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Produções Satíricas e Bocageanas – Bernardo Guimarães

Produções Satíricas e Bocageanas – Bernardo Guimarães

Bernardo Joaquim da Silva Guimarães é autor engajado no romantismo. Sua obra é superlativa na expressão das emoções e na exposição das sensações.

Alguns dos críticos literários vêem estas características como defeito: os modernistas, por exemplo, usaram A escrava Isaura, seu romance mais conhecido, para caricaturar a estética romântica e lançar o movimento de renovação das artes.

Outros estudiosos, ao contrário, o situam entre os mais qualificados escritores brasileiros, um autor certamente envolvido com a dicção e a temática de seu tempo, mas consciente das implicações e conseqüências daquele modelo poético e, portanto, capacitado a oferecer uma obra original e crítica.

Estes aspectos surgem de modo variado na poesia bernardina. Exemplos interessantes seriam a reafirmação do ceticismo e o uso do humor e da ironia, que podem ser apreciados respectivamente em Devanear do cético e nos poemas reunidos sob o título O humor e a ironia em Bernardo Guimarães, todos passíveis de ser encontrados na Biblioteca Virtual.

A ironia é uma categoria literária que o romantismo desenvolveu nos seus aspectos filosóficos e psicológicos.

Ela seria produzida no espaço entre o recalque e a censura de gestos e sentimentos, recheada de significações e, portanto, pronta para causar estranhamento e emoção quando menos se espera.

No título específico para o assunto, mostramos a paródia feita com Lembranças do nosso amor, de Aureliano Lessa, com a qual nosso poeta repudia a epifânia amorosa proposta no poema de seu amigo.

Porém, Bernardo Guimarães leva sua ironia a extremos e ataca de modo desabusado temas tabus. Para fazê-lo, monta um incrível conjunto de imagens bestialógicas e pornográficas.

Uma produção tão violentamente divergente da melopéia romântica tradicional, mesmo para versos de ironia e humor satíricos, que acaba censurada e ausente das antologias e coleções de suas obras, inclusive aquelas que se pretendem completas.

Três momentos daquela produção estão reunidos aqui. Disparates rimados é uma brincadeira com várias imagens banalizadas pelo romantismo.

Nomes e acontecimentos diversos são separados de seus campos referenciais e aproximados de outras rimas que, perfeitas do ponto de vista gráfico, se revelam esdrúxulas do ponto de vista do sentido.

Por exemplo, logo nas primeiras estrofes, as fadas, habitualmente apresentadas como criaturas etéreas e diáfanas, vêm embrulhadas em terrenos lençóis, para cantar o paroxismo, um estado d’alma certamente mais adequado a criaturas mais carnais.

Linhas adiante, o Dalai-Lama, alegoria da elevação do espírito, é apresentado como profundamente interessado numa burlesca odalisca.

Sempre nesta direção, as rimas inesperadas se sucedem – queijo/pejo/aranha/montanha e, mais, meninos de rabo/deram cabo/um supino/tamanho desatino – como que antecipando em um século o Samba do crioulo doido, de Stanislaw Ponte Preta.

A origem do mênstruo é a recuperação poética de um manuscrito fictício do que seria uma fábula de Ovídio.

O poema desmistifica a visão clássica das relações entre os deuses da mitologia greco-romana e descreve os acontecimentos que levaram as dores e os incômodos do ciclo menstrual a todas as mulheres – ocorrência normal da fisiologia feminina mas que, muito provavelmente, seria um tabu em meados do século XIX.

O deboche utilizado para isto nada fica a dever ao que escreveram Bocage ou Boccaccio, autores que tão bem mostraram as idiossincrasias dos desejos humanos mais secretos e suas conseqüências.

Elixir do pajé é uma celebração dos sentimentos dos habitantes das florestas do Novo Mundo, mitificados pelo indianismo.

Porém, contrapondo-se aos ideais elevados dos personagens de escritores como José de Alencar, o pajé do poema tem problemas explicitamente terrenos e está interessado em soluções terrenas para eles: está impotente e quer recuperar sua condição de macho ativo.

Diante da situação, ele canta os seus feitos e suas necessidades sexuais de modo cru e nu. Todavia, enquanto subverte a ordem poética, ele acompanha o ritmo e alude às imagens presentes nas composições canônicas de Gonçalves Dias – especialmente n’Os timbiras, fazem questão de lembrar alguns de seus críticos.

Ou seja, neste poema, do mesmo modo que nos anteriores, Bernardo Guimarães se mantém sob a égide do romantismo, mesmo quando exerce a crítica mais mordaz sobre a imagética daquele movimento.

Mais um texto foi acrescido a esta pequena coleção, um Ao leitor que foi encontrado nas três edições de O elixir do pajé consultadas.

Sem que se emita opinião sobre a lavra que o gerou, que bem poderia ser a do poeta, ele oferece uma interessante avaliação sobre a poesia erótico-cômica e uma delicada observação sobre a musa que a inspira.

Notas que não poderiam ficar de fora desta mostra. O método para fixar os textos foi o da comparação entre edições, com o que se pretende que o leitor se aproxime do que seria a letra original do escritor.

Do acervo da Fundação Biblioteca Nacional foram consultadas a edição dos Cem bibliófilos, de 1958, a antologia de Alphonsus de Guimaraens Filho, para o Instituto Nacional do Livro, em 1959, e Poesia erótica e satírica de Bernardo Guimarães, organizada por Duda Machado, para a Imago.

Outras duas importantes referências utilizadas são o trabalho de Basílio de Magalhães, que leva o nome do poeta e foi editado pela Typographia do Annuario do Brasil, em 1926, e Poesias e romances do Dr. Bernardo Guimarães, de J.M. Vaz Pinto Coelho, editado em 1885, para a Typographia Laemmert, no qual colhemos a inspiração para nosso título.

Para esclarecer dúvidas e corrigir falhas surgidas durante a pesquisa, foram consultadas outras duas versões do poema sobre o pajé editadas, respectivamente, nos anos de 1875 e 1951, e que fazem parte do acervo da Fundação Casa de Rui Barbosa.

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