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Zélica e outros – Flávio José Cardoso

Zélica e outros – Flávio José Cardoso

Em seus livros de contos evidencia-se a fidelidade ao homem da ilha, de vida simples, sem heroicidade, que age em busca da prevenção da essencialidade de si mesmo enquanto ser humano, levando o leitor a identificar as raízes portuguesas desse universo recriado, em que as personagens se constroem em meio ao conflito gerado pelo apego à terra e a atração pelo mar. Em Zélica e outros, Flávio José Cardoso explora os conflitos sociais e humanos numa posição que oscila entre o trágico e o humorístico. Os achados humorísticos são responsáveis pela diluição da tensão dos temas abordados. Ou seja: ao constatar aspectos negativos e opressores que aniquilam o homem, chama a atenção do contexto social sem que transpareça, em primeiro plano, na narrativa, a denúncia ou a crítica, sobressaindo muito mais a atitude de constatação de uma realidade. Isto decorre do elemento humorístico explorado. Conscientes de sua própria fragilidade e inferioridade social, as personagens desenvolvem uma luta pela reconquista de um status que as reabilita diante da comunidade. Nessa luta optam pelos meios disponíveis, os quais nem sempre são adequados. Daí, a tensão diluída. Em conseqüência, a tragicidade dos ingredientes temáticos abordados, como a solidão existencial, a miséria econômica, os vícios, a loucura, etc., deságua, em geral, em soluções cômicas ou líricas. A literatura de Flávio José Cardoso resgata a dimensão real e universalidade do cotidiano ilhéu, reavaliando-o. ao mesmo tempo, recupera a memória da cultura açoriana, não em seu momento inicial, passado, como o faz Almiro Caldeira, mas em seu momento presente, onde a interferência dos valores culturais urbanizados é detectada como uma das principais causas da crise e dos conflitos gerados.

“Zélica e Outros” é o segundo livro de contos de Flávio José Cardoso, ambientado na ilha de Santa Catarina, como o primeiro, num tempo não tão distante – em que ela mantinha aqueles ares mais ingênuos, não era o agitado pólo turístico que é hoje.

Em “Zélica”, segundo o próprio autor, na apresentação do livro, permanece um meio tom nostálgico, permanecem os personagens da praia e dos vilarejos interioranos do primeiro livro, “Singradura”. Em “Zélica” predomina o burlesco – a linguagem está mais solta.

São contos com mais movimento, enredos mais demorados, expressão mais direta. As paixões são elementares, o sexo, a fome, a cachaça, o amor-próprio com suas honras antiquadas, a cobiça – através desses conflitos na aparência primários, o autor dá um retrato em profundidade da condição humana, com humor e ironia.

O primeiro conto – “Camélia Nicó no gasto da Liberdade” nos conta a história – curiosa história – de uma mulher viúva e de um homem – Tibério – casado, mas com pretensões de direitos a favores sexuais dela, ao descobrir que ela, a Camélia do título, por sua vez, estava de namoro, às escondidas, com um rapaz mais jovem do que ela e noivo, Nelo Serrão. Uma narrativa gostosa, bem humorada e até irreverente, com desfecho surpreendente. O vocabulário típico da ilha, quase um estudo lingüístico, pode, quem sabe, apresentar palavras desconhecidas, se lido por pessoas de outras regiões do país.

Em “Lourenço Roxadel garante a honra da casa”, o autor conta uma história de impacto moral. O personagem título é pai de Altino, casado com Dilnéia há pouco mais de um mês. Acontece que Altino, azarado de carteirinha, sentiu-se mal, caiu, foi para o fundo da cama, paralisado da cintura para baixo e não houve mais remédio ou médico ou curandeira que o curasse. E a moça ficou sem marido. O sogro começou a ficar preocupado com a juventude da moça e a honra do filho. E propôs-se a fazer as honras da casa.

“Zélica Tavares cuja filha, meu Deus, que malvadeza” conto que dá titulo ao livro, trata da mãe adotiva de Marivone, moça recatada que ela educou para ser digna e casar bem. E Marivone conhece Roberval, eles se apaixonam e o namoro ia bem, até que dona Zélica pega os dois em flagrante fornicação. Mas esta não foi a pior crise. Superada esta, as coisas voltaram a ficar tranqüilas, houve até pedido de casamento. Mas Zélica viu o rapaz, no trabalho, certo dia, conversando com uma mulher que ela achou ser uma vadia. Que na verdade, era parente do noivo. E o as coisas ficaram pretas de novo, culminando com os pombinhos indo morar com quem, adivinhem? Outra narrativa espirituosa, evidenciando que preconceito não é o melhor caminho para a harmonia e felicidade.

Em “Pedrinho Menez vai voltar rico”, o personagem título nunca tinha saído do lugar onde morava. De repente, foi para o Rio Grande do Sul: disse que ia fazer fortuna. Na ocasião, ninguém entendeu nada. Depois, souberam que foi o pai de Vidalma, a moça de quem ele gostava – não deixou que se casassem, pois ele era pobre. Então Pedrinho foi embora, prometendo só voltar quando ficasse rico.

No começo, escrevia sempre. Depois, com vergonha de nada ter conseguido, disse que só voltava a escrever quando fizesse fortuna. Ninguém acreditava que ele voltasse, somente a mãe e Vidalma ainda guardavam esperança do retorno de Pedrinho.

Depois de treze anos, ele apareceu, muito alinhado, num carro de praça alugado na cidade. Bateu à porta de Vidalma para falar com ela e com o velho Lindauro Duarte, o pai da moça. Não foi ver nem a sua mãe, Dona Luzia. Queria acertar, primeiro, as coisas com Vidalma.

Disse ele que estava noivo da filha do patrão, no Rio Grande, o que o deixaria rico se o casamento se concretizasse. Mas ele largaria tudo para ficar com Vidalma. No entanto, Lindauro, o pai, não concordava de jeito nenhum: pobre, para sua filha, nunca.

Vidalma ficou desolada. Pedrinho deixou algum dinheiro com a mãe e partiu novamente. Voltou para o Rio Grande do Sul, onde não tinha noiva alguma, nem patrão rico, nem trabalho, coisa nenhuma. Mas ainda ia ficar rico, ia voltar e mostrar a todos a sua fortuna.

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