrição do promontório de Sagres, as ondas a escavarem-lhe «as ilhargas» e a minarem-lhe os «fundamentos».

Haverá esperança num pedregulho habitado por «peregrinos da impotência?».
Um livro belo do Portugal que foi mas não será mais.

Veja também: