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Prosas Seguidas de Odes Mínimas – José Paulo Paes

Prosas Seguidas de Odes Mínimas – José Paulo Paes

Publicado em 1992, Prosas Seguidas de Odes Mínimas, de José Paulo Paes, está entre as melhores obras da literatura contemporânea brasileira. 

Lê-lo é um exercício prazeroso e ao mesmo tempo instigador, pois, trabalhando com temas tornados muito próximos, acaba por incentivar reflexões profundas de nossa existência.

O primeiro aspecto que chama a atenção na sua obra é o caráter extremamente conciso, quase telegráfico de sua linguagem. 

Trata-se do que se convencionou chamar de minimalismo, que remonta em alguns aspectos à literatura telegráfica de Oswald de Andrade. 

De fato, este poeta e o seu universo são citados em um dos textos da presente obra de José Paulo Paes, “Prosa para Miramar”.

No entanto, o poeta não se aproxima apenas de Oswald de Andrade. Sente-se nele uma familiaridade com Drummond, principalmente no aspecto gauche de alguns poemas. Basta ler o texto abaixo

CANÇÃO DO ADOLESCENTE

Se mais bem olhardes

notareis que as rugas

umas são postiças

outras literárias.

Notareis ainda

o que mais escondo:

a descontinuidade

do meu corpo híbrido.

Quando corto a rua

para me ocultar

as mulheres riem

(sempre tão agudas!)

do meu corpo.

Que força macabra

misturou pedaços

de criança e homem

para me criar?

Se quereis salvar-me

desta anatomia,

batizai-me depressa

com as inefáveis

as assustadoras

águas do mundo.

Note que o eu-lírico se descreve como uma junção um tanto desajeitada do adolescente com o amadurecido, criando um híbrido dotado de uma anatomia que inspira dó ou riso. 

Mas o tom drummondiano também é percebido pelo cansaço com que enxerga a geração humana. E, assim como o poeta mineiro, o desencanto com a nossa espécie não é suficiente para anular de maneira niilista o desejo por viver. 

É o que se vê abaixo, em “Mundo Novo”. 

MUNDO NOVO

Como estás vendo, não valeu a pena tanto esforço:

a urgência na construção da Arca

o rigor na escolha dos sobreviventes

a monotonia da vida a bordo desde os primeiros dias

a carestia aceita com resmungos nos últimos dias

os olhos cansados de buscar um sol continuamente adiado.

E no entanto sabias de antemão que seria assim. Sabias que a pomba iria trazer não um ramo de oliva mas de espinheiro.

Sabias e não disseste nada a nós, teus tripulantes, que ora vês lavrando com as mesmas enxadas de Caim e Abel a terra mal enxuta do Dilúvio.

Aliás, se nos dissesses, nós não te acreditaríamos.

Veja que se assume o tom de “no entanto, prosseguimos animadamente vivendo” de algumas peças preciosas do Rosa do Povo, de Drummond, pois ocorre também a defesa da existência, por pior que seja.

Além de vincular-se ao célebre poeta da pedra, José Paulo Paes apresenta a mesma afetividade com que Bandeira recupera, por meio da memória, personagens do seu círculo familiar, principalmente as que povoaram sua infância. 

É o que pode ser visto, entre tantos exemplos, no texto abaixo, que resume as características das várias personagens descritas na obra, em poemas individualizados.

A CASA

Vendam logo esta casa, ela está cheia de fantasmas.

Na livraria, há um avô que faz cartões de boas-festas com corações de purpurina.

Na tipografia, um tio que imprime avisos fúnebres e programas de circo.

Na sala de visitas, um pai que lê romances policiais até o fim dos tempos.

No quarto, uma mãe que está sempre parindo a última filha.

Na sala de jantar, uma tia que lustra cuidadosamente o seu próprio caixão.

Na copa, uma prima que passa a ferro todas as mortalhas da família.

Na cozinha, uma avó que conta noite e dia histórias do outro mundo.

No quintal, um preto velho que morreu na Guerra do Paraguai rachando lenha.

E no telhado um menino medroso que espia todos eles; só que está vivo: trouxe- até ali o pássaro dos sonhos.

Deixem o menino dormir, mas vendam a casa, vendam-na depressa.

Antes que ele acorde e se descubra também morto.

É interessante perceber que o estilo conciso adotado pelo autor acaba por tornar todo o poema densamente carregado de significado. Tudo contribui para o sentido geral do texto. 

Basta notar as referências, explícitas ou implícitas, à idéia de morte em quase todas as personagens: “avisos fúnebres”, “romances policiais”, “caixão”, “mortalhas”, “outro mundo”, “morreu”. 

Olhar para o passado e relembrar figuras que não existem mais é ter consciência da passagem do tempo, o que implica a noção de envelhecimento e morte.

Outro aspecto importante para ser lembrado, e que constitui uma pista interpretativa bastante útil deixada pelo autor, é o fato de que a recuperação do seu passado é obtida graças à asa dos sonhos. 

Podem ser vistos aqui traços que nos façam prestar atenção ao caráter romântico (sonho, fantasia, emotividade) e algo entre simbolismo e surrealismo, principalmente este último. 

José Paulo Paes detona um conjunto de imagens de relação absurda entre si, como que ditadas por um pensar em delírio e, portanto, livre das peias racionalistas. 

No entanto, é esse pássaro dos sonhos que lhe dá fôlego suficiente para ter, absurdamente ou não, uma visão ousadamente perfeita de nossa realidade.

Dentro ainda do campo do absurdo, deve-se lembrar que um esquema muito comum no poeta é a utilização das antíteses e principalmente paradoxos (figuras de linguagem ligadas à oposição) na expressão de sua realidade. 

O que José Paulo Paes parece fazer é juntar elementos completamente contrários e por meio da forte tensão que se forma dessa união ganhar energia suficiente para que se enxergue mais eficientemente a realidade do que pela lógica racional (pode-se lembrar que tal procedimento era muito comum em Machado de Assis, que enxergava a realidade como algo dilemático. 

Mas se no autor realista essa elaboração se encaminhava para a fria análise da condição humana, em José Paulo Paes é lastreada por uma forte emotividade. 

É provável que haja mais familiaridade com o Barroco, famosa arte das oposições. 

No entanto, a sofisticação da linguagem da escola seiscentista, gerando textos que eram verdadeiras elucubrações, é bastante diferente do tom simples assumido em Prosas Seguidas de Odes Mínimas). É o que se vê, entre tantos casos, no trecho abaixo:

OUTRO RETRATO

O laço de fita

que prende os cabelos

da moça do retrato

mais parece uma borboleta.

Um ventinho qualquer

e sai voando

rumo a outra vida

além do retrato.

Uma vida onde os maridos

nunca chegam tarde

com um gosto amargo

na boca.

Deve-se observar que a idéia de laço, numa análise superficial, está ligada a prisão, opondo-se, portanto, a vôo. No entanto, de forma surrealista, o nó corredio é facilmente associado a borboleta. 

Um estudo profundo revela que tal associação não é, porém, absurda, já que remonta à idéia de que todo retrato faz retomar um passado em que sonhos, desejos eram montados cheios de idealização. 

Dessa forma, o poema acaba por avaliar agudamente o presente, que se desviou grosseiramente das expectativas de um passado ingênuo.

Também é necessário lembrar que José Paulo Paes possui um ponto de contato com uma qualidade comum a Bandeira e Drummond: a emotividade retirada das coisas simples, cotidianas. 

Consegue, da mesma forma que os dois pilares da poesia modernista (o terceiro seria João Cabral de Melo Neto, que envereda por outro caminho), ter os mesmos passos de um cronista moderno, alçando vôos líricos altíssimos.

Curioso é perceber que os trechos apresentados até agora, tratados por nós como poemas, na realidade correspondem à primeira parte da obra, composta de “prosas”. Sua elaboração, no entanto, recebe um trato de linguagem tal que se aproximam por demais da poesia. 

Pode-se tratar, portanto, de um famoso gênero criado pelos simbolistas, o da prosa poética, já percorrido por Cruz e Sousa, Aníbal Machado e Rubem Braga. Mas José Paulo Paes, nesse contexto, é insuperável.

Além da primeira parte, composta de poesia em prosa, há a segunda, toda de odes. Entende-se esse gênero como o de poemas para a exaltação. 

Têm, tradicionalmente, um tom grandioso. No entanto, o presente poeta engrandece coisas simples, como um alfinete, um fósforo, uma garrafa ou até mesmo a tinta de escrever, como se vê a seguir

À TINTA DE ESCREVER

Ao teu azul fidalgo mortifica

registrar a notícia, escrever

o bilhete, assinar a promissória

esses filhos do momento. Sonhas

mais duradouro o pergaminho

onde pudesses, arte longa em vida breve

inscrever, vitríolo o epigrama, lágrima

a elegia, bronze a epopéia.

Mas já que o duradouro de hoje nem

espera a tinta do jornal secar,

firma, azul, a tua promissória

ao minuto e adeus que agora é tudo História.

Deve-se lembrar o mesmo comentário que Antonio Candido fez sobre a crônica no primeiro volume da coleção Para Gostar de Ler, da Ática. Há em José Paulo Paes uma predileção pelo pequeno, pelo mínimo, que lhe alimenta de fôlego suficiente para não só engrandecê-lo, mas também de buscar o gigantesco. 

Como nos dizeres de um outro crítico, David Arrigucci Jr, José Paulo Paes consegue o máximo com o mínimo. É o que se vê majestosamente na sua ode mais extensa, “À Minha Perna Esquerda”, em que consegue relatar o drama (que não resvala no piegas) de ter o referido membro amputado. 

É um dos textos mais belos, carregado do trágico, patético e até mesmo do irônico, traço muito comum do poeta, aliás. Sua dor pessoal acaba destilando imagens demoníacas e surrealistas que fazem eco na dor existencial humana.

Dessa forma, não se deve pensar que, mesmo inspirado em monstros sagrados de nossa poesia, o poeta acaba perdendo sua qualidade, ou mesmo sua grandiosidade. 

Como já se disse, Prosas Seguidas de Odes Mínimas está entre o que de melhor foi feito por nossa literatura, merecendo ser leitura não apenas para vestibular, mas para momentos em que se busca o prazer estético, um dos ingredientes básicos para uma existência completa.


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