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Um Cartão de Paris – Rubem Braga

Um Cartão de Paris – Rubem Braga

Publicado em 1997, Um Cartão de Paris é uma seleção das últimas crônicas de Rubem Braga, o melhor escritor nesse gênero. Não chegam a constituir os grandes exemplares da espécie, encontráveis no excelente Ai de ti, Copacabana, mas são uma amostra da maestria do estilo do autor. Por isso, para a perfeita compreensão desse livro, é necessário entender o tipo de literatura em que se especializou.

A crônica surgiu em 1799, na França, no Journal des Débates. Chamada então de “feuilleton”, consistia num comentário que vinha no rodapé das notícias veiculadas.  Com o tempo, esses pequenos textos foram ganhando destaque, saindo dessa condição de mera nota e adquirindo certa independência.

No século XIX esse gênero entra em nossa literatura graças às mãos hábeis de José de Alencar, o primeiro cronista de qualidade. Mas é com Machado de Assis que começa a ganhar status literário, merecendo respeito da crítica. E já passa a ter sedimentadas muitas de suas características básicas.

Com o Modernismo, um casamento entre gênero e escola literária vai-se tornar extremamente conveniente, já que tal tipo de texto tem tudo o que a poética modernista pregava. Assim, a crônica acaba ganhando um lugar de destaque na produção escrita.

No entanto, deve-se, antes de tudo, entender que o seu hábitat impõe-lhe algumas de suas qualidades. Nascida nos jornais, ela acaba fortemente presa ao dia-a-dia, ao cotidiano. Porém, paradoxalmente consegue tratar o comum mostrando-lhe um caráter inusitado, diferente, curioso. É o incomum dentro do comum. Além disso, o seu tom inusitado faz com que a linguagem seja elaborada, ou seja, torne-se literária. Dessa forma, acaba-se tornando aquele texto em que qualquer fato inspira qualquer tipo de texto. Aliás, é essa quase anarquia, isto é, as múltiplas formas em que pode se apresentar, que lhe dá mais charme.

Portanto, veiculada no jornal, consegue ser ao mesmo tempo efêmera, passageira (pois sua base, a notícia, também o é) e despreocupada, leve, já que não vai em direção de altos temas filosóficos, sociológicos ou metafísicos. É, nos dizeres do crítico Antonio Candido, um gênero “ao rés do chão”, pois se hoje entretém o leitor, na semana seguinte servirá para embrulhar sapato ou peixe. 

Ainda assim, ou talvez por causa dessa preocupação, algumas crônicas tenham capacidade de tocar fundo o seu leitor. São justamente as muito bem elaboradas que furam o círculo jornalístico, ultrapassam a efemeridade e acabam por se tornar literárias, eternas. É nesse quadro que se encaixa a produção sempre antológica de Rubem Braga, o cronista por essência.

Para o autor, qualquer tema parece inspirá-lo, de simples luvas esquecidas atrás de uns livros até uma pescaria. Mas, apesar dessa miríade temática, seus textos, sempre dotados de um tom que mistura melancolia, saudosismo, simpatia e empatia, giram praticamente ao redor de um único assunto, ou variações dele: o bem perdido.

Rubem Braga sempre fala, por meio de sua dicção coloquial, bem fluente, de uma felicidade, de um bem-estar, ou de uma sensação, uma impressão boa (daí alguns críticos enxergarem nele resquícios simbolistas ou mesmo impressionistas) que perdemos, que está em nosso passado, seja real ou imaginário, seja pessoal ou coletivo. Ao falar de seu bem perdido, parece tocar no coração do leitor e atiçar nosso saudosismo, ou pela menos estimular um desejo de fuga de um cotidiano tão massacrante e desumanizante.

Nesse aspecto, pode-se entender, por exemplo, que a abordagem da infância, principalmente da relação que a criança tem com passarinhos, é uma evasão para o bem perdido da meninice.

Ou então a valorização do campo e de elementos da natureza como a busca desse mesmo lado, desse contato que perdemos, pessoal ou socialmente, com aspectos mais telúricos, com as árvores, com o sol, com o encantar-se com a chegada da Primavera.

É tocante também a paixão que o escritor tem pela casa. Como ele próprio disse, a casa é uma antecipação do túmulo. Talvez daí venha o apego a esse ambiente, que é valorizado em seu aconchego, como um retorno àquela confortável e talvez imaginária residência de nossa infância, em que nos sentíamos protegidos.

Mas o seu tema predileto está ligado à relação com as mulheres, que lhe proporciona grandes sensações que, mesmo depois de passadas, procura eternizar pela linguagem literária, muitas vezes poética até, de suas crônicas. Aqui está o grande bem perdido que quer recuperar por meio da escritura.

Portanto, produzindo textos de sublime beleza em cima de temas tão simples e cotidianos, Rubem Braga conquista o posto de ser uma das glórias da Literatura Brasileira. Um Cartão de Paris é, pois, obra que merece a leitura não apenas por estar em lista de vestibulares, mas por permitir nosso deleite.

A seguir, apresenta-se um resumo das crônicas de Um Cartão de Paris. Não esqueça que o mais importante é captar a maneira como o autor elabora a sua linguagem e como trabalha com suas reflexões e emoções, o que, portanto, torna imprescindível a leitura da obra. 

“Amemos Burramente” – de forma vertiginosa há uma associação de idéias em que fica a idéia de que a análise psicológica, que vai até as profundezas do ser humano, acaba por complicar as ações humanas, entre elas o amor. Sua conclusão é uma espécie de carpe diem intelectual na medida em que aconselha que se esqueçam os dramas de nossa alma para simplesmente amar, fruir o sentimento. 

“Os Pés do Morto” – a partir do relato de um velório o autor focaliza o olhar que a viúva lança sobre os pés do morto. Assim como o próprio Rubem Braga, ela passa a rememorar, a presentificar diante de si – mais precisamente diante de sua memória – o bem perdido, o tempo em que o cônjuge era vivo. De pé passa-se a idéia de andar, que sugere liberdade, o que termina por um canto em defesa do viver. 

“Águas de Leste e Papai Noel” – inspirado pela atmosfera melancólica da beira-mar, o autor começa, por meio de flashes de comentários e de relatos, a devastar nosso cotidiano burguês, atacando principalmente a maneira consumista com que tratamos o Natal. 

“As Músicas de Deus” – por meio da descrição da derrubada de uma casa, que considera um ato de desrespeito (mais uma vez, a valorização do bem perdido num passado intangível), o autor salta para a beleza de um blecaute, em que a ausência de energia elétrica, mergulhando o bairro na escuridão, torna mais fácil a atenção dedicada às coisas mais simples e essenciais da vida. 

“João Caetano não Estudou Anatomia” – o autor comenta, no seu costumeiro tom de saudosismo reverencioso, o manual de João Caetano sobre a Arte Dramática. Lembrando a idéia do teórico de que há quem defenda que um ator deve conhecer tudo, fica a idéia de que o caráter humano se sobressai sobre o técnico, já que é impossível apreciar a beleza feminina (tema muito comum em Rubem Braga) se se prestar atenção à anatomia de seu corpo e não às emoções que ele suscita. 

“Uma Senhora de Sorriso Triste” – quase como numa fábula, Rubem Braga rememora a história de uma senhora que fora o centro das atenções da alta sociedade, mas que, quando passou por dificuldades, viu-se abandonada. Quando voltou à roda, torna a ser mais uma vez homenageada. Mas só responde aos pouquíssimos que se mantiveram fiéis até na época amarga. O autor entende sua crônica como uma humilde homenagem à figura tão nobre. 

“Amor em Tempo de Gripe” – crônica que apresenta a idéia engraçada de que a gripe nos faz recuperar um bem perdido: a noção de afago e de proteção que conseguíamos quando ficávamos doentes durante a infância. Ao mesmo tempo, despreza essa doença, porque não possui o risco, a proximidade da morte que tantas outras enfermidades têm. 

“Viver sem Mariana é Impossível” – expõe-se aqui o reencontro do autor com uma velha amiga. Esse acontecimento é capaz de trazer de volta inúmeras lembranças do narrador, todas ligadas ao conhecido esquema de recuperação do bem perdido. 

“Miguel Torga Também Fala de Cachoeiro” – lendo o relato autobiográfico que o escritor português Miguel Torga faz de sua passagem ao Brasil, principalmente no que se refere à infância, Rubem Braga estabelece uma empatia ao perceber que o texto recupera o bem perdido do lusitano. No final, imagina que o Cachoeiro que o europeu cita seja sua cidade natal, Cachoeiro de Itapemirim. 

“Ainda Há Sol, Ainda Há Mar” – crônica que assume a forma de uma carta dirigida a uma amiga do autor que está adoentada em Paris. Sua função é, ao falar do calor, do sol, do mar da paisagem brasileira, levar vida àquela que está metida na fria capital francesa. 

“Rapaz do Interior Deseja Vencer na Capital” – utilizam-se aqui temas já abordados em outros textos célebres de Rubem Braga. Por meio do informe de uma carta que um rapaz endereça ao autor, pedindo conselhos e ajuda para vencer na cidade grande como escritor, o cronista espanta-se com o poder da palavra, já que não consegue lembrar o que tinha escrito que pudesse ter inspirado no jovem tal imagem do cronista como mentor. 

A preocupação com o poder oculto da palavra é tema comum do autor. Além disso, destaca-se também a leve crítica que se faz, por meio da descrição dos exemplares do jornalzinho escolar que o mancebo enviara, em relação à visão ingênua e um tanto pobre que este tem em relação ao ofício literário. 

“Um Bom Crime Chileno” – Rubem Braga vaza aqui sua vontade de escrever uma história sobre um crime. Narra a história de um alemão que consegue dar um golpe simulando sua própria morte, o que lhe permite embolsar uma boa quantidade de dinheiro. No entanto, tudo é descoberto e ele acaba preso. Seu único consolo é ter ouvido os elogios de seu superior à beira de sua suposta cova. 

“A Lua Semeava Crisântemos” – Mais uma crônica metalingüística. Fala-se aqui do domínio da linguagem que deve ter um publicitário, ou, no mínimo, alguém que lida com anúncios. Pode até ser uma tarefa que se assemelha à literária, no entanto, ao contrário desta, aquela é muito limitada, pois não permite os arroubos criativos como a frase um tanto surrealista que dá título ao texto. 

“Mecânica da Mulher Quando Distraída” – crônica bastante lírica e muito poética, em que se estabelece a comunhão entre as idéias de pescador, escritor, mar e mulher. Este texto é um exemplo típico de uma característica de Rubem Braga, muito próxima do Impressionismo, que é dar mais atenção a um clima, uma sensação, uma atmosfera, do que à narração em si. 

“De Goa a Ipanema” – de maneira surpreendente Rubem Braga consegue aqui o que é natural nele: tematizar sobre algo que aparentemente indicaria falta de assunto. A partir de uma lista telefônica esquecida que havia trazido de Goa, começa a tecer comentários metalingüísticos, principalmente sobre o uso que se faz do vocábulo “aliás”, que só no Brasil ganha valor enfático. 

“Os Portugueses Dizem Assim” – a partir de uma lista de provérbios (“rifões”) portugueses, Rubem Braga dá especial atenção à riqueza da expressividade da linguagem popular. Tema caríssimo no Modernismo. 

“Creme de Barbear em Espuma” – Rubem Braga relata as agruras por que passou quando, carente de espuma de barbear, acaba recebendo da empregada o produto, mas na forma de spray. Diante de tanta modernidade cheia de avisos (não furar, não aproximar do fogo), vê-se atordoado e amedrontado, o que o faz abandonar o avanço tecnológico e voltar a usar o sabonete. 

“Missa para Aluno Externo” – mais uma crônica que narra as peripécias da meninice. Rubem Braga relembra o tempo em que seu colégio instituiu que os alunos externos católicos deveriam assistir à missa de domingo no próprio colégio. Essa intromissão no ritmo dominical das famílias começou a se tornar incômoda. É abandonada em virtude das peraltices que as crianças aprontam durante o ritual litúrgico. 

“Os que Vieram Morrer no Outuno” – relatam-se aqui as lembranças dos mortos que fizeram parte da história de vida de Rubem Braga, como a cantora Elizete Cardoso e o editor José Olympio. De forma impressionista, é mais evocação, recuperação de uma atmosfera do que um relato. 

“De Como Eu Acabei Não Trabalhando no Teatro” – como a anterior, essa crônica relata os contatos importantes que Rubem Braga teve, dessa vez com gente do meio teatral: Tônia Carrero, Paulo Autran e Sílvia Bandeira. Narra-se sua dificuldade em se desvencilhar de um compromisso que havia assumido quando estava bêbado: fazer ponta numa peça. Era-lhe um tremendo sacrifício, principalmente por ser ele um homem avesso a horários rígidos. Consegue se livrar, mas com muito custo, pois tem medo de ofender seus companheiros, principalmente com a idéia de que o respeito ao horário seria condição escrava. 

“Senhor de Preto Visita o Jardim” – enquanto o cronista faz uma visita ao Jardim Botânico, o que lhe permite um contato com a natureza e a recuperação da sensação do eu-menino, nota a figura melancólica de um senhor de preto que misteriosamente também visita o mesmo local e de forma mais insistente, pois queria entrar antes da hora. Ao entrar, senta-se no banco e desliga seu olhar. Vai embora pouco tempo depois, deixando um ar de mistério sobre a sua pessoa. 

“Em um Quarto de Hotel em Paris” – extasiado pela presença feminina, o narrador propõe-se a ficar desenhando a figura de um aquecedor que estava em seu quarto. Essa fuga nada mais revela do que a importância da emoção que essa mulher está assumindo naquele momento. 

“Um Édito de Diocleciano” – ao comentar um édito (decreto) do imperador romano para conter a desvalorização da moeda frente aos ataques especulativos, permite-se uma crítica à situação atual, em que a ganância pessoal acaba por prejudicar o interesse coletivo. 

“Não Escrevi sobre o Livro da Moça” – Rubem Braga informa que abordou dois assuntos que não têm relação: a ressaca do mar, que encanta as crianças e também o lado menino do narrador, e o livro de poemas perfeitos de uma moça, que ele resolve não comentar. Na realidade, há ligação, pois ele sente que falta no livro da moça a energia de vida, o pulsar existencial poderoso como uma ressaca.

“O Largo do Poeta e o Busto do Rei” – a partir da descrição do Largo do Poeta (Rio de Janeiro), onde havia o busto de um rei europeu, recuperam-se fatos de um passado perdido e emotivo, até se chegar à figura de Carlos Drummond de Andrade, vítima do mau abastecimento de água. Termina por lembrar a conclamação que o cronista havia feito em sua antiga linguagem retórica – a  da qual faz ressalvas na atualidade –, pedindo que a figura do poeta fosse respeitada, pois não poderia mais sofrer com essa ineficiência de abastecimento. 

“Todo Mundo Pode Errar um Pouco” – ao apresentar alguns erros crassos de grandes escritores universais, o cronista acaba por provar que devemos ser tolerantes em relação aos erros encontrados em redações de estudantes. 

“A Chamada Cultura de Almanaque” – mais uma crônica em que os dotes de Rubem Braga são demonstrados, pois consegue do nada esticar assunto, viajar em considerações a respeito da alma e da existência humana. Dessa vez, seu ponto de partida são os almanaques e suas “pílulas” de cultura inútil, pois que fragmentadas e de pouca utilidade para a realidade presente. 

“Um Cronista da Índia se Queixa” – lendo as crônicas quinhentistas de Diogo Couto sobre a decadência dos costumes em Goa, o autor consegue um quase evidente paralelo com a nossa civilização decrépita. 

“Um Cartão de Paris” – crônica que se esvai deliciosamente em considerações dispersas que recuperam a felicidade simples da infância. No entanto, não se deve pensar que a velhice, tão distante da meninice, não tenha sua felicidade. A partir da menção de um cartão de Paris recebido de uma amiga recente, valoriza a idade avançada, pois tem a vantagem de cultivar amizades sinceras, já que ausentes de malícia ou interesse. 

“Acontece que Deus é Grande” – o cronista faz comentários sobre as cartas que recebe de mulheres solitárias pedindo conselhos. Sua concepção é a de que a vida é triste, idéia muito amarga para ser passada em conselhos.  Seu papel deveria ser o de animar ou passar uma mensagem de resignação, mas o enxerga como difícil. Então pensa em falar da necessidade de  se encarar, mesmo sem convicção, que Deus é grande e que a vida pode ser melhor. 

“A Catedral de Sal” – a beleza próxima, cotidiana e, talvez por isso, oculta ou desconhecida. Eis o tema dessa crônica, que relata a Catedral de Sal de Bogotá, belíssima, escavada em rocha de sal-gema, mas desconhecida de Gabriel García Márquez, poeta conterrâneo do templo religioso. 

“Os Ossos de Anchieta” – relatam-se as discussões sobre em que local devem ficar as relíquias do Padre Anchieta, se no Espírito Santo, terra do autor, ou se em São Paulo, cidade fundada pelo jesuíta. No fim, Rubem Braga conclui que não adianta tanta discussão, pois os restos mortais do padre estão espalhados pelo mundo. O mais importante não seria a matéria, mas a idéia, o valor que representa o padre. 

“O Milagre da Pintura” – belíssima crônica que, por meio da leitura de algumas análises sobre pintura, fala sobre o ofício do crítico, que deve ser de amor à arte. Ressalta também que toda apreciação não deve amputar, ou seja, não deve tolher possibilidades para outras leituras sobre o objeto estético. 

“O Vento que Vinha Trazendo a Lua” – como num quadro impressionista, Rubem Braga fala da ascensão da Lua e de todo um clima de encantamento que o ambiente vai proporcionando, resvalando mais uma vez na temática tradicional do autor, que é a recuperação de um bem perdido, aqui se manifestando como um contato com a Natureza. 

“A Paz de Santa Maria de Maricá” – a crônica fala de uma cidade, que dá título ao texto, em que reina a paz. Esse clima é representado pela relação amistosa entre um gato, um cachorro e um papagaio, que passam o tempo brincando entre si. Tal tranqüilidade é quebrada pelo costume do município de usar alto-falantes.

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