Menu fechado

Seminário de Ratos – Lygia Fagundes Telles

Publicado em 1977, Seminário dos Ratos, de Lygia Fagundes Telles, prova por que sua autora é uma das grandes damas da prosa brasileira (as outras são Clarice Lispector (obviamente) e Nélida Piñon), principalmente no conto.

Seus livros costumam enfocar a classe média paulista, flagrando sempre o seu cotidiano, o que dá a seus textos um tom entre detalhista e realista. No entanto, vai além das caracterizações desses dois rótulos.

Seu tom minucioso faz com que sempre se mergulhe na mente de suas personagens, sondando-lhes sonhos, desejos, devaneios, medos, incertezas, angústias, mas de uma forma que não se aproxima do quase hermetismo de Clarice Lispector, por exemplo. Não é necessário um gigantesco esforço de adaptação e concentração para acompanhar o que está sendo narrado. Portanto, pode também se rotulado como literatura intimista.

Fica também a coincidência entre as duas damas na medida em que há a predominância pelas personagens mulheres (mesmo quando o protagonista é masculino, como em “Sauna”, pode-se perceber que tal personagem só existe para que se possa avaliar os efeitos de suas atitudes diante das mulheres) e as dificuldades do seu existir, o que faria críticos apressados classificarem uma e outra como literatura feminina.

Deve-se adiantar que essa rotulação seria por demais limitante, tal o alcance que suas obras têm no questionamento tanto existencial quanto social.

Mas não se deve perder de vista que os contos de Lygia Fagundes Telles são carregados de simbologia, o que seria esperado, graças à concisão que caracteriza essa forma narrativa. Porém, no caso de Seminário dos Ratos, tal procedimento empurra o texto tanto para o fantástico quanto para o mágico.

Cabem aqui definições. Entende-se por fantástica a narrativa que apresenta elementos que fogem à lógica com que entendemos o mundo, provocando estranhamento tanto no leitor quanto nas personagens. É o que ocorre no primeiro conto, “As Formigas”.

No entanto, quando esse estranhamento não se processa entre as personagens, que acabam instaurando uma nova lógica de mundo, passa-se então a ter o mágico, também chamado realismo mágico. É o que, de certa forma, ocorre no terceiro conto, “Tigrela”.

A seguir, o resumo comentado dos contos que compõem Seminário dos Ratos.

“As Formigas” – Conto fantástico que nos faz entrar no universo da autora e suas constantes viagens pelo universo feminino, talvez o mais sensível ou disponível para prestar atenção às questões da existência. Trata-se de duas primas universitárias, uma delas a narradora, que se vão instalar num quarto alugado numa casa tão decrépita quanto a sua dona, que, apesar da idade, usa uma destoante peruca preta (é interessante notar que a descrição que se faz da peruca (era mais negra que a asa da graúna) estabelece uma intertextualidade com Iracema, de José de Alencar. Esse recurso é muito comum na obra, havendo referências que vão de Olavo Bilac até à Divina Comédia).

Curioso é perceber que não há presença masculina alguma no texto, apenas a menção a um antigo inquilino do quarto em que as meninas estão se instalando e os ossos que ele havia deixado no cômodo. Uma das garotas, estudante de Medicina, interessa-se pelos restos, ainda mais quando descobre que são de um anão, o que os torna de extrema raridade.

O mais incrível é que no meio da noite o quarto das moças é tomado por um cheiro ruim (bolor?) e por formigas que não se sabe de onde vêm, mas que se dirigem claramente para o recipiente em que estavam guardados os ossos, justamente embaixo da cama (esse lugar é riquíssimo de simbologia psicológica, estando ligado ao inconsciente e a pensamentos que são exilados, escondidos lá. Haveria aqui uma menção à sexualização, constantes nos sonhos da protagonista?) da estudante de Medicina.

E, para aumentar o tom macabro, a narradora havia sonhado com um anão (os ossos corporificados) de olhos azuis a olhar para ela. Eis uma presença masculina inquietante. Quando a prima da narradora vai verificar se não havia algum resíduo que na caixa que pudesse atrair as formigas, nota que os ossos tinham sua posição mexida, pois a cabeça, que estava no fundo, passara para a posição superior.

Matam os insetos. No dia seguinte, não há resto algum deles, sendo que ninguém havia feito a limpeza do quarto. Na madrugada seguinte, quando a protagonista tem outro pesadelo, em que havia marcado encontro com dois namorados no mesmo local e hora, é acordada pela prima, que comunica o retorno das formigas.

E, completando o clima assustador, os ossos haviam mudado mais uma vez de posição, estando a cabeça entre os ombros e a coluna recompondo-se. Estaria então o anão se reconstituindo. Diante desse mistério, a futura doutora resolve passar a noite em claro e descobrir de onde vinham as formigas.

Mas adormece, assim como a narradora. Esta última é acordada aos sustos pela parenta. As formigas haviam voltado e o esqueleto estava quase reconstituído, faltando apenas um osso da perna e outro do braço. Fogem desabaladamente da casa.

“Senhor Diretor” – Mergulhamos aqui na mente de Maria Emília, uma idosa que está indignada com o comportamento mal-educado e principalmente erotizado e indecente dos tempos modernos. Tudo se desencadeia simplesmente porque vê a capa de uma revista com um casal esportivo banhando de água (introduz-se aqui a simbologia da umidade, sempre ligada a erotismo e sexualização). A protagonista pensa então em redigir uma carta ao diretor do Jornal da Tarde denunciando a “decadência” dos costumes. Essa missiva acaba se tornando algo semelhante a uma prece dirigida a alguém que pode ser visto como Deus, já que, ligado à Imprensa, teria alguma influência no mundo.

Nota-se, pois, o desamparo da personagem, em busca de uma regularidade e de uma proteção perdidas (ou talvez nunca alcançadas, mas sempre desejadas, muito mais agora na fase final da vida). O problema é que a protagonista nunca consegue ser objetiva na organização de seu texto, sempre se perdendo em devaneios que vão entregando o porquê de seu comportamento. A educação que sofrera fora castradora, fazendo-a sentir vergonha até mesmo na hora de fazer exame ginecológico. Tornou-se uma virgem encruada, o que se percebe pela forma escandalizada com que se refere às aventuras amorosas e inúmeros casamentos de sua amiga de colégio, Mariana.

Esta, é uma explosão de sensualidade, vestindo-se de forma sedutora mesmo alcançada a velhice, afastada por plásticas. Aquela, mergulhando numa forma azeda de encarar o mundo, querendo corrigir tudo e todos. Assexuada (ou até recalcada (entende-se por recalque a energia sexual que, quando não realizada, acaba vertendo para outras manifestações, como manias e perversões), passa a ser a certinha, cobrando ética, educação, bons costumes.

Os outros, sexualizados, são corrompidos. Algumas de suas críticas até que são coerentes, mas como estão muito calcadas no elemento sexual, que está próximo do afetivo, percebemos que, por mais firme que se apresente, é uma personagem infeliz, que estragou sua existência na defesa de uma virtude, anulando o prazer de viver.

“Tigrela” – O título já condensa muito do que se encontrará no conto: a fusão entre “tigresa” e “ela”, ou seja, entre o mais sensual dos animais e a mulher.

Seria a feminilidade elevada a uma potência inimaginável. A narradora relata o encontro que teve com uma amiga bêbeda e há muito não vista, Romana. Decepcionada com os relacionamentos amorosos, principalmente com o último, Yazbeck, entrega-se a uma tigresa, Tigrela. No começo percebe-se que esse animal, trazido ainda filhote, tem um comportamento caprichoso, pois em muito se assemelha ao humano.

Possui vaidade, pois adora passear com jóias pelo apartamento (mais uma mansão vertical, pois dotada de jardim interno). Tem momentos de angústia, detonados quando fica bêbada, o que faz sua dona trancar todas as janelas, pois sente que se detona aí um instinto suicida no bicho. E é ciumenta. Eis o principal motivo que fez mergulhar sua dona numa bebedeira.

Sabe que Yazbeck havia dormido no apartamento, o que a faz imaginar que o antigo relacionamento estaria sendo retomado. Passa a não se alimentar, pois mais que a dona insista. Então, para aliviar seu sofrimento (ou se livrar de um incômodo), dá-lhe álcool misturado ao leite, sai do apartamento, deixando providencialmente as janelas abertas.

Fica na expectativa de que, quando voltar, o porteiro lhe comunicará que uma jovem nua havia-se atirado do prédio. Instaura-se, surpreendentemente, no final a idéia de que a tigresa deveria na realidade ser uma mulher de fato.

“Herbarium” – Conto lírico e cheio de simbologias que narra um enlace um tanto platônico entre uma sobrinha, ainda na infância, e o seu tio botânico, que parece estar acometido de uma doença grave, provavelmente mortal, mas muito que tangencialmente mencionada. É que a história se passa numa época em que tais assuntos eram velados.

Trata-se, pois, de mais uma narrativa memorialista, em que a protagonista retoma o passado, mas de forma fiel à lógica da infância, o que torna mais saboroso ainda o texto. Debilitado como está o tio, a sobrinha tem como função colher folhas para os estudos dele. Uma delas tinha a forma de coração, o que simbolicamente estabelece o laço entre os dois. No final acha uma folha em forma de foice com manchas vermelhas.

É um nítido símbolo da morte. Esconde-a. Coincidência ou não, fica sabendo e depois pôde se certificar com seus próprios olhos que uma mulher surgira para levar embora o tio. Era o final doloroso do relacionamento. Na despedida, acaba, forçada pelo tio, a entregar a folha que tanto escondera. A morte (Do relacionamento? Do tio?) tornava-se explícita.

“A Sauna” – Este é o mais extenso conto de Seminário dos Ratos e também o mais denso. Acompanhamos os pensamentos de um pintor e seus flashbacks iniciados quando sente, na sauna em que vai entrar, o cheiro de eucalipto, o que faz o protagonista lembrar-se de Rosa, que gostava de aromas, inclusive esse. De Rosa salta-se rapidamente para Marina, que tinha uma curiosidade inquietante sobre a outra mulher. Pelas lembranças que carrega das duas mulheres (e de tantas outras), acabamos delineando o caráter do artista. Unira-se a Rosa, que lhe dera praticamente tudo, a começar da inspiração para um quadro que lhe engatilhara o sucesso.

A mulher largou o emprego para poder cuidar das molduras de seus quadros. Mandou seu tio mudo, única companhia, para um asilo, para que o pintor tivesse mais espaço para sua arte. Vendeu sua única casa para que ele pudesse viajar para a Europa e evoluir artisticamente. Abortou para que um filho não atrapalhasse os planos dele.

No final, acaba abandonando-a, em parte porque não precisava mais dela, em parte porque havia criado um novo círculo de amizades, em parte porque ela havia engordado (na verdade, sua obesidade pode ser entendida como fruto de uma compulsão por comer, ou seja, uma compensação para a frustração amorosa que estava sentindo). Em Paris, conhece Marina, com quem se casa, imaginando nadar na riqueza do pai dela.

Descobre pouco depois que o homem era sovina e tão cedo não iria ver o dinheiro sonhado. Mas, rapidamente o sucesso (e não a qualidade artística, conforme o próprio protagonista percebe) o fez independente economicamente. No entanto, não alcança a felicidade no casamento, pois a traição que comete com Carla (que depois é cruelmente obrigada a abortar) e tantas outras acaba por apodrecer o relacionamento. Mas, diferente de Rosa, a esposa acaba emancipando-se, no mesmo momento em que se dedica ao movimento feminista.

A frieza e a ironia com que ela encara o comportamento do marido dão-lhe uma superioridade que lhe é incomodante. Chega a fulminar o artista com uma pergunta que fica torturando incessantemente a mente dele: já havia chegado a amar alguma vez na vida? Atordoado, vai a uma sauna (por conselho da esposa, provavelmente). A entrada nesse ambiente pode ser comparada à ida ao inferno, pois é lá que se manifestam todas essas lembranças e reflexões misturadas com um princípio de remorso, que não a se efetivar completamente, tal o caráter defeituoso do protagonista.

O clímax ocorre na explosão de choro, em que suas lágrimas acabam-se misturando ao suor. Sente-se expurgado. Mas não há garantias de que seu caráter mudou.

Curioso nesse conto é o denso conjunto de elementos psicológicos que podem ser rastreados nele. Há algo de edípico no protagonista, pois possui um relacionamento problemático com o pai, não o enxergando com respeito. Já a ligação que estabelece com a mãe é fortemente afetiva, idealizando-a completamente.

E o seu erro pode ser visto nas transferências que faz de elementos da progenitora nas amantes dele. Engravida Rosa no momento em que ela estava vestida de preto. Não se deve esquecer que sempre se lembrava da mãe e do vestido dela quando olhava para o céu estrelado. O comportamento firme de Marina, dominador, pode ser facilmente associado à superioridade materna.

Além de tudo isso, para piorar a situação há algo que incestuoso na maneira sensual com que se refere à própria irmã, que no final acaba prostituta.

“Pomba Enamorada ou Uma História de Amor” – Outra narrativa que apresenta a figura masculina como grosseira. Numa narrativa em terceira pessoa, acompanhamos as desventuras do decorrer do tempo de uma mulher que se apaixona, ainda na adolescência, por uma figura ríspida, Antenor. É uma obsessão que vai até a velhice.

No começo, perseguia-o insistentemente, seja ao telefone, seja indo até o local de trabalho dele. Não desiste nem mesmo quando fica sabendo do casamento do objeto amado. Tenta suicídio, frustrado. Recupera-se e diz ter amadurecido e nunca mais querer incomodá-lo. No entanto, faz questão de escrever uma carta para Antenor, para deixar tal resolução clara.

O tempo passa e ela, sempre descobrindo o endereço dele, até a nova profissão (de mecânico passara a motorista de ônibus) manda cartas, falando do casamento dela, enviando notícias dos filhos dela. No final, já com filhos crescidos, um deles casado, vai à cartomante e esta lhe diz que um grande amor iria entregar-se a ela na rodoviária no domingo próximo. Sua ida ao terminal de ônibus engraçadamente indica que nada havia mudado no coração da sonhadora.

“WM” – Conto em primeira pessoa que narra a história de Wlado, personagem problemática, graças à infância solitária a que fora jogado, pois sua mãe, famosa atriz, não tinha paciência, disposição e tempo para gastar com os filhos. Quando alcança a velhice, o abandono a que fora relegada a torna mais reclusa e amarga.

A única companhia que encontra é a irmã, Wanda. Ela é que o alfabetiza. É daí que vem o título do conto. Wlado tinha dificuldade em escrever seu nome por causa do “w”; ela ensina-o que bastava imaginar essa letra com um “m” de ponta cabeça, como se estivesse plantando bananeira. Ludicamente ele se encanta com a idéia e passa povoar tudo ao seu redor com as duas letras. Eis aqui a grande simbologia do conto. W e M parecem a mesma realidade, a mesma personalidade, mas invertidas ou mesmo enrustidas, disfarçadas.

É o que se processou na mente de Wando. Por todos os lados, WM aparece. É Wanda marcando seu espaço. Tudo fica preocupante quando se torna uma obsessão. O casco da tartaruguinha é marcado com essas letras. Mais para frente, em plena passagem da adolescência para a juventude, quando se apaixona por uma prostituta chinesa, Wing (sempre o “w”), as duas letras aparecem tatuadas nos seis dela. O protagonista sente que sua irmã está perturbada. Mas descobrimos que ele é que está perturbado, pois sua mãe avisa que Wanda havia morrido há muito tempo e que ele não devia pensar mais nela.

Nota-se, pois, que, em meio a solidão, Wlado havia tornado Wanda sua amiga invisível, praticando suas ações e imaginando que tinha sido ela. É o que acontece quando Wing é assassinada. Na verdade, ele pensa que a tatuagem havia sido feita pela irmã e que Wing a queria proteger. Vai para o psiquiatra, Doutor Werebe (o “w”!), na certeza de que estará ajudando a tratar a irmã. Não percebe que é ele o tratado.

“Lua Crescente em Amsterdã” – Narrado em terceira pessoa, esse é outro conto que apresenta as agruras surgidas quando se acaba o amor. Um casal encontra-se em mendicância, a moça chegando a pedir exageradamente por gestos (não sabia falar holandês, língua de onde estavam) um pedaço da fatia do bolo que uma menina que por ali passava comia, assustando-a.

Percebe-se que os dois entregaram-se a essa aventura pelo mundo em nome do amor, que acaba corroído. Findo esse sentimento, sobram a impaciência dela, fruto talvez de uma disfunção mental dela, e a tolerância dele. Terminam por dormir no banco da praça, não sem antes expressarem seus respectivos últimos desejos: ele queria ser um passarinho; ela, uma borboleta.

Há uma mudança de ponto de vista, a narração acompanhando a menina holandesa que, com um novo pedaço de bolo, procurava o casal faminto. Só encontra, no banco em que achava que estaria a dupla, um passarinho bicando ferozmente uma borboleta.

“O X do Problema” – Conto jocoso em terceira pessoa que narra a atenção que uma família pobre dá a um show televisivo que promete dar um milhão se o concorrente Aryosvaldo responder todas as perguntas sobre a Marquesa de Santos. O pai-telespectador torce pelo competidor. A mãe sabe todas as fofocas e tudo sobre a vida do Ary. E o filho tem informações sobre a possibilidade de tudo não passar de armação.

O engraçado é que, primeiro, a televisão recusa-se a funcionar direito, mais atrapalhando do que deixando ser assistida. Além disso, começa a cair uma chuva terrível e paira no ar a possibilidade de haver mais outra enchente. É interessante notar como Aryosvaldo, homem simples, acaba sendo a válvula de escape dentro de um cotidiano massacrante. Acompanhar a sua vitória é esquecer a vida miserável e imaginar-se também um vencedor.

“A Mão no Ombro” – Conto em terceira pessoa que começa com a narração de um sonho que o protagonista tem, todo recheado de idéias ligadas a morte: Cristo crucificado, trapezista acidentado. No jardim em que o personagem principal se vê, sente que alguém vem por trás tocar-lhe o ombro. Assustado, pois intuí que se trata da morte, acorda imediatamente. A partir de então, resolve começar o seu dia de forma diferente, como se estivesse diante dos seus últimos momentos.

Vive o seu momento, dando especial atenção a tudo o que se refere ao simples, mas importante ato de viver. Estava, de uma certa forma, preparando-se para a morte. No instante em que prepara o carro para sair, vê-se fantasticamente no mesmo jardim do sonho. Já não tem mais medo da mão que vai tocar seu ombro.

“A Presença” – Outro tema muito comum surge aqui: a amarga experiência do envelhecimento. Apresenta-se, nessa narrativa em terceira pessoa, um jovem que resolve hospedar-se num hotel em que só havia idosos. O recepcionista tenta por todas as formas demover o rapaz de tal atitude. Primeiro, lembra que o ritmo de hotel não condizia com o da juventude, tornando-se, portanto, enfadonho. Inútil argumento.

Declara, então, o motivo real: sua jovialidade iria ser ofensiva para os anciães, que se enclausuraram ali para não lembrarem mais da época em que tinha mais ânimo de vida. Inútil. Por fim, lembra que sua integridade corria risco, pois sua presença poderia atiçar ânimos negativos. Mas, o jovem instala-se, dando-se até ao luxo de nadar na piscina, exibindo toda a exuberância de seu corpo moço. No jantar, estranha o gosto amargo da goiabada com queijo. Fica nas entrelinhas a informação de que fora envenenado.

“Noturno Amarelo” – A protagonista, Laura, parece ser o equivalente feminino do protagonista de “Sauna”. Quando vai visitar a casa de seus avós, acaba vendo-se da referida residência.

Sabemos que não havia trazido o espelho para a Ducha, criança cheia de vida, roubara a torre do avô, fazendo perder no xadrez, roubara o noivo da prima, Eduarda, mas logo depois acaba abandonando-o. Rodrigo (este é o nome dele) acaba tentando o suicídio. A visita da personagem principal é, portanto, uma forma de se apaziguar com os parentes.

Acerta-se com a prima que, como prova de que a havia perdoado, dá-lhe uma argola. Acerta-se com Rodrigo, mas este de repente some, assim como os vários familiares, até que ela se vê completamente sozinha. Como num sonho, volta a ser ver no carro em que estava, diante da casa em que ainda iria entrar.

“A Consulta” – Outro conto engraçadíssimo. Um paciente do Dr. Ramazian, Max, recebe a incumbência de anotar os recados telefônicos durante a ausência daquele, já que a secretária havia faltado. Um mal-entendido ocorre: surge, antes do horário combinado – tal o desespero em que se encontrava – um homem mergulhado no medo terrível da morte. Essa apreensão havia atingido o nível próximo da mania ou da loucura.

Surpreendente, Max, fazendo-se passar pelo Dr. Ramazian, aconselha o desesperado a enfrentar aquilo de que mais tem medo. Em outras palavras: para vencer o medo da morte, devia matar-se imediatamente.

Interessante é notar neste conto a divisa tênue que fica entre loucura e sanidade, já que Max, nada equilibrada, usa todo um raciocínio sutil e bem arquitetado. Sem contar as citações e observações sábias que faz.

“Seminário dos Ratos” – Conto em terceira pessoa que apresenta uma alegoria de nossas estruturas político-burocráticas. Trata-se da narrativa da preparação do Sétimo Seminário dos Ratos em que até especialistas estrangeiros são chamados para discutirem a eliminação da superpopulação desses roedores, por demais nociva.

Só que há mais preocupação com o conforto e as aparências do encontro do que com a solução dos problemas, tanto que já era o sétimo a ser realizado. No final, os ratos dominam o lugar, devorando e destruindo tudo. É uma clara crítica a ineficiência do nosso Estado.

Veja também: