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Saragana – Guimarães Rosa

“O Burrinho Pedrês” – Primeiro conto de Sagarana, livro que em 1946 marcou a estréia de Guimarães Rosa em nossa literatura (o autor já vinha publicando seus textos na revista O Cruzeiro desde 1929. Mas Sagarana foi sua primeira obra em livro), destaca-se por expor de forma nítida toda a inventividade do autor no trato com a linguagem literária. Percebe-se nele o aproveitamento do colorido de expressões típicas do povo como “Estou como ovo depois de dúzia”, “Suspiro de vaca não arranca estaca”, “não é nas pintas da vaca que se mede o leite e a espuma”, entre tantas outras.

Há também o uso de trechos de cantigas populares e também do esquema de história dentro da história, destacando-se a do zebu assassino e a do gado com saudade da querência (local de nascimento do gado). A primeira fala de um boi que num acesso inexplicável de raiva (o que é muito comum nessa espécie) acabou assassinando o filho de um fazendeiro, justamente um garoto que não deixava ninguém maltratar animais. Tanto que às portas da morte fez com que prometessem que o bicho não seria sequer machucado. O pedido foi cumprido, mas ninguém queria ficar com algo que trazia lembranças tão amargas, por isso fora vendido.

No novo local, passara a noite mugindo piedosamente, como se quisesse falar com alguém. É a impressão que se tem quando alguém tem coragem de vê-lo. No dia seguinte, apareceu morto. A outra história relata um fato ocorrido no início da vida de Saulo, personagem do conto. Em época de crise, havia conseguido comprar um gado da pior espécie, mas que tinha saudade imensa de sua querência. Com ele viajava um garoto negro de sete anos que ia ser entregue em uma cidade, mas que só chorava de saudade de sua mãe, a ponto de incomodar os demais boiadeiros e de deixar o gado mais triste. Chegam a ameaçar a integridade do pequeno se não parasse com suas lamúrias.

Durante a noite, o narrador dessa história diz ter adormecido e só acordado com um estrondo enorme. Ao recobrar a consciência, descobre que não havia mais sinal do gado, dois boiadeiros eram apenas restos de carne pisoteada e o menino havia desaparecido.

Chama também a atenção a poeticidade com que o texto é trabalhado, tornando-se exemplar da mais pura poesia do Terceiro Tempo Modernista, ao qual pertence o autor. Basta ler o trecho abaixo:

Devagar, mal percebendo, vão sugados todos pelo rebanho trovejante – para a pata, casco a casco, soca soca, fasta vento, rola e trota, cabisbaixos, mexe lama, pela estrada, chifres no ar…

Note que, a partir do travessão, o texto adquire ritmo, com cada bloco de frase assumindo algo semelhante a três sílabas métricas, com exceção de “chifres no ar”, um tetrassílabo. Tudo concorre para imitar a sonoridade da movimentação de um boiada.

Às vezes o narrador não se detém apenas à metrificação, aproveitando outros elementos de musicalidade, como a aliteração, vista abaixo:

Boi bem bravo,bate baixo, bota baba, boi berrando… Dança doido, dá de duro, dá de dentro, dá direito… Vai, vem, volta, vem na vara, vai não volta, vai varando…

Outro elemento interessante é a atenção que Guimarães dá a animais, principalmente ao protagonista, que dá nome ao conto. Nota-se neles comportamento, personalidade e até manias. Poder-se-ia dizer que são humanizados, o que talvez seja um exagero. O autor, na verdade, respeita a estrutura primitiva do raciocínio dos bichos.

No entanto, a parte mais fraca do conto é, provavelmente, a sua história. Saulo, fazendeiro que consegue ser sério e brincalhão ao mesmo tempo, decide partir para entregar uma boiada. Decide levar o burrinho Sete-de-Ouros, o “burrinho pedrês”, que, a seu ver, agüentaria a empreitada, apesar de já ser um animal idoso. Determina que um dos seus vaqueiros, o mais velho, vá montado nele, o que era visto como humilhante.

Francolim, ajudante de Saulo, informa que está havendo uma desavença entre dois vaqueiros, Badu e Silvino, por causa de uma mulher, tudo prometendo acabar em morte. Porém, dentro de um costume muito comum nas narrativas roseanas, ocorre aqui um anticlímax. Tudo se encaminhava para o conflito final, provavelmente após entregue a boiada. Mas, em meio à escuridão, ocorre uma cheia monstruosa. Badu consegue escapar, em meio à enxurrada, apesar de bêbado, montado no burrinho, que sabe por instinto o caminho de volta até sua casa.

“Sarapalha” – Este conto está na lista dos que menos Guimarães Rosa havia gostado. O seu título faz menção ao nome da região em que se passa a história. Era um lugar destinado ao abandono, pois havia sido dominado pela maleita. Seus protagonistas, os primos Argemiro e Ribeiro, estavam, inclusive, acometidos dessa doença. Aos poucos tomamos conhecimento dos dois e de todo o seu histórico. Ribeiro está no estágio crítico da doença e já torce pela morte. Só tem o primo como companheiro, principalmente depois que a esposa daquele, Luísa, o abandonou por um vaqueiro que aparecera por lá. Em vista de tudo isso, tem uma enorme gratidão com Argemiro. No entanto, este tem um remorso gigantesco, pois só havia largado suas terras não por companheirismo, mas porque havia se apaixonado por Luísa.

Mas com a fuga dela, sente que a amizade entre os dois havia fortalecido, portanto, sente-se na obrigação de confessar seus sentimentos. Fá-lo logo após uma crise de febre e de delírio de Ribeiro e antes que a sua própria chegasse (essas manifestações da doença eram sazonais, funcionando até como relógio). Confessa e pede perdão, mas não o obtém, pois o primo percebe que Argemiro só fora morar ali por causa de Luísa e ficara ali não para cuidar dele, mas para esperar o possível retorno dela. Expulsa aquele que considera traidor. Argemiro parte, já às portas do seu acesso de febre, que de fato chega em meio à sua caminhada, no meio do mato. Pára de andar e espera a crise, que se anuncia numa sensação acolhedora que o faz sentir a paisagem ao seu redor de forma acolhedora. É o delírio instalando-se.

“A Hora e a Vez de Augusto Matraga” – Este é o nono, o último e o melhor conto de Sagarana. Tal conto confirma a afirmação da crítica de que estava sendo inaugurado um terceiro tipo de regionalismo (o primeiro regionalismo deu-se durante o Romantismo, representado principalmente por Bernardo Guimarães, Franklin Távora e Visconde de Taunay, além do próprio José de Alencar. O segundo regionalismo ocorreu durante a Segunda Geração Modernista (de 1930 a 1945), sendo representada principalmente por Graciliano Ramos e José Lins do Rego). No entanto, basta uma leitura atenta para se conseguir elementos que coloquem nos eixos uma declaração um tanto exagerada.

É correto notar semelhanças na fidelidade de descrição dos costumes sertanejos, como havia no Romantismo, principalmente em Inocência, de Visconde de Taunay. No entanto, as semelhanças param por aí.

Como elemento diferenciador, o primeiro que pode ser lembrado é a elaboração da linguagem, que em muitos momentos ganha ritmo e musicalidade que a aproximam da poesia. É uma delicada prosa poética (note a poeticidade resgatadora de elementos populares no trecho “Você tem perna de manuel-fonseca, uma fina e outra seca!”. O conto está recheado de outros exemplos do mesmo quilate).

Outro aspecto que afasta o conto da tradicional prosa sertaneja é sua temática. Não se trata mais da idealização do amor como era no Romantismo ou do espírito engajado e político como era no Segundo Tempo Modernista. O que ocorre aqui é a utilização de uma fábula (entende-se por fábula uma narrativa que encerra simbolicamente uma moral, uma mensagem, tal qual as parábolas do Novo Testamento.

E esse aspecto é até mencionado pelo próprio narrador, quando, metalingüisticamente, avisa que sua narrativa não é real, mas ficcional. Devemos, pois, entendê-la como uma representação) com a intenção de trabalhar com temas universais de caráter metafísico (aqui está uma diferença crucial entre o caráter universal de Graciliano Ramos (Vidas Secas, São Bernardo) e o de Guimarães Rosa. O primeiro envereda-se por questões político-sociais. O segundo preocupa-se com questões espirituais, existenciais e místicas).

Esse caráter é nítido no presente conto já a partir da referência constante a elementos religiosos. Seu protagonista, Augusto (o nome da personagem à primeira vista se opõe ao seu caráter tosco. No entanto, até o final da narrativa será estabelecida uma perfeita coerência com a personalidade que irá adquirindo) Esteves, o Augusto Matraga, fora criado por uma avó, que o queria padre.

No entanto, pai frouxo e tio criminoso, entortou para o mal, pois estava fora do prumo, tornara-se desregrado. Além disso, a narrativa inicia-se em meio a um festejo santo, em que, num leilão, o protagonista arrebata por 50.000 réis uma prostituta, desagradando um capiau (sertanejo bastante primitivo, atrasado, rude) que estava interessado nela. Nem chega a usá-la, alegando que era muito feia.

Matraga de fato era pessoa rude, não civilizada (talvez por isso haja a menção constante a poeira e pó na primeira parte do conto). Além de bandido e violento, trata com pouco caso sua esposa, Dionóra, e sua filha, Mimita. Só quer jogo, caçada e mulheres de vida fácil.

No entanto, a sorte muda. Sua esposa o larga, passando a viver, com a filha, em companhia de um homem chamado Ovídio (haverá aqui uma idéia de que este sabia amar? Deve-se lembrar que Ovídio era um autor da Antigüidade Clássica de um livro sobre a arte de amar). Matraga não pôde vingar a ofensa, pois recebe a notícia de que seus capangas, com exceção de Quim Recadeiro, o abandonaram, passando para o lado do Major Consilva.

Augusto vai tomar satisfações pela afronta, sem se tocar de que o destino virou-se contra ele: não tem apoio político, está cheio de dívidas, suas terras estão hipotecadas. Como o próprio narrador comenta, não havia se tocado de que era momento de parar umas rodadas, deixar de jogar, pois o azar havia chegado. É um comentário que leva a crédito coisas de destino, o que justifica por que o protagonista insistiu em suas ações.

Seus feitos mostraram-se infrutíferos. Ao chegar à fazenda do Major, é cercado pelos capangas do vilão, alguns ex-subordinados de Matraga. Numa narrativa emocionante e bem contada, vemos que é espancado (um dos que participam do linchamento é o mesmo capiau que havia perdido a prostituta para Augusto. Parece haver a velha idéia do “aqui se faz, aqui se paga”, arrastando a narrativa tanto para os elementos populares como para os místicos), marcado por ferro em brasa e, antes de sofrer o pior, atira-se de um altíssimo barranco. Para seus inimigos, estava morto.

Há nesse ponto simbologias interessantes. A primeira está ligada à idéia de mergulho no abismo. O estilo de vida de Augusto é metaforicamente um mergulho para o lado mais baixo do ser humano, ao qual no fundo o protagonista não estava destinado, conforme se pode ver pelo seu próprio nome.

Outra simbologia, que faz lembrar a Bíblia, está no fato de os inimigos convencerem-se de que Matraga havia morrido porque os urubus estavam rondando o local de sua queda, já que lá havia, na verdade, morrido um bezerro. Pode-se aproximar Augusto ao animal, na medida em que este faz lembrar a seita primitiva e desregrada condenada por Moisés, em nome de um novo Deus. Era o mesmo que o protagonista estava fazendo. Aliás, ter sido descoberto no fundo do abismo por um casal de pretos velhinhos indica a ressurreição, outro elemento bíblico. Augusto morria para nascer de novo.

Como já se disse, a personagem principal é resgatada e cuidada. Dias inconsciente. Voltando a si, e conhecendo sua situação, deseja a morte. Uma pergunta, nesse ponto, sai da narrativa e chega ao leitor: com tanta desgraça, por que Augusto Matraga não havia morrido?

Com o tempo, o protagonista reconquista a paixão pela vida.

Os meses que passa recuperando-se das feridas e fraturas (uma delas exposta) equivalem a um período de incubação para o nascimento de um novo homem, o que se torna nítido com o arrependimento de seus pecados, a absolvição e o fervor com que abraça ao cristianismo. No seu jeito tosco, fica até cômica a convicção em afirmar que vai para o Céu, nem que seja a porrete.

Começa sua fase de penitências. Vai com os velhinhos a uma propriedade sua perdida e distante. Mostra-se trabalhador, misto de louco e santo no olhar do povo. Seis anos e meio vive assim.

Um dia, sofre uma dura tentação. Um antigo conhecido passa por lá e surpreende-se ao descobrir Matraga, ainda mais, mudado. Traz notícias por demais inconvenientes. Dionóra estava para se casar com Ovídio, crente de que estava viúva. Major Consilva apoderou-se das terras do protagonista. Quim, frouxo e atrapalhado, havia sido o único a se levantar em defesa do patrão, mas fora morto no momento em que, tomado de fúria, entrara nas terras do Major com a intenção de vingança. Mimita, sua filha, havia-se tornado prostituta.

É um momento cruel para Augusto. Deus o havia abandonado? Merecia mesmo o Céu? Mas, como o bíblico Jó, resiste bravamente à tentação de buscar vingança. Não percebe: já estava salvo.

Prova disso é que vem o período de chuvas, que, não por coincidência, é o momento em que Matraga acaba por sentir-se mais leve, aliviado, como se tivesse se livrado de um grande fardo. As águas, opondo-se ao pó de outras épocas, simbolizam o batismo, a sublimação, a elevação.

Por esse momento surge o bando de Joãozinho Bem-Bem, homem da mesma estirpe do antigo Augusto Matraga. Suas intenções provavelmente eram malévolas naquela região, mas o amor e a dedicação com que o protagonista o recebe o desarma.

O bandido intui o poder bélico de Matraga, por isso o convida a fazer parte da horda. É uma forte tentação: o herói sente saudade do poder de desmando que possuía. Imagina até a possibilidade de vingar a morte de Quim. Mas resistiu a mais essa tentação. Estava evoluindo a passos largos.

Joãozinho Bem-Bem parte, deixando Matraga, mas levando uma afeição enorme pelo protagonista.

Dias depois, enquanto Augusto trabalhava, presencia uma belíssima explosão de pássaros voando (os pássaros são vistos como psicopompos, ou seja, entidades que têm contato com o outro mundo. Assim, podem ser vistos como uma ponte com o tão desejado Céu, ou pelo menos mensageiros divinos. Indicam, pois, que a salvação está próxima de se concretizar).

Intui algo maravilhoso, que o faz ficar matutando o dia inteiro. Até que toma uma resolução: decide partir. O interessante é que faz sua viagem em um jumento, animal carregado de simbologia cristã, pois havia carregado Maria às vésperas do nascimento de Cristo. Carregara, pois, o salvador. A aproximação Messias/Augusto não parece forçada.

Matraga viaja muitos dias, até chegar ao arraial do Rala-Coco, que estava em polvorosa. O bando de Joãozinho Bem-Bem lá estava, prestes a realizar um crime hediondo.

Um dos capangas do facínora o havia abandonado, ação que fora considerada traição. Joãozinho resolve se vingar em cima da família deste, querendo assassiná-la. No momento em que Augusto havia chegado, o pai do fugitivo tinha aparecido e pedido clemência pela vida de inocentes. A fúria do criminoso parecia não ter limite, pois já estava prestes a se derramar sobre o idoso.

É nesse instante que Augusto Matraga intercede. Mesmo havendo um enorme apreço entre Joãozinho e o herói, os dois começam a se desentender. O bandido está tomado de um maligno espírito vingativo. O protagonista está defendendo a bondade divina, sempre pedindo para seu opositor evitar uma tragédia injusta, sempre clamando pelo nome de Deus.

O inevitável acontece. Há uma terrível luta, muito bem narrada. Tiros de todos os lados. Os dois saem feridos, mas Matraga, sempre invocando o nome do Senhor e pedindo para seu amigo se arrepender dos pecados, acaba vencendo, rasgando a barriga de Joãozinho, que morre segurando nas mãos suas entranhas.

Augusto Matraga estava morrendo, mas contente. Aclamado como santo e salvador entre o povo que tenta socorrê-lo, ainda tem tempo para fazer com que respeitassem o cadáver de Joãozinho Bem-Bem, mandando que o enterrassem dignamente. Ainda teve tempo, além disso, de “abençoar” sua filha perdida.

Morre, porque havia chegado a sua hora e a sua vez. Morre, porque finalmente havia realizado sua missão. Morre, porque havia cumprido os planos de um misterioso desígnio divino. Estava salvo. Ia para o Céu.

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