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Tutaméia (João Guimarães Rosa)

PREFÁCIOS:

Aletria e hermenêutica

Hipotrélico

Nós, os temulentos

Sobre a escova e a dúvida

OS CONTOS:

Antiperipléia

Arroio-das-Antas

A vela ao diabo

Azo de almirante

Barra da Vaca

Como ataca a sucuri

Curtamão

Desenredo

Droenha

Esses Lopes

Estôria nº 3

Estoriinha

Faraó e a água do rio

Hiato

Intruge-se

João Porém, o criador de perus

Grande Gedeão

Reminisção

Lá, nas campinas

Mechéu

Melim-Meloso

No prosseguir

O outro ou o outro

Orientação

Os três homens e o boi

Palhaço da boca verde

Presepe

Quadrinho de estória

Rebimba, o bom

Retrato de cavalo

Ripuária

Se eu seria personagem

Sinhá Secada

Sota e barla

Tapiiraiauara

Tresaventura….

—Uai, eu?

Umas formas …

Vida ensinada…

Zingaresca

Geração de 45

Após a Fase de Consolidação, 1930 a 1945, reunin-

do a literatura de caráter regionalista, surge uma nova geração de escritores brasileiros, aquela que seria chamada de Universalista, a Geração de 1945. Trouxe para a ficção nacional um caráter experimental, usando recursos lúdicos para aprimorar o romance brasileiro.

Podemos notar nesta nova geração algumas tendências básicas: a permanência do testemunho humano; a atração pelo trans-real, numa tentativa de justificar a condição humana por sua projeção no mundo mítico da arte; e a redescoberta da linguagem, como um elemento de comunicação e gerador da realidade.

Nesta fase universalista surgem dais autores importantíssimos na Literatura Brasileira: Guimarães Rosa e

Clarice Lispector, também chamados de autores instrumentalistas por tomarem a palavra como um instrumento do trabalho poético e não apenas como um veículo condutor de idéias. Nesse aspecto, notamos que toda a confecção das personagens e a trama em que se envolvem instalam poeticamente na linguagem que utilizam.

Vida

João Guimarães Rosa nasceu no dia 27 de junho de 1908, em Cordisburgo, Minas Gerais, onde viveu sua influência e fez os seus primeiros estudos, tomando contato com sua futura paixão: a Iíngua.

Seus pais, Floduardo Pinto Rosa, pequeno comerciante, e sua mãe, Francisca Guimarães tiveram mais cinco filhos.

Apesar dos irmãos, Guimarães Rosa passou uma infância solitária, vivendo nesta região de Minas Gerais, marcada palas fazendas e engorda de gado. Dessa época, certa vez, confessou: Não gosto de falar em infância. É um tempo de coisas boas, mas sempre com pessoas grandes incomodando a gente, intervindo, estragando os prazeres. Recordando o tempo de criança, vejo por lá um excesso de adultos, todos eles, mesmo os mais queridos, ao modo de soldados e policiais do invasor, em pátria ocupada. Fui rancoroso e revolucionário permanente, então. Já era míope e, nem mesmo eu, ninguém sabia. Gostava de estudar sozinho e de brincar de geografia. Mas, tempo bom de verdade, só começou com a conquista de algum isolamento, com a segurança de poder fechar-me num quarto e trancar a porta. Deitar no chão e imaginar estórias, poemas, romances, botando todo mundo conhecido como personagem, misturando as melhores coisas vistas e ouvidas .

A partir de 1918, passa a residir em Belo Horizonte e além de seu interesse por línguas, passa a estudar com

afinco as ciências naturais e a geografia. Ao terminar seus estudos secundários, Guimarães Rosa começa a estudar Medicina, enquanto mantém seu interesse pela literatura, chegando a publicar vários contos na revista O Cruzeiro.

Em 1830, formado em Medicina, foi exercer a profissão em Itagurara, município de Itaúna, permanecendo ali

por dois anos e revelando-se um médico dedicado, respeitado e famoso pela precisão de seus diagnósticos. Costumava fazer longas viagens a cavalo, nas quais aproveitava para conviver com pessoas e paisagens que mais tarde iriam povoar seus livros.

Em 1932, ano de Revolução Constitucionalista, Guimarães Rosa voltou a Belo Horizonte e serviu como médico voluntário da Força Pública, onde ingressou mais tarde através de um concurso. Dois anos depois, levado pelo grande interesse por Iínguas, prestou um concurso no Itamarati e em 1938, foi nomeado cônsul-adjunto.

A partir de então, Guimarães Rosa traça uma carreira diplomática, servindo o Brasil em vários países e vivendo’;

em Paris até 1950, atuando como primeiro-secretário e conselheiro da Embaixada brasileira. Em 1951, volta ao Brasil.

Em 1952, faz uma viagem pelo sertão de Minas Gerais com um grupo de vaqueiros. A viagem durou dez dias e dela participou Manuel Narde, vulgo Manuelzão, protagonista de “Uma história de amor’, incluída no volume, Manuelzão e Miguilim.

Sua vida diplomática continua paralelamente à sua produção literária, cada vez mais elaborada e intensa. Em

1963, é eleito para a Academia Brasileira de Letras, porém retardou a sua posse por quatro anos. Quando assumiu, em 1967, faleceu após três dias, de enfarte.

Obras

Contos

Sagarana (1946)

Primeiras Estórias (1962)

Tutaméia: terceiras estórias (1967)

Estas Estórias (1969)

Novelas

Corpo de Baile (1956)

– Manuelzão e Miguilim

– No Urubuquaquá, no Pinhém

– Noites do Sertão

Romance

Grande Sertão: Veredas (1956)

Diversos

Com o Vaqueiro Mariano (1952)

O Mistério dos M M M (1962)

Ave, Palavra (1970)

Comentários críticos

Guimarães Rosa foi um escritor dedicado especialmente às narrativas que têm como objetivo essencial o homem. Esse homem, inicialmente ligado ao sertão, extrapola os limites do regional e universaliza-se, destruindo a mera documentação dos valores locais e do pitoresco da paisagem. Suas questões humanas universais: o amor, o ódio, a traição, a vingança, o ciúme se inserem dentro das personagens sertanejas e se fundem num drama atemporal.

Sua linguagem é extremamente rica em neologismos, retirados da convivência do povo com a língua. Por outro

lado, sua experiência lingüística reúne inovações de todas as espécies, retiradas de outras línguas refundidas na fala coloquial e cotidiana de suas personagens. Guimarães Rosa coloca o homem como um eterno criador em contato com a realidade mágica da vida. Suas aventuras não têm tempo, não têm princípio nem fim.

Certa vez, Guimarães Rosa disse: “Vou Ihe revelar um segredo: creio já ter vivido uma vez. Nesta vida, também fui brasileiro e me chamava João Guimarães Rosa. Quando escrevo, repito o que já vivi antes. E para estas duas vidas, um léxico só não é suficiente. Em outras palavras, gostaria de ser um crocodilo vivendo no rio São Francisco. O crocodilo vem ao mundo como um ‘magister’ da metafísica, pois para ele cada rio é um oceano, um mar de sabedoria, mesmo que chegue a ter cem anos de idade. Gostaria de ser um crocodilo porque amo os grandes rios, pois são profundas como e alma de um homem. Na superfície são muito vivazes e claros, mas nas profundezas são tranqüilas e escuros como o sofrimento dos homens. Amo ainda uma coisa dos nossos grandes rios: sua eternidade.

(In apostilas do Curso Interativo – Bauru-SP)

Tutaméia

João Guimarães Rosa

Paulo Rónai

Toda pessoa, sem dúvida, é um exemplar único, um acontecimento que não se repete. Mas poucas pessoas, talvez nenhuma, lembravam essa verdade com tamanha força como João Guimarães Rosa. Os testemunhos publicados depois de sua morte repentina refletiam, todos, como que um sentimento de desorientação, de pânico ante o irreparável. Desejaria ter-lhes acrescentado o meu depoimento, e no entanto senti-me inibido de fazê-lo. Não estava preparado para sobreviver a Guimarães Rosa: preciso de tempo para me compenetrar dos encargos dessa sobrevivência.

Aqui está, porém, o último livro do escritor, Tutaméia, publicado poucos meses antes da sua morte, a exigir leitura e reflexão. Por mais que o procure encarar como mero texto literário, desligado de contingências pessoais, apresenta-se com agressiva vitalidade, evocando inflexões de voz, jeitos e maneiras de ser do homem e amigo. A leitura de qualquer página sua é um conjuro.

Como entender o título do livro? No Pequeno dicionário brasileiro da língua portuguesa encontramos tuta-e-meia definida por mestre Aurélio como “ninharia, quase nada, preço vil, pouco dinheiro”. Numa glosa da coletânea o próprio contista confirma a identidade dos dois termos, juntando-lhes outros equivalentes pitorescos, tais como “nonada, baga, ninha, inânias, ossos de borboleta, quiquiriqui, mexinflório, chorumela, nica”.

Atribuiria ele realmente tão pouco valor ao volume fórmula como antífrase carinhosa e, talvez, até supersticiosa? Inclino-me para esta última suposição. Em conversa comigo (numa daquelas conversas esfuziantes, estonteantes, enriquecedoras e provocadoras que tanta falta me hão de fazer pela vida afora), deixando de lado o recato da despretensão, ele me segredou que dava a maior importância a este livro, surgido em seu espírito como um todo perfeito não obstante o que os contos necessariamente tivessem de fragmentário. Entre estes havia inter-relações as mais substanciais, as palavras todas eram medidas e pesadas, postas no seu exato lugar, não se podendo suprimir ou alterar mais de duas ou três em todo o livro sem desequilibrar o conjunto. A essa confissão verbal acresce outra, impressa no fim da lista dos equivalentes do título, como mais uma equação: “meaomnia'”. Essa etimologia, tão sugestiva quanto inexata, faz tutaméia vocábulo mágico tipicamente rosiano, confirmando a asserção de que o ficcionista pôs no livro muito, senão tudo, de si. Mas também em nenhum outro livro seu cerceia o humor a esse ponto as efusões, ficando a ironia em permanente alerta para policiar a emoção.

– Por que Terceiras estórias – perguntei-lhe – se não houve as segundas?

– Uns dizem: porque escritas depois de um grupo de outras não incluídas em Primeiras estórias. Outros dizem: porque o autor, supersticioso, quis criar para si a obrigação e a possibilidade de publicar mais um volume de contos, que seriam então as Segundas estórias.

– E que diz o autor?

– O autor não diz nada – respondeu Guimarães Rosa com uma risada de menino grande, feliz por ter atraído o colega a uma cilada.

Mostrou-me depois o índice no começo do volume, curioso de ver se eu lhe descobria o macete.

– Será a ordem alfabética em que os títulos estão arrumados

– Olhe melhor: há dois que estão fora da ordem.

– Por quê?

– Senão eles achavam tudo fácil.

“Eles” eram evidentemente os críticos. Rosa, para quem escrever tinha tanto de brincar quanto de rezar, antegozava-lhes a perplexidade encontrando prazer em aumentá-la. Dir-se-ia até que neste volume quis adrede submetê-los a uma verdadeira corrida de obstáculos.

Seria esse o motivo principal da multiplicação dos prefácios, de que o livro traz não um, mas quatro?

Prefácio por definição é o que antecede uma obra literária. Mas no caso do leitor que não se contenta com uma leitura só, mesmo um prefácio colocado no fim poderá ter serventia.

Estórias à primeira vista, num segundo relance os prefácios hão de revelar uma mensagem. Juntos compõem ao mesmo tempo uma profissão de fé e uma arte poética em que o escritor, através de rodeios, voltas e perífrases, por meio de alegorias e parábolas, analisa o seu gênero, o seu instrumento de expressão, a natureza da sua inspiração, a finalidade da sua arte, de toda arte.

Assim “Aletria e hermenêutica” é pequena antologia de anedotas que versam o absurdo; mas é, outrossim, uma definição de “estória” no sentido especificamente guimaraes-rosiano, constante de mostruário e teoria que se completam. Começando por propor uma classificação dos subgêneros do conto, limita-se o autor a apontar germes de conto nas “anedotas de abstração”, isto é, nas quais a expressão verbal acena a realidades inconcebíveis pelo intelecto. Suas estórias, portanto, são “anedóticas” na medida em que certas anedotas refletem, sem querer, “a coerência do mistério geral que nos envolve e cria” e faz entrever “o supra-senso das coisas”.

“Hipotrélico” aparece como outra antologia, desta vez de divertidas e expressivas inovações vocabulares, não lhe faltando sequer a infalível anedota do português. E é a discussão, às avessas, do direito que tem o escritor

de criar palavras, pois o autor finge combater “o vezo de palavrizar”, retomando por sua conta os argumentos de que já se viu acossado como deturpador do vernáculo e levando-os ao absurdo: põe maliciosamente a vista as inconseqüências dos que professam a partenogênese da língua e se pasmam ante os neologismos do analfabeto, mas se opõem a que “uma palavra nasça do amor da gente”, assim “como uma borboleta sai do bolso da paisagem”. A “glosação em apostilas” que segue esta página reforça-lhe a aparência pilhérica, mas em Guimarães Rosa zombaria e pathos são como o reverso e o anverso da mesma medalha. O primeiro “prefácio” bastou para nos fazer compreender que em suas mãos até o trocadilho vira em óculo para espiar o invisível.

“Nós os temulentos” deve ser mais que simples anedota de bêbado, como se nos depara. Conta a odisséia que para um borracho representa a simples volta a casa. Porém os embates nos objetos que lhe estorvam o caminho envolvem-no em uma sucessão de prosopopéias, fazendo dele, em rivalidade com esse outro temulento que é o poeta, um agente de transfigurações do real.

Finalmente confissões das mais íntimas apontam nos sete capítulos de Sobre a escova e a dúvida, envolvidas não em disfarces de ficção, como se dá em tantos narradores, mas, poeticamente, em metamorfoses léxicas e sintáticas.

É o próprio ficcionista que entrevemos de início num restaurante chic de Paris a discutir com um alter ego, também escritor, também levemente chumbado, que lhe censura o alheamento a realidade: “Você evita o espir-

rar e o mexer da realidade, então foge-não-foge.” Surpreendidos de se encontrarem face a face, os dois eus encaram-se reciprocamente como personagens saídas da própria imaginativa, perturbados e ao mesmo tempo encantados com a sua “sociedade” (sic!), tecendo uma palestra rapsódica de ébrios em que o tema do engagement ressurge volta e meia como preocupação central. O Rosa comprometido sugere ao Rosa alheado escreverem um livro juntos; este não lhe responde a não ser através da ironia discreta com que sublinha o contraste do ambiente luxuoso com o ideal “da rude redenção do povo”.

Mas a resposta é acusação de alheamento deve ser buscada também e sobretudo nos capítulos seguintes. Em primeiro lugar, põe-se em dúvida a natureza da realidade através da parábola da mangueira, cada fruta da qual reproduz em seu caroço o mecanismo de outra mangueira; e o inacessível nos elementos mais óbvios do cotidiano real e aduzido, afirmado, exemplificado. Depois de tentar encerrar em palavras o cerne de uma experiência mística, sua, o autor procura captar e definir os eflúvios de um de seus dias “aborígenes” a oscilar incessantemente entre azarado e feliz, até enredá-lo numa decisão irreparável. Possivelmente há em tudo isto uma alusão à reduzida influência de nossa vontade nos acontecimentos, as decorrências totalmente imprevisíveis de nossos atos. A seguir, evoca o escritor o seu primeiro inconformismo de menino em discordância com o ambiente sobre um assunto de somenos, o uso racional da escova de dentes; o que explicaria a sua não-participação numa época em que a participação do escritor é palavra de ordem. Nisto, passa a precisar (ou antes a circunscrever) a natureza subliminar e supraconsciente da inspiração, trazendo como exemplo a gênese de várias de suas obras, precisamente as de mais valor, antes impostas do que projetadas de dentro para fora.

Para arrematar a série de confidências, faz-se o contista intermediário da lição de arte que recebeu de um confrade não sofisticado, o vaqueiro poeta em companhia de quem seguira as passadas de uma boiada. Ao contar ao trovador sertanejo o esboço de um romance projetado, este lhe exprobrou decididamente o plano (talvez, excogitado de parceria com o sósia de Montmartre), numa condenação implícita da intencionalidade e do realismo: “Um livro a ser certo devia de se confeiçoar da parte de Deus, depor paz para todos.”

Arrependido de tanto haver revelado de suas intuições, o escritor, noutro esforço de despistamento, completou o quarto e último prefácio com um glossário de termos que nele nem figuram, mas que representam outras tantas idiossincrasias suas, ortográficas e fonéticas, a exigir emendas nos repositórios da língua.

Absorvidos pelos prefácios, ei-nos apenas no limiar dos quarenta contos merecedores de outra tentativa de abordagem. Quantas vezes, mesmo nesta breve cabra-cega preliminar, terei passado ao lado das intenções es-

quivas do contista, quantas vezes as suas negaças me terão levado a interpretações erradas? Só poderia dizê-lo quem não mais o pode dizer; mas será que o diria?

Descontados os quatro prefácios, Tutaméia, de Guimarães Rosa, contém quarenta “estórias” curtas, de três a cinco páginas, extensão imposta pela revista em que a maioria (ou todas) foram publicadas. Longe de constituir um convite à ligeireza, o tamanho reduzido obrigou o escritor a excessiva concentração. Por menores que sejam, esses contos não se aproximam da crônica; são antes episódios cheios de carga explosiva, retratos que fazem adivinhar os dramas que moldaram as feições dos modelos, romances em potencial comprimidos ao máximo. Nem desta vez a tarefa do leitor é facilitada. Pelo contrario, quarenta vezes ha de embrenhar-se em novas veredas, entrever perspectivas cambiantes por trás do emaranhado de outros tantos silvados. Adotando a forma épica mais larga ou gênero mais epigramático, Guimarães Rosa ficava sempre (e cada vez mais) fiel à sua fórmula, só entregando o seu legado e recado em troca de atenção e adesão totais.

A unidade dessas quarenta narrativas está na homogeneidade do cenário, das personagens e do estilo. Todas elas se desenrolam diante dos bastidores das grandes obras anteriores; as estradas, os descampados, as matas, os lugarejos perdidos de Minas, cuja imagem se gravara na memória do escritor com relevo extraordinário. Cenários ermos e rústicos, intocador pelo progresso, onde a vida prossegue nos trilhos escavados por uma rotina secular, onde os sentimentos, as reações e as crenças são os de outros tempos. Só por exceção aparece neles alguma pessoa ligada ao século XX, à civilização urbana e mecanizada; em seus caminhos sem fim, topamos com vaqueiros, criadores de cavalos, caçadores, pescadores, barqueiros, pedreiros, cegos e seus guias, capangas, bandidos, mendigos, ciganos, prostitutas, um mundo arcaico onde a hierarquia culmina nas figuras do fazendeiro, do delegado e do padre. A esse mundo de sua infância o narrador mantém-se fiel ainda desta vez; suas andanças pelas capitais da civilização, seus mergulhos nas fontes da cultura aqui tampouco lhe forneceram temas ou motivos, o muito que vira e aprendera pela vida afora serviu-lhe apenas para aguçar a sua compreensão daquele universo primitivo, para captar e transmitir-lhe a mensagem com mais perfeição.

Através dos anos e não obstante a ausência, o ambiente que se abrira para seus olhos deslumbrados de menino conservou sempre para ele suas cores frescas e mágicas. Nunca se rompeu a comunhão entre ele e a paisagem, os bichos e as plantas e toda aquela humanidade tosca em cujos espécimes ele amiúde se encarnava, partilhando com eles a sua angustia existencial. A cada volta do caminho suas personagens humildes, em luta com a expressão recalcitrante, procuram definir-se, tentam encontrar o sentido da aventura humana: “Viver é obrigação sempre imediata”; “Viver seja talvez somente guardar o lugar de outrem, ainda diferente, ausente.” “A gente quer mas não consegue furtar no peso da vida.” “Da vida sabe-se: o que a ostra percebe do mar e do rochedo.” “Quem quer viver, faz mágica.” A transliteração desse universo opera-se num estilo dos mais sugestivos, altamente pessoal e no entanto determinado em sua essência pelas tendências dominantes, às vezes contraditórias, da fala popular. O pendor do sertanejo para o lacônico e sibilino, o pedante e o sentencioso, o tautológico e o eloqüente, a facilidade com que adapta o seu cabedal de expressões as situações cambiantes, sua inconsciente preferência pelos subentendidos e elipses, seu instinto de enfatizar, singularizar e impressionar são aqui transformados em processos estilisticos. Na realidade o neologismo desempenha nesse estilo papel menor do que se pensa. Inúmeras vezes julga-se surpreender o escritor em flagrante de criação léxica, recorre-se, porém, ao dicionário, lá estará o vocábulo insólito (acamonco, alarife, avejão, brujajara, cara fuz, chuchorro, esmar, ganja, grinfo, gueta, jaganata, marupiara, nomina, panema, pataratesco, quera, safio, seresma, sessil, uca, vogoroca etc) rotulado de regionalismo, plebeísmo, arcaísmo ou brasileirismo, outras vezes, não menos freqüentes, a palavra nova representa apenas uma utilização das disponibilidades da língua, registrada por uma memória privilegiada ou esguichada pela linspiração do momento (associoso, borralheirar, convidatividade, de extraordem, inaudimento, infinição, inteligentudo, inventação, mal-entender-se, mirificacia, orabolas deles!, reflor!, reminisção etc) Com freqüência bem menor há, afinal, as criações de inegável cunho individual, do tipo dos amálgamas, abusufruto, fraternura, lunático de mel, metalurgir, orfandade, psiquepiscar, utopiedade com que o espírito lúdico se compraz a matizar infinitamente a língua. Porém, as maiores ousadias desse estilo, as que o tornam por vezes contundente e hermético são sintáticas: as frases de Guimarães Rosa carregam-se de um sentido excedente pelo que não dizem, num jogo de anacolutos, reticências e omissões de inspiração popular, cujo estudo está por fazer.

Estonteado pela multiplicidade dos temas, a polifonia dos tons, o formigar de caracteres, o fervilhar de motivos, o leitor naturalmente há de, no fim do volume, tentar uma classificação das narrativas. é provável que a ordem

alfabética de sua colocação dentro do livro seja apenas um despistamento e que a sucessão delas obedeça a intenções ocultas. Uma destas será provavelmente a alternância, pois nunca duas peças semelhantes se seguem. A instantâneos mal esboçados de estados de alma sucedem densas microbiografias; a patéticos atos de drama rápidas cenas divertidas; incidentes banais do dia-a-dia alternam com episódios lírico-fantásticos.

Entre os muitos critérios possíveis de arrumação vislumbra-se-me um sugerido pelo que, por falta de melhor termo, denominaria de atonímia metafísica. Essa figura estilística, de mais a mais freqüente nas obras do nosso autor, surge em palavras que não indicam manifestação do real e sim abstrações opostas a fenômenos percebíveis pelos sentidos, tais como: antipesquisas, acronologia, desalegria, improrrogo, irriticencia, desverde, incogitante, descombinar (com alguém), desprestar (atenção), inconsiderar, indestruir, inimaginar, irrefotar-se etc, ou em frases como “Tinha o para não ser célebre.” Dentro do contexto, tais expressões claramente indicam algo mais do que a simples negação do antônimo: aludem a uma nova modalidade de ser ou de agir, a manifestações positivas do que não é.

Da mesma forma, na própria contextura de certos contos o inexistente entremostra a vontade de se materializar. Em conversa ociosa, três vaqueiros inventam um boi cuja idéia há de lhes sobreviver consolidada em mito incipiente (“Os três homens e o boi”). Alguém, agarrado a um fragmento de frase que lhe sobrenada na memória, tenta ressuscitar a mocidade esquecida (“Lá nas campinas”). Ameaça demoníaca de longe, um touro furioso se revela, visto de perto, um marrua manso (“Hiato”).

Noutras peças, o que não é passa a influir efetivamente no que é, a moldá-lo, a mudar-lhe a feição. O amante obstinado de uma megera, ao morrer, transmite por um instante aos demais a enganosa imagem que dela formara “Reminisção”). A idéia da existência, longe, de um desconhecido benfazejo ajuda um desamparado a safar-se de suas crises (“Rebimba o bom”). Um rapaz ribeirinho consome-se de saudades pela outra margem do rio, até descobrir o mesmo mistério na moça que o ama (“Ripuaria”). Alguém (“João Porém, o criador de perus”) cria amor e mantém-se fiel a uma donzela inventada por trocistas.

Num terceiro grupo de estórias por trás do enredo se delineia outra que poderia ter havido, a alternativa mais trágica a disponibilidade do destino. O povo de um lugarejo livra-se astutamente de um forasteiro doente em quem se descobre perigoso cangaceiro (“Barra de Vaca”). Um caçador vindo da cidade com intuito de pesquisas escapa com solércia há armadilhas que lhe prepara a má vontade do hospedeiro bronco (“Como ataca a sucuri”). Enganado duas vezes, um apaixonado prefere perdoar à amada e, para depois viverem felizes, reabilita a fugitiva com paciente labor junto aos vizinhos (“Desenredo”).

Noutros contos o desenlace não e um “desenredo”, mas uma solução totalmente inesperada. Atos e gestos produzem resultados incalculáveis num mundo que escapa às leis da causalidade: daí a multidão de milagres esperando a sua vez em cada conto. Por entender de través uma frase de sermão, um lavrador (“Grande Gedeão”) pára de trabalhar; e melhora de sorte. Um noivo amoroso que sonhava com um lar bonito e abandonado pela noiva; mas o sonho transmitiu-se ao pedreiro (“Curtamão”) e nasce uma escola. Para que a vocação de barqueiro desperte num camponês é preciso que uma enchente lhe desbarate a vida (“Azo de almirante”).

Nessa ordem de eventos, uma personagem folclórica (“Melim-Meloso”), cuja força consiste em desviar adversidades extraindo efeitos bons de causas ruins, apoderou-se da imaginação do escritor a tal ponto que ele

promete contar mais tarde as aventuras desse novo Malasarte. Infelizmente não mais veremos essa continuação que, a julgar pelo começo, ia desabrochar numa esplêndida fábula; nem a grande epopéia cigana de que neste livro afloram três leves amostras (“Faraó e a Água do rio”, “O outro ou o outro”, “Zingaresca”), provas da atracão especial que exercia sobre o erudito e o poeta esse povo de irracionais, ébrios de aventura e de cor, refratários é integração social, artistas da palavra e do gesto.

Muito tempo depois de lidas, essas histórias, e outras que não pude citar, germinam dentro da memória, amadurecem e frutificam, confirmando a vitória do romancista dentro de um gênero menor. Cada qual descobrira dentro das quarenta estórias a sua, a que mais lhe desencadeia a imaginação. Seja-me permitido citar as duas que mais me subjugaram pela sua condensação, dos romances em embrião que fazem descortinar os horizontes mais amplos. “Antiperipléia” e o relatório feito em termos ambíguos por um aleijado, ex-guia de cego, do acidente em que seu chefe e protegido perdeu a vida. Confidente, alcoviteiro e rival do morto, o narrador ressuscita-o aos olhos dos ouvintes enquanto tenta fazê-los partilhar seus sentimentos alternados de ciúme, compaixão e ódio; “Esses Lopes” é a história, também contada pela protagonista, de um clã de brutamontes violentos que pere-

cem um após outro, vítimas da mocinha indefesa a quem julgavam reduzir a amante e escrava. Duas obras-primas em poucas páginas que bastavam para assegurar a seu autor uma posição excepcional.

(In João Guimarães Rosa, ficção completa, Editora Nova Aguilar, 1994)

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