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Vila Rica – Cláudio Manuel da Costa

Vila Rica – Cláudio Manuel da Costa

É o mais barroco dos autores árcades mineiros. Contemporâneo da Arcádia Lusitana, fundada em 1756, o escritor procura equilibrar sua forte vocação barroca à tendência neoclassicista. Por outro lado, introduz elementos locais em sua poesia, buscando adaptar a descrição da paisagem natal ao modelo retórico árcade. Ao narrar a história da Capitania de Minas no poema Vila Rica, expressa forte sentimento nacionalista, valorizando esteticamente as riquezas naturais de sua terra.

A impossibilidade de implantar o cenário da Arcádia nas Minas sem passado, onde o presente apenas começa a ser extraído da terra, abre à poesia de Cláudio Manuel uma dimensão iluminista, manifesta sobretudo no poema Vila Rica. Aí, a referência fundamental não é o modelo oficial de epopéia clássica e barroca, que se estende de Virgílio a Tasso, mas, surpreendentemente, Voltaire.

Como ele, Cláudio Manuel tenta adaptar os gêneros clássicos ao terreno ainda não delimitado de um novo recorte ideológico do mundo. Experimenta no Vila Rica os mesmos problemas e soluções encontrados por Voltaire na Henriade, da dificuldade de implementação da retórica épica à construção de um discurso claro e coerente, tendo por pressuposto a veracidade dos fatos, atestada por documentação exaustiva e confiável. Embrionário e ainda não codificado, esse novo discurso aloja-se nas margens do texto, sob a forma de notas e do ensaio introdutório intitulado Fundamento Histórico.

Tais procedimentos, raros em poesia, constituem no Vila Rica um discurso em prosa paralelo ao poema e exercem uma função que a forma épica não pode assumir: a prática de uma nova inteligibilidade, a reclassificação dos saberes. Seus critérios radicalmente diferentes dos que sustentam o poema desentronizam o modelo épico e instituem o moderno discurso da história.

VILA RICA (fragmento)

Cantemos, Musa, a fundação primeira
Da Capital das Minas; onde inteira
Se guarda ainda, e vive inda a memória,
Que enche de aplauso de Albuquerque a história.

Tu, pátrio ribeirão, que em outra edade

Deste assunto a meu verso, na egualdade
De um épico transporte, hoje me inspira
Mais digno influxo; por que entoe a lira;

Porque leve o meu canto ao clima estranho
O claro herói, que sigo, e que acompanho:
Faze vizinho ao Tejo, enfim que eu veja
Cheias de Ninfas de amorosa inveja. …

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