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Sonetos – Bocage

Entre os nomes que participaram do Arcadismo, destaque deve ser dado a Bocage (cujo pseudônimo era Elmano Sadino), principalmente aos seus sonetos, textos tão bem elaborados que fazem seu autor um dos três melhores sonetistas da língua portuguesa.

Em seu tempo, sua fama tornou-se mais imediata entre os jovens, graças ao seu caráter fescenino, muitas vezes chegando a utilizar linguagem chula. É o que se pode perceber abaixo.

Lá, quando em mim perder a humanidade
Mais um daqueles que não fazem falta,
Verbi-gratia o teólogo, o peralta,
Algum duque, ou marquês, ou conde, ou frade;

Não quero funeral comunidade,
Que engrole sub-venites em voz alta;
Pingados gatarrões, gente de malta,
Eu também vos dispenso a caridade;

Mas quando ferrugenta enxada idosa
Sepulcro me cavar em ermo outeiro,
Lavre-me este epitáfio mão piedosa:

“Aqui dorme Bocage, o putanheiro;
Passou vida folgada e milagrosa;
Comeu, bebeu, fodeu sem ter dinheiro”.

Este é um soneto bastante jocoso, graças à sua última estrofe, em que o poeta indica qual deve ser o seu epitáfio, resumindo sua vida em comer, beber e “foder” sem ter dinheiro. Lembrando Gregório de Matos Guerra, o poeta consegue fugir dos padrões acadêmicos, graças à utilização de elementos chulos, mas não perde qualidade literária.

Outro aspecto digno de nota é a crítica dirigida àqueles que não fazem falta à humanidade: nobres e religiosos. De fato, essas duas classes foram vítimas prediletas da poesia satírica de Elmano Sadino, que se tornou notadamente feroz. Muitas vezes seu furor é tamanho que chega a desobedecer o que hoje seria considerado o politicamente correto. É o que se nota no texto abaixo.

Tu, Goa, in illo tempore cidade,
Sempre tens habitantes de bom lote!
Não receiam que a cor se lhes desbote,
Privilégio da mista qualidade:

Nenhuma há, que não conte, e sem vaidade,
Que seu primeiro avô, brutal Quixote,
Dera no padre Adão com um chicote
Por lhe haver disputado a antiguidade:

Diz-nos esta república de loucos
Que o cofre de Marata é ninharia,
Que do grão-Turco os réditos são poucos:

Mas em casando as filhas, quem diria
Que o dote consistisse em quatro cocos,
Um cafre, dez bajus, e a senhoria!

Nesse poema temos um vislumbre do caráter ferino da poesia satírica de Bocage. Nele, desqualifica-se a antigüidade e o valor da nobreza de Goa (Índia).

O pecado apontado seria, portanto, o da presunção. E para realizar suas críticas Elmano Sadino não consegue evitar um certo preconceito racial, o que faz lembrar a poesia satírica de Gregório de Matos Guerra. Ambos, como brancos portugueses, consideram-se superiores aos nativos das colônias lusitanas.

Mas sua produção não se restringe apenas ao aspecto satírico.
O melhor de seu lavor literário concentra-se na poesia lírica, que pode ser dividida em árcade e pré-romãntica. Do primeiro grupo, podemos destacar o poema abaixo.

Olha, Marília, as flautas dos pastores
Que bem que soam, como estão cadentes!
Olha o Tejo a sorrir-se! Olha, não sentes
Os Zéfiros brincar por entre as flores?

Vê como ali beijando-se os Amores
Incitam nossos ósculos ardentes!
Ei-las de planta em planta as inocentes,
As vagas borboletas de mil cores!

Naquele arbusto o rouxinol suspira,
Ora nas folhas a abelhinha pára,
Ora nos ares sussurrando gira:

Que alegre campo! Que manhã tão clara!
Mas ah! Tudo o que vês, se eu te não vira,
Mais tristeza que a morte me causara.

Esse poema prova que não se deve imaginar como um procedimento estanque a classificação da poesia bocageana entre fase árcade e fase pré-romântica. Note o espetáculo de características árcades nos doze primeiros versos: pastoralismo (verso 1), mitologia clássica (vv. 4 e 5), bucolismo, lugar aprazível.

No entanto, esses não são elementos suficientes para dar valor ao texto, pois não saem dos clichês, do que era comum dentro do Neoclassicismo. O seu trunfo está nos dois últimos versos, que mantêm um contato fortíssimo com o Romantismo.

Neles a natureza apresenta-se dinâmica, pois é capaz de mudar conforme o estado de espírito do eu-lírico, no fundo comandado pela amada. É o que na próxima escola vai-se chamar “natureza expressiva da emoção”, oposta ao ideal de natureza convencional ou estática do Setecentismo.

Essa efusão emotiva mostra-se muito mais forte em outros sonetos, de teor tipicamente pré-romântico, como o transcrito a seguir.

Já Bocage não sou!… À cova escura
Meu estro vai parar desfeito em vento…
Eu aos Céus ultrajei! O meu tormento
Leve me torne sempre a terra dura:

Conheço agora já quão vã figura
Em prosa e verso fez meu louco intento;
Musa!… Tivera algum merecimento
Se um raio da razão seguisse pura!

Eu me arrependo; a língua quase fria
Brade em alto pregão à mocidade,
Que atrás do som fantástico corria:

Outro Aretino fui… A santidade
Manchei!… Oh! Se me creste, gente impia,
Rasga meus versos, crê na eternidade!

As histórias, reais ou fictícias, a respeito de Bocage já se tornaram bastante folclóricas, principalmente as ligadas à sua conversão à religiosidade, fazendo-o renegar seu passado “insano”. O soneto em questão é um exemplo cabal disso.

Deixando de lado se a lavagem cerebral provocada pelo Catolicismo foi prejudicial ou não a Elmano Sadino, já que a qualidade do seu texto é o que importa, nota-se que este poema apresenta muitos elementos que o aproximam do Romantismo, como a valorização da morte, no arrependimento, na autopiedade e no forte pessoalismo (veja que o nome do poeta aparece no primeiro verso).

O que o prende ainda ao Arcadismo é a forma fixa e o torneio frásico típico das eras clássicas.

Para reforçar o que foi exposto, importante é analisar o poema abaixo.

Meu ser evaporei na lida insana
Do tropel das paixões, que me arrastava;
Ah! Cego eu cria, ah! mísero eu sonhava
Em mim quase imortal a essência humana:

De que inúmeros sóis a mente ufana
Existência falaz me não dourava!
Mas eis sucumbe Natureza escrava
Ao mal, que a vida em sua orgia dana.

Prazeres, sócios meus, e meus tiranos!
Esta alma, que sedenta em si não coube,
No abismo vos sumiu dos desenganos:

Deus, oh Deus!… Quando a morte à luz me roube
Ganhe um momento o que perderam anos,
Saiba morrer o que viver não soube.

O conjunto da poesia de Bocage tem como grande tema o conflito entre razão e sentimento. Esse embate mostrou-se tão intenso que deixou o poeta vacilar por boa parte de sua existência entre um pólo e outro, nunca chegando de fato a decidir-se.

O soneto em questão, pois, é fruto de um momento em que a razão vencia, fazendo Elmano Sadino arrepender-se de sua existência dedicada à emotividade, conforme os magistrais dois primeiros versos.

O interessante é notar o poeta usando um tom emotivo para renegar sua própria emotividade exagerada. Assim, o tom de arrependimento e a emotividade, além da fixação na idéia de morte, aproximam o poema do Romantismo.

A entrega só não é completa a essa escola por causa do torneio frásico típico das eras clássicas, além do racionalismo ainda presente na forma do soneto.

Por toda essa riqueza temática e formal, Bocage torna-se não apenas um dos pontos máximos do Arcadismo Lusitano, mas também autor das maiores experiências literárias da língua portuguesa.

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